Reflexão para Terça-feira da 19ª Semana do Tempo Comum – (Mt 18,1-5.10.12-14)

“Não desprezeis nenhum destes pequeninos”

Os pequenos no centro do Reino: uma leitura de Mt 18,1-5.10.12-14 à luz da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O Evangelho de Mateus 18,1-5.10.12-14 nos conduz ao coração de uma das grandes preocupações da mensagem de Jesus: quem ocupa o centro do Reino de Deus? A pergunta dos discípulos — “Quem é o maior no Reino dos Céus?” — revela uma mentalidade marcada pela busca de posição, prestígio e poder. Jesus, porém, responde deslocando radicalmente o eixo da discussão: chama uma criança, coloca-a no meio e afirma que é necessário tornar-se como uma delas.

A cena não é apenas uma lição de humildade individual. Trata-se de uma reviravolta social, religiosa e política. Jesus questiona uma sociedade organizada segundo hierarquias de honra e vergonha, pureza e impureza, inclusão e exclusão. O Reino que ele anuncia não reproduz os mecanismos de dominação existentes. Ao contrário, coloca no centro aqueles que costumam ser colocados nas margens.

Essa perspectiva encontra profunda sintonia com a Teologia Latino-Americana, especialmente com a opção preferencial pelos pobres. A pergunta fundamental deixa de ser simplesmente “quem é o maior?” para tornar-se: quem são os pequenos que nossa sociedade não enxerga? Quem são aqueles que foram empurrados para as periferias da existência? Quem está sendo desprezado? Quem está perdido e precisa ser procurado?

A Leitura Popular da Bíblia nos ajuda justamente a fazer esse movimento. O texto bíblico não é lido apenas como objeto acadêmico. Ele é colocado em diálogo com a vida do povo. A comunidade lê a Bíblia e, ao mesmo tempo, lê a realidade. A Palavra ilumina a vida e a vida ilumina a Palavra.

Assim, Mt 18,1-5.10.12-14 pode ser compreendido como uma convocação para que a Igreja volte a olhar para os pequenos, procure os que se perderam, combata as estruturas que produzem exclusão e faça da comunidade cristã um espaço onde ninguém seja considerado descartável.

1. O contexto do Evangelho de Mateus: uma comunidade em meio a conflitos

O Evangelho de Mateus foi escrito para uma comunidade cristã que vivia em um contexto de profundas transformações. A destruição de Jerusalém e do Templo pelos romanos, no ano 70 d.C., havia provocado uma verdadeira ruptura no judaísmo e também atingido as comunidades que reconheciam Jesus como Messias.

Mateus escreve, portanto, em um período marcado por conflitos religiosos, sociais e políticos. A comunidade cristã precisava discernir sua identidade e sua maneira de viver diante de uma sociedade hierarquizada e diante das disputas internas que também podiam reproduzir relações de poder.

É nesse contexto que aparece o chamado “discurso comunitário” de Mateus 18. O capítulo trata da vida da comunidade: os pequenos, os escândalos, a correção fraterna, o perdão, a reconciliação e a responsabilidade pelos irmãos e irmãs.

Não é casual que o capítulo comece com a pergunta sobre quem é o maior.

Mateus apresenta uma comunidade ameaçada pela tentação de reproduzir os mesmos critérios de grandeza existentes na sociedade. Jesus, entretanto, apresenta outro critério: a grandeza consiste em colocar-se a serviço dos pequenos.

A comunidade cristã não pode ser uma reprodução em miniatura das estruturas de poder da sociedade. Ela precisa ser sinal de uma nova humanidade.

2. “Quem é o maior?” — a pergunta que revela uma sociedade hierarquizada

O texto começa: “Naquela hora, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: ‘Quem é o maior no Reino dos Céus?’” A pergunta parece simples, mas é profundamente reveladora.

“Naquela hora, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: ‘Quem é o maior no Reino dos Céus?’”

Os discípulos ainda pensam segundo uma lógica de classificação. Querem saber quem ocupa o primeiro lugar. A preocupação não é “como servir?”, mas “quem será maior?” Essa mentalidade não pertence somente ao passado.

Também hoje perguntamos:

  • Quem tem mais poder?
  • Quem tem mais dinheiro?
  • Quem ocupa posições importantes?
  • Quem possui maior influência?
  • Quem merece ser ouvido?
  • Quem tem mais visibilidade?
  • Quem determina os rumos da sociedade?
  • Quem pode ser descartado porque “não produz”?

A pergunta dos discípulos permanece atual porque nossa sociedade também estabelece hierarquias de valor. Existem pessoas consideradas importantes e pessoas consideradas invisíveis. Há vidas que recebem atenção e vidas que permanecem esquecidas. Há crianças protegidas e crianças submetidas à fome, à violência e ao abandono. Há idosos respeitados e idosos descartados. Há trabalhadores valorizados e trabalhadores explorados. Há migrantes acolhidos e migrantes rejeitados. Há pessoas que vivem nos centros urbanos e outras que são empurradas para as periferias.

A pergunta “quem é o maior?” continua presente quando a sociedade mede a dignidade humana pelo dinheiro, pelo status, pela profissão, pela produtividade ou pelo poder. Jesus responderá justamente invertendo essa lógica.

3. “Se não vos converterdes”: a conversão como mudança de lugar

Jesus não responde imediatamente com um discurso. Ele realiza um gesto: “Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles.” A criança passa a ocupar o centro. Esse detalhe é fundamental. Jesus não coloca a criança simplesmente ao lado. Ele a coloca no meio. A criança torna-se uma espécie de chave hermenêutica para compreender o Reino.

Em nossa cultura contemporânea, tendemos a associar a criança à inocência, à pureza e à espontaneidade. Entretanto, no mundo antigo, a criança não possuía necessariamente esse simbolismo romântico.

A criança encontrava-se em uma posição social de dependência. Não possuía poder, prestígio ou autonomia. Era alguém que precisava ser protegido. Portanto, Jesus não está dizendo simplesmente: “sejam inocentes como as crianças”. Ele está ensinando algo muito mais profundo: o Reino de Deus começa quando aqueles que não possuem poder são colocados no centro.

Por isso Jesus afirma: “Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus.” A conversão exigida por Jesus envolve uma mudança radical de perspectiva. É preciso abandonar a lógica da superioridade e assumir a lógica do serviço. A conversão não é apenas interior. Ela possui uma dimensão social, comunitária e estrutural. Converter-se significa mudar a maneira de olhar para o outro.

Significa perguntar: Quem está no centro de nossas decisões? E também: Quem está sendo deixado para trás?

4. A criança como símbolo dos pequenos

Jesus continua: “Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus.” Aqui ocorre uma inversão completa.

No mundo dos homens, maior é quem sobe. No Reino de Deus, maior é quem se faz pequeno. No mundo dos homens, grandeza significa dominar. No Reino, grandeza significa servir. No mundo dos homens, poder significa colocar os outros abaixo. No Reino, poder significa colocar-se ao lado dos que sofrem.

A Teologia Latino-Americana encontrou nessa dinâmica um dos fundamentos de sua compreensão da missão cristã.

A opção pelos pobres não significa simplesmente realizar obras assistenciais em favor dos pobres. Significa reconhecer que Deus olha a história a partir daqueles que sofrem e que a comunidade cristã deve assumir essa perspectiva.

A pobreza, portanto, não pode ser tratada como uma fatalidade.

É necessário perguntar:

  • Por que existem pobres?
  • Quem produz a pobreza?
  • Quais estruturas permitem que alguns acumulem enquanto outros não possuem o necessário para viver?
  • Quem se beneficia da exclusão?

Essa perspectiva leva a uma compreensão mais profunda do Evangelho. Jesus não está simplesmente dizendo: “tenham carinho pelas crianças”. Ele está questionando uma sociedade que produz pequenos.

5. “Quem recebe uma criança como esta em meu nome, a mim recebe”

O versículo 5 aprofunda ainda mais a mensagem: “E quem recebe uma criança como esta em meu nome, a mim recebe.” Aqui acontece algo extraordinário. Jesus identifica-se com o pequeno. Receber o pequeno é receber o próprio Cristo. Essa afirmação possui consequências pastorais imensas.

A comunidade cristã não pode afirmar que ama Jesus enquanto despreza aqueles com quem Jesus se identifica. A espiritualidade cristã precisa passar pelo encontro concreto com o outro.

O Cristo que encontramos na Eucaristia é o mesmo Cristo que encontramos no pobre, no abandonado, no migrante, na pessoa sem teto, na criança violentada, no trabalhador explorado, na mulher vítima de violência, no indígena ameaçado, no idoso abandonado e em todos aqueles que a sociedade considera sem importância.

Aqui encontramos uma profunda proximidade com Mateus 25: “Eu tive fome e me destes de comer.” A fé cristã torna-se inseparável da defesa da vida.

6. “Não desprezeis nenhum destes pequeninos”

O versículo 10 é ainda mais contundente: “Cuidado para não desprezar nenhum desses pequeninos.” A palavra “desprezar” precisa ser levada a sério.

O problema não é somente praticar violência diretamente contra alguém. Existe também a violência do desprezo. Desprezar é considerar que alguém não importa. É olhar para determinadas pessoas como se fossem invisíveis. É considerar que sua dor não merece atenção. É naturalizar a pobreza. É acostumar-se com a fome. É considerar normal que crianças vivam nas ruas. É aceitar que moradores das periferias sejam vítimas recorrentes da violência. É tratar migrantes como ameaça. É considerar indígenas como obstáculo ao desenvolvimento. É olhar para pessoas em situação de rua e simplesmente atravessar a calçada. É construir uma sociedade em que algumas vidas parecem valer mais do que outras.

O Evangelho denuncia essa lógica. Nenhum pequeno pode ser desprezado.

7. Quem são os “pequeninos” hoje?

A Leitura Popular da Bíblia nos convida a fazer uma pergunta indispensável: Quem são os pequeninos de nosso tempo?

Eles possuem muitos rostos.

  • São as crianças que passam fome.
  • São os jovens sem oportunidades.
  • São os trabalhadores submetidos à precarização.
  • São os desempregados.
  • São as famílias sem moradia digna.
  • São os moradores das periferias.
  • São os povos indígenas ameaçados em seus territórios.
  • São os quilombolas.
  • São os migrantes e refugiados.
  • São as mulheres vítimas da violência.
  • São as vítimas do racismo.
  • São as pessoas com deficiência quando privadas de acessibilidade e participação.
  • São os idosos abandonados.
  • São as pessoas encarceradas e suas famílias.
  • São aqueles que vivem em situação de rua.
  • São aqueles que sofrem dependência química e são tratados apenas como problema.
  • São todos aqueles que, por diferentes razões, foram colocados à margem.

A pergunta do Evangelho torna-se então uma pergunta pastoral: Nossa Igreja sabe reconhecer os pequenos? Mais ainda: Os pequenos estão apenas recebendo nossa assistência ou estão participando da construção da própria comunidade?

8. A parábola da ovelha perdida: Deus não aceita a lógica do descarte

Jesus continua: “Que vos parece? Se um homem tem cem ovelhas e uma delas se perde, não deixará ele as noventa e nove nos montes para procurar aquela que se perdeu?”

A parábola revela o coração de Deus. Para a lógica econômica, uma ovelha poderia representar apenas uma perda de 1%. Para Deus, porém, uma vida perdida é uma vida que precisa ser procurada. A lógica do Reino não é a lógica da estatística.

Não diz: “Temos noventa e nove, então está tudo bem.” Deus pergunta: “Onde está aquela que se perdeu?” Essa é uma pergunta profundamente pastoral.

A Igreja não pode contentar-se com aqueles que já estão dentro. Ela precisa procurar os que ficaram para trás.

9. Uma Igreja que sai à procura

Aqui encontramos uma das dimensões mais importantes da ação pastoral. Uma Igreja fiel ao Evangelho não pode esperar passivamente que os pobres venham até ela. É necessário sair ao encontro. Essa dinâmica aparece fortemente na tradição da Igreja latino-americana: uma Igreja que vai às periferias, às comunidades, às famílias, aos territórios onde a vida está ameaçada.

A comunidade precisa tornar-se uma Igreja:

  • missionária;
  • samaritana;
  • popular;
  • próxima;
  • acolhedora;
  • comprometida com a justiça;
  • defensora da vida;
  • capaz de escutar.

A ovelha perdida não é culpabilizada primeiro. Ela é procurada. Essa é uma das grandes diferenças entre uma pastoral de acolhida e uma pastoral de julgamento.

10. A opção preferencial pelos pobres e Mt 18

A opção preferencial pelos pobres, desenvolvida de modo particular na tradição latino-americana, encontra em Mt 18 uma forte fundamentação evangélica.

Jesus não diz simplesmente: “Tenham preferência afetiva pelos pobres.” Ele reorganiza a própria compreensão da comunidade. O pequeno é colocado no centro. Isso significa que a pastoral precisa ser avaliada a partir dos últimos.

Uma paróquia pode perguntar:

  • Quem participa de nossas decisões?
  • Quem permanece fora?
  • Quem consegue chegar até nós?
  • Quem não consegue chegar?
  • Que linguagem utilizamos?
  • Nossas celebrações são acessíveis aos pobres?
  • Nossas estruturas acolhem os marginalizados?
  • Nossa catequese alcança as periferias?
  • Nossa ação social promove autonomia ou apenas assistência?

Essas perguntas transformam o Evangelho em critério de discernimento pastoral.

11. Leitura Popular da Bíblia: Palavra de Deus e vida do povo

A Leitura Popular da Bíblia parte de uma convicção fundamental: a Bíblia precisa ser lida a partir da vida e para transformar a vida.

Quando uma comunidade popular lê Mt 18, ela não pergunta apenas: “Qual era o significado da criança no século I?” Pergunta também: “Quem é a criança que hoje está no meio de nós?”

  • Pode ser uma criança em situação de rua.
  • Pode ser uma criança vítima de violência.
  • Pode ser uma criança indígena.
  • Pode ser uma criança negra discriminada.
  • Pode ser uma criança que vive em uma família sem renda suficiente.
  • Pode ser uma criança cujo futuro foi comprometido pela desigualdade social.

A Bíblia passa a funcionar como espelho e janela. Espelho, porque revela nossa realidade. Janela, porque permite enxergar uma realidade nova segundo o projeto de Deus.

12. Jesus e a inversão das estruturas de poder

O Evangelho apresenta uma verdadeira revolução de valores. Jesus não elimina a noção de autoridade, mas redefine sua finalidade. A autoridade existe para servir. A liderança existe para proteger. A grandeza existe para cuidar. O poder existe para promover a vida. Essa perspectiva possui grande importância para a Igreja.

Uma Igreja que reproduz estruturas de poder, privilégios e exclusões contradiz o gesto de Jesus que coloca uma criança no centro.

Por isso, Mt 18 também precisa ser lido como uma crítica profética às formas de clericalismo, autoritarismo e abuso de poder.

Onde o poder eclesial se transforma em instrumento de dominação, os pequenos deixam de estar no centro. Onde a autoridade se converte em serviço, o Reino começa a aparecer.

13. Os pequenos como sujeitos da evangelização

A Teologia Latino-Americana oferece ainda uma contribuição decisiva: os pobres não são apenas objetos da evangelização; são também sujeitos da evangelização.

Isso muda radicalmente a pastoral. Não se trata apenas de: “fazer algo pelos pobres”. É necessário: caminhar com os pobres. E mais: escutar os pobres. E ainda: aprender com os pobres.

As Comunidades Eclesiais de Base expressaram historicamente essa dinâmica. O povo reunido ao redor da Palavra lê a realidade, identifica as injustiças, celebra a fé e procura caminhos concretos de transformação.

Assim, a criança colocada no centro por Jesus pode representar também uma inversão do modo como compreendemos a missão.

Aqueles que estavam nas margens tornam-se protagonistas.

14. “Aquele que se perdeu”: uma Igreja que não abandona ninguém

A parábola termina com uma afirmação decisiva: “Do mesmo modo, vosso Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos.” Esse versículo revela o desejo de Deus. Deus não quer que ninguém se perca. Essa afirmação possui uma enorme força diante da cultura do descarte.

Nossa sociedade frequentemente considera algumas pessoas como “perdidas”:

  • “Esse jovem não tem jeito.”
  • “Essa pessoa nunca vai mudar.”
  • “Esse pobre não vai conseguir.”
  • “Esse preso é irrecuperável.”
  • “Esse dependente químico é um caso perdido.”
  • “Essa família não tem solução.”

O Evangelho recusa essa linguagem.

Para Deus, ninguém é descartável. Ninguém é definitivamente perdido. Ninguém pode ser reduzido ao seu fracasso.

15. A dimensão sociotransformadora do Evangelho

Uma leitura latino-americana de Mt 18 não pode terminar em uma exortação individual à humildade. O texto possui uma dimensão sociotransformadora.

Se Deus não quer que nenhum pequeno se perca, então a comunidade cristã precisa enfrentar as estruturas que produzem exclusão. Isso implica trabalhar concretamente:

Contra a fome

Não apenas distribuindo alimentos, mas lutando por políticas que garantam segurança alimentar e dignidade.

Contra a pobreza

Não apenas fazendo caridade, mas questionando estruturas econômicas que produzem desigualdade.

Pela moradia

Porque uma família sem casa digna encontra-se em situação de vulnerabilidade profunda.

Pela educação

Porque o acesso ao conhecimento é instrumento de emancipação.

Pela saúde

Porque cuidar da vida é parte da missão cristã.

Pelos povos indígenas

Porque seus territórios, culturas e vidas precisam ser respeitados.

Pelos trabalhadores

Porque o trabalho deve ser instrumento de dignidade, e não de exploração.

Pelas mulheres vítimas de violência

Porque nenhuma forma de violência pode ser naturalizada.

Pelos migrantes e refugiados

Porque ninguém abandona sua terra por vontade própria quando as condições de vida permanecem seguras.

Pelas pessoas em situação de rua

Porque ninguém deve ser condenado à invisibilidade.

A pastoral social nasce justamente desse compromisso.

16. Da assistência à transformação

A caridade cristã é indispensável. Entretanto, a Teologia Latino-Americana nos ensina a perguntar se nossa ação pastoral permanece apenas no nível assistencial. Dar alimento a quem tem fome é necessário. Mas precisamos perguntar: Por que existe fome?

Acolher uma família sem moradia é necessário. Mas precisamos perguntar: Por que tantas famílias não têm acesso à habitação?

Atender uma pessoa ferida pela violência é necessário. Mas precisamos perguntar: Quais estruturas produzem essa violência?

A ação cristã precisa unir compaixão e transformação social. A compaixão cuida da pessoa concreta. A transformação busca modificar as condições que produzem sofrimento. As duas dimensões são inseparáveis.

17. Uma pastoral construída a partir dos pequenos

Mt 18 pode inspirar uma verdadeira revisão pastoral. Uma comunidade poderia assumir alguns compromissos concretos:

1. Escutar os pequenos.

Criar espaços onde pobres, crianças, jovens, idosos, migrantes e grupos marginalizados possam falar e participar.

2. Visitar as periferias.

Não esperar que todos cheguem à paróquia, mas fazer da comunidade uma Igreja em saída.

3. Fortalecer as CEBs.

Criar pequenos grupos de leitura comunitária da Bíblia vinculados à realidade social.

4. Formar consciência crítica.

Ajudar o povo a identificar as causas sociais da pobreza e da exclusão.

5. Fortalecer as pastorais sociais.

Articular fé e compromisso com a vida concreta.

6. Promover participação.

Os pobres precisam participar das decisões que dizem respeito à própria comunidade.

7. Defender direitos.

A Igreja precisa estar ao lado daqueles cujos direitos são violados.

8. Construir redes.

Paróquias, movimentos sociais, organizações comunitárias, pastorais e instituições públicas podem cooperar na defesa da vida.

9. Educar para a solidariedade.

A fé cristã precisa formar pessoas capazes de reconhecer o outro como irmão e irmã.

10. Fazer da liturgia uma experiência de Reino.

A celebração não pode terminar quando termina a missa. A Eucaristia deve conduzir ao compromisso com os pequenos.

18. A criança no centro e a Eucaristia no centro da vida

A liturgia oferece uma chave importante. Na Eucaristia, a comunidade reúne-se ao redor de Cristo. Mas Cristo se identifica com os pequenos. Assim, não podemos separar o altar da vida.

A mesa eucarística precisa tornar-se inspiração para mesas onde ninguém passe fome. O pão consagrado precisa despertar compromisso com aqueles que não possuem pão. O cálice da aliança precisa conduzir à construção de relações novas. A comunhão sacramental precisa gerar comunhão social.

A Igreja celebra o Cristo presente na Eucaristia e é enviada a reconhecê-lo presente nos pobres. A liturgia torna-se, então, fonte e ápice de uma espiritualidade comprometida com a transformação da realidade.

19. Uma espiritualidade da busca

A imagem da ovelha perdida permite recuperar uma espiritualidade muito importante: a espiritualidade da busca. Não basta esperar. É necessário procurar.

  • Procurar quem se afastou.
  • Procurar quem foi ferido pela Igreja.
  • Procurar quem se sente indigno.
  • Procurar quem foi excluído.
  • Procurar quem deixou de participar.
  • Procurar quem perdeu a esperança.
  • Procurar quem foi empurrado para a periferia.

A Igreja não pode transformar sua missão em manutenção de estruturas. Ela precisa recuperar a dinâmica missionária de Jesus. Há sempre alguém para procurar.

20. Para uma Igreja que coloque os pequenos no meio

Mt 18,1-5.10.12-14 oferece um verdadeiro programa de eclesialidade. Jesus pega uma criança e a coloca no meio. Esse gesto pode ser compreendido como um símbolo da Igreja desejada pelo Evangelho.

Uma Igreja que coloca os pequenos no meio:

  • coloca a vida no centro;
  • coloca a dignidade humana no centro;
  • coloca os pobres no centro;
  • coloca a justiça no centro;
  • coloca a misericórdia no centro;
  • coloca a participação no centro;
  • coloca o cuidado no centro;
  • coloca a defesa dos vulneráveis no centro.

Isso significa que os pobres não podem estar apenas nas fotografias das campanhas de solidariedade. Precisam estar no centro das preocupações, das decisões e da missão da Igreja.

Conclusão: “Não deixeis que nenhum pequeno se perca”

Mt 18,1-5.10.12-14 começa com uma pergunta sobre grandeza e termina revelando o coração do Pai: ninguém deve se perder.

Entre essas duas afirmações está o gesto de Jesus que coloca uma criança no meio. A resposta é clara: a verdadeira grandeza consiste em colocar os pequenos no centro. Essa mensagem permanece profundamente atual.

Em uma sociedade marcada pela desigualdade, pelo individualismo, pela violência e pela cultura do descarte, Jesus continua colocando diante de nós os pequenos.

Ele nos pergunta:

  • Onde estão aqueles que foram esquecidos?
  • Quem está sendo desprezado?
  • Quem está ficando para trás?
  • Quem está perdido?

E, sobretudo: O que estamos fazendo para procurá-lo?

A Leitura Popular da Bíblia nos ensina que não basta interpretar o texto. É necessário permitir que o texto interprete nossa vida.

A Teologia Latino-Americana nos recorda que Deus não é indiferente ao sofrimento dos pobres. O Deus revelado em Jesus Cristo escuta o clamor dos pequenos e convoca sua comunidade a participar da construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

Por isso, o Evangelho de Mateus não nos convida simplesmente a “ser humildes”. Ele nos convida a mudar o lugar a partir do qual olhamos o mundo. Se continuarmos olhando a realidade a partir dos grandes, veremos os pequenos como problema.

Se aprendermos a olhar a realidade a partir dos pequenos, veremos aquilo que Jesus viu: pessoas cuja dignidade não pode ser negociada. A Igreja será verdadeiramente sinal do Reino quando conseguir dizer, com sua vida e suas opções: nenhuma criança é descartável; nenhum pobre é invisível; nenhum migrante é estrangeiro diante de Deus; nenhum indígena é obstáculo; nenhum trabalhador é mercadoria; nenhuma pessoa em situação de rua é lixo; nenhuma vida é insignificante. Porque o próprio Cristo afirmou: “Quem recebe uma criança como esta em meu nome, a mim recebe.” E porque o Pai deseja que nenhum desses pequeninos se perca.

Essa é a missão da Igreja: colocar os pequenos no centro, procurar os que se perderam e transformar as estruturas que produzem exclusão. Não para que os pobres simplesmente encontrem lugar dentro de nossas estruturas, mas para que, a partir deles e com eles, toda a sociedade seja transformada pela lógica do Reino de Deus.


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