“O que Deus uniu, ninguém separe”: dignidade, reciprocidade e cuidado na leitura de Mt 19,3-12
Por Pe. Hermes A. Fernandes
O texto de Mateus 19,3-12 situa Jesus diante de uma questão que, à primeira vista, parece jurídica: “É permitido ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” (Mt 19,3). Entretanto, uma leitura atenta, especialmente a partir da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, percebe que a questão é muito mais profunda. Está em jogo a dignidade das pessoas, as relações de poder dentro da sociedade e a maneira como a Lei pode ser utilizada para legitimar a opressão. O texto não deve ser reduzido a uma simples discussão sobre divórcio, mas compreendido no horizonte do projeto de Jesus de restaurar relações humanas marcadas pela justiça, pela reciprocidade e pela vida.
1. Uma pergunta que revela uma relação desigual
Os fariseus aproximam-se de Jesus “para pô-lo à prova” (Mt 19,3). A pergunta não é neutra. “Pode um homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” O sujeito da ação é o homem; a mulher aparece como aquela que pode ser repudiada. No contexto patriarcal do judaísmo do século I, o marido possuía uma posição jurídica e social muito superior à da mulher. A discussão sobre o divórcio podia, portanto, significar concretamente a possibilidade de uma mulher ser abandonada e lançada à insegurança econômica e social.
Jesus não entra simplesmente no jogo casuístico dos intérpretes da Lei. Ele desloca a questão. Em vez de perguntar qual seria a justificativa legal para o homem repudiar a mulher, Jesus recorda o projeto criador de Deus: “Desde o princípio, o Criador os fez homem e mulher” (Mt 19,4). A referência remete a Gn 1,27 e, em seguida, a Gn 2,24. O fundamento da relação não é o poder de um sobre o outro, mas a unidade e a reciprocidade.
Aqui aparece uma importante chave da Leitura Popular da Bíblia: perguntar quem fala, quem sofre e quem se beneficia de determinada interpretação da Escritura. Uma leitura libertadora não pode utilizar a Bíblia para legitimar a violência, a dominação ou a exclusão.
2. “Os dois serão uma só carne”: uma aliança de reciprocidade
Jesus continua: “Os dois serão uma só carne” (Mt 19,5). A expressão não significa a anulação da individualidade de cada pessoa. Pelo contrário, indica uma relação de profunda comunhão. Homem e mulher são chamados a constituir uma aliança na qual nenhum dos dois deve ser tratado como propriedade do outro.
Por isso Jesus afirma: “Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe” (Mt 19,6). O centro da afirmação não é simplesmente a manutenção institucional de um vínculo, mas a defesa de uma relação que tenha como fundamento o projeto de Deus.
A Teologia Latino-Americana ajuda-nos a perceber que a aliança matrimonial deve ser interpretada a partir da dignidade humana. Não existe verdadeiro sacramento quando uma pessoa é transformada em objeto de posse, quando há violência doméstica, abuso, humilhação ou destruição sistemática da dignidade do outro. A fidelidade cristã não pode ser confundida com a manutenção de estruturas de sofrimento.
3. Moisés e a “dureza do coração”
Os fariseus insistem: “Por que, então, Moisés mandou dar uma certidão de divórcio e repudiar?” (Mt 19,7). Jesus responde: “Por causa da dureza do coração de vocês, Moisés permitiu repudiar vossas mulheres; entretanto, não foi assim desde o princípio” (Mt 19,8).
A referência é a Dt 24,1-4, legislação que regulamentava o repúdio. Jesus reconhece a existência de uma norma jurídica, mas não a transforma automaticamente no ideal de Deus. Há uma diferença entre aquilo que a Lei tolera diante da realidade humana e aquilo que corresponde ao projeto divino.
A expressão “dureza do coração” é decisiva. O problema não está apenas na legislação, mas no coração de uma sociedade incapaz de viver relações fundamentadas no amor e na justiça. A Lei pode regular uma situação de conflito, mas não consegue, por si mesma, transformar o coração humano.
A leitura popular pergunta, então: quais são hoje as estruturas que produzem “dureza de coração”? A violência contra as mulheres, o abandono dos filhos, a exploração econômica, o machismo, o racismo, a pobreza e a exclusão revelam que ainda existem corações endurecidos e estruturas sociais que precisam ser transformadas.
4. Jesus protege os vulneráveis
Em Mt 19,9, Jesus denuncia aquele que utiliza o repúdio para romper uma relação e estabelecer outra, tratando a primeira pessoa como descartável. A linguagem do adultério deve ser compreendida dentro daquele contexto social e jurídico, no qual o repúdio podia deixar a mulher em situação extremamente vulnerável.
Assim, o Evangelho não deve ser usado para condenar pessoas que sofreram separações. Pelo contrário, a mensagem de Jesus deve levar a Igreja a acolher especialmente aqueles que experimentaram abandono, violência ou fracasso familiar.
Essa perspectiva é fundamental para uma pastoral latino-americana. A Igreja não pode transformar a pessoa divorciada em excluída. Deve acompanhá-la, escutá-la, ajudá-la a reconstruir sua vida e garantir que seus filhos e filhas não sejam vítimas das consequências da ruptura.
A comunidade cristã é chamada a ser espaço de acolhida e não tribunal de condenação.
5. “É melhor não casar”: o Reino relativiza todas as instituições
Os discípulos reagem: “Se é essa a situação do homem com a mulher, então é melhor não casar” (Mt 19,10). A reação é reveladora. Eles percebem que Jesus está retirando do homem o privilégio de dispor da mulher segundo seus interesses.
Jesus responde que nem todos compreendem essa palavra e, em seguida, fala dos eunucos (Mt 19,11-12). A passagem amplia a compreensão da comunidade do Reino: nem todas as pessoas vivem a vocação matrimonial, e a dignidade humana não depende do casamento.
Jesus menciona aqueles que nasceram eunucos, aqueles que foram feitos eunucos pelos homens e aqueles que escolheram essa condição por causa do Reino. A afirmação é surpreendente porque inclui pessoas que, naquele contexto, eram socialmente marginalizadas. O Reino de Deus não se estrutura segundo os padrões de normalidade impostos pela sociedade.
A Leitura Popular da Bíblia percebe aqui uma importante mensagem: Deus acolhe também aqueles que foram considerados diferentes, inadequados ou excluídos. A comunidade cristã não pode reproduzir mecanismos sociais de exclusão.
6. Uma Igreja comprometida com famílias feridas
Lido à luz da realidade latino-americana, Mt 19,3-12 desafia a Igreja a superar uma pastoral centrada exclusivamente na norma e desenvolver uma pastoral da proximidade, do acompanhamento e da misericórdia.
Isso significa estar junto das famílias pobres, das mães abandonadas, dos pais desempregados, das crianças vítimas de conflitos familiares, das mulheres submetidas à violência e de todos aqueles que carregam feridas produzidas por relações desumanizadas.
A questão fundamental não é simplesmente perguntar: “Essa pessoa está dentro ou fora?”. A pergunta evangélica deve ser: “Como podemos ajudá-la a recuperar a dignidade, a esperança e a vida?”
É justamente aqui que a Teologia Latino-Americana encontra o núcleo libertador do texto. Deus não deseja instituições que produzam sofrimento; deseja relações humanas marcadas pela justiça, pela solidariedade e pelo cuidado. O amor conjugal, a família e a própria comunidade eclesial devem estar a serviço da vida.
7. Da Palavra à ação pastoral
Uma comunidade que escuta Mt 19,3-12 a partir dos pobres e excluídos pode assumir compromissos concretos:
- criar espaços de escuta e acompanhamento para famílias em crise;
- fortalecer ações de prevenção e enfrentamento da violência contra as mulheres;
- acolher pessoas separadas e divorciadas sem discriminação;
- proteger crianças e adolescentes envolvidos em conflitos familiares;
- oferecer acompanhamento espiritual às famílias que vivem situações de sofrimento;
- combater o machismo e toda forma de violência e dominação;
- promover uma educação para relações baseadas na reciprocidade, no diálogo e no respeito;
- integrar as famílias pobres nas comunidades, CEBs e pastorais, reconhecendo nelas sujeitos da evangelização.
Conclusão: o Evangelho é defesa da vida
Mt 19,3-12 não pode ser transformado em arma para condenar pessoas. Jesus enfrenta uma sociedade na qual o homem podia utilizar a Lei para legitimar o repúdio da mulher. Ao retornar ao projeto criador, ele reafirma que a relação humana deve ser marcada pela comunhão e não pela dominação.
A pergunta decisiva para a Leitura Popular da Bíblia não é apenas “o que Jesus disse sobre o divórcio?”, mas “que tipo de relações humanas Jesus deseja construir?”. A resposta aponta para relações nas quais ninguém seja propriedade, objeto ou descartável.
Por isso, a comunidade cristã é chamada a defender a vida em todas as situações: celebrar famílias que vivem o amor, acompanhar famílias feridas, proteger os vulneráveis, denunciar a violência e acolher aqueles que a sociedade marginaliza.
O Evangelho exige que a Igreja esteja ao lado dos que sofrem. “O que Deus uniu” não é uma licença para manter pessoas aprisionadas no sofrimento; é a proclamação de que o projeto de Deus é a comunhão, a dignidade e a vida abundante. Onde houver violência, abandono e exclusão, a comunidade cristã deve tornar-se presença misericordiosa e profética do Reino de Deus.
Referências bíblicas fundamentais: Gn 1,27; Gn 2,24; Dt 24,1-4; Mt 5,31-32; Mt 18,1-14; Mt 19,3-12. A estrutura do diálogo em Mt 19,3-12 confirma o movimento do texto: pergunta sobre o repúdio, retorno ao projeto da criação, confronto com a interpretação de Moisés, denúncia da dureza do coração e abertura para diferentes formas de vocação no Reino.
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