Misericórdia: a única tradição definitiva da Igreja

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Há uma pergunta que atravessa toda a história do cristianismo: o que é verdadeiramente essencial na vida da Igreja? Muitas respostas podem ser dadas. Fala-se da doutrina, da liturgia, dos sacramentos, da disciplina, da moral, da tradição, dos símbolos, das vestes, dos templos e das formas de devoção. Tudo isso possui seu lugar e seu valor. Contudo, à luz do Evangelho, existe algo que não pode ser relativizado nem colocado em segundo plano: a misericórdia para com os vulneráveis, os pobres, os sofredores e os excluídos.

Se a Igreja deseja discernir aquilo que é verdadeiramente definitivo em sua tradição, precisa retornar continuamente a Jesus de Nazaré. E, ao fazê-lo, encontrará não uma religião obcecada pela aparência, pela pureza ritual ou pela preservação de privilégios, mas uma comunidade chamada a ver, aproximar-se, tocar, acolher, curar, perdoar e cuidar.

A misericórdia não é simplesmente uma virtude entre outras. Ela pertence ao próprio coração da revelação bíblica. O Deus da Bíblia é aquele que escuta o clamor dos oprimidos, liberta os escravizados, acolhe os estrangeiros, protege a viúva e o órfão e exige que seu povo pratique a justiça. Por isso, a tradição cristã só permanece fiel a si mesma quando conserva como centro o amor concreto aos que sofrem.

1. A misericórdia está no DNA da revelação bíblica

Desde as primeiras páginas da Escritura, Deus se revela como aquele que não permanece indiferente diante do sofrimento humano. No Êxodo, Deus vê a opressão do seu povo, ouve seu clamor, conhece seus sofrimentos e desce para libertá-lo (Ex 3,7-8). A iniciativa divina nasce da compaixão.

A tradição profética aprofundará essa compreensão. Isaías denuncia uma religiosidade que jejua, celebra e realiza práticas religiosas; mas permanece indiferente diante da injustiça. O verdadeiro jejum consiste em romper as cadeias da opressão, repartir o pão com o faminto, acolher o pobre e vestir aquele que está nu (Is 58,6-7).

Amós será ainda mais contundente: Deus rejeita cultos e solenidades quando estes convivem tranquilamente com a exploração dos pobres. O que Deus deseja é que “o direito corra como água e a justiça como um rio caudaloso” (Am 5,24).

Oseias coloca nos lábios de Deus uma afirmação que deveria permanecer como princípio permanente para a Igreja: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6). Jesus retomará justamente esse texto para confrontar uma religiosidade preocupada com normas enquanto negligencia as pessoas (Mt 9,13; 12,7).

Aqui encontramos uma chave fundamental: Deus não rejeita a religião porque seja religião; rejeita a religião quando ela se transforma em substituta da misericórdia.

2. Jesus: a misericórdia como critério definitivo

No ministério de Jesus, a misericórdia deixa de ser apenas um conceito e torna-se prática. Jesus toca leprosos, aproxima-se dos impuros, acolhe pecadores, conversa com mulheres marginalizadas, come com pessoas consideradas indignas, cura doentes, restitui dignidade aos excluídos e coloca crianças no centro da comunidade.

Seu comportamento frequentemente entra em conflito com aqueles que haviam transformado a religião em um sistema de fronteiras: puro e impuro, justo e pecador, digno e indigno, pertencente e excluído.

Jesus não destrói a tradição bíblica. Ele a purifica, levando-a ao seu centro.

Por isso, quando perguntado sobre o maior mandamento, não apresenta uma lista interminável de prescrições. Resume tudo no amor a Deus e ao próximo (Mt 22,37-40). E, quando deseja explicar concretamente quem é o próximo, conta a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). Nela, o personagem que verdadeiramente compreende a vontade de Deus não é aquele que domina a religião, mas aquele que se compadece e se aproxima do ferido.

No Evangelho de Mateus, Jesus oferece talvez a mais radical síntese do cristianismo: “Eu tive fome e vocês me deram de comer; tive sede e me deram de beber; era estrangeiro e vocês me acolheram; estava nu e vocês me vestiram; doente e cuidaram de mim; preso e foram me visitar (Mt 25,35-36). E então vem a afirmação decisiva: “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram (Mt 25,40).

Não existe espiritualidade cristã autêntica que possa escapar dessa palavra.

3. A única tradição verdadeiramente definitiva

A Igreja possui uma grande tradição. Ela guarda símbolos, fórmulas de fé, liturgias, costumes, ministérios, devoções e formas históricas de expressão. Algumas dessas coisas atravessaram séculos. Outras nasceram em determinados contextos e posteriormente foram modificadas.

É preciso, portanto, distinguir entre o núcleo permanente da fé e suas expressões históricas.

As vestes podem mudar. A arquitetura dos templos pode mudar. Os estilos musicais podem mudar. Os idiomas litúrgicos podem mudar. As formas de devoção podem mudar. A organização pastoral pode mudar. Até determinadas formulações disciplinares podem ser revistas. Mas existe algo que não pode ser abandonado sem que a própria identidade cristã seja ferida: o amor misericordioso que se traduz em cuidado concreto com a vida vulnerabilizada.

É por isso que podemos afirmar, em sentido teológico e pastoral, que a misericórdia é a única tradição definitiva da Igreja. Não porque seja a única realidade importante da fé, mas porque todas as demais realidades precisam ser julgadas pela sua capacidade de conduzir ao amor de Deus e ao serviço do próximo.

A tradição que não gera misericórdia torna-se tradição fossilizada. A liturgia que não conduz ao cuidado da vida torna-se espetáculo. A doutrina que não produz compaixão transforma-se em ideologia. A moral que não protege os vulneráveis converte-se em instrumento de controle. A espiritualidade que não se traduz em solidariedade corre o risco de tornar-se fuga do mundo.

4. Quando a estética ocupa o lugar do Evangelho

É precisamente aqui que se torna necessária uma palavra crítica aos setores ultraconservadores presentes na Igreja.

Não se trata de condenar aqueles que valorizam a liturgia, a beleza, o silêncio, o canto, a arquitetura, as vestes ou as formas tradicionais de celebração. A beleza pode ser uma verdadeira linguagem da fé. O problema começa quando a estética passa a ocupar o lugar da ética do Evangelho.

É possível preocupar-se obsessivamente com a cor de uma casula e permanecer indiferente diante de uma família que não tem o que comer.

É possível defender determinada forma litúrgica com enorme rigor e não perceber a presença de Cristo no migrante, no morador de rua, no indígena ameaçado, na mulher vítima de violência, no trabalhador explorado ou no jovem condenado à exclusão.

É possível reivindicar reverência diante do altar e, simultaneamente, tratar com desprezo aqueles que o próprio Cristo chama de seus irmãos.

Nesses casos, ocorre uma inversão perigosa: a forma deixa de servir ao conteúdo e passa a substituí-lo.

O Evangelho não pergunta primeiramente se nossas vestes são suficientemente tradicionais. Pergunta se fomos capazes de reconhecer Cristo nos pequenos.

Não pergunta apenas se celebramos corretamente. Pergunta se nossa celebração nos tornou capazes de lavar os pés dos irmãos.

Não pergunta apenas se preservamos costumes. Pergunta se preservamos a vida.

A Igreja pode ter templos belíssimos e, ao mesmo tempo, ser espiritualmente pobre. Pode celebrar liturgias impecáveis e ter o coração distante dos pobres. Pode defender uma suposta “pureza” doutrinal e perder a própria compaixão de Cristo.

Uma Igreja preocupada demais com sua estética e pouco preocupada com os feridos da história corre o risco de preservar a casca e perder o Evangelho.

5. São Francisco de Assis: quando o pobre ganha rosto

São Francisco de Assis representa uma das mais poderosas rupturas evangélicas da história da Igreja. Seu encontro com o leproso foi decisivo. Aquilo que antes lhe parecia amargo tornou-se fonte de doçura.

Francisco não encontrou Cristo apenas nos lugares sagrados. Encontrou-o no pobre, no leproso, no excluído e na criação.

Sua pobreza não foi romantização da miséria. Foi uma decisão de aproximação: colocar-se ao lado daqueles que o mundo considerava inferiores.

Francisco recorda à Igreja que não existe seguimento de Jesus sem proximidade com os vulneráveis.

6. São Vicente de Paulo: a misericórdia organizada

São Vicente de Paulo acrescentou outra dimensão fundamental: a misericórdia precisa tornar-se ação organizada. Não basta sentir compaixão. É preciso criar estruturas de cuidado.

Vicente compreendeu que a caridade cristã não poderia permanecer limitada à emoção individual. Era necessário organizar comunidades, recursos, instituições e redes de solidariedade para responder às necessidades dos pobres.

Sua espiritualidade ensina algo extremamente atual: a misericórdia precisa possuir inteligência, planejamento e compromisso social.

Uma Igreja misericordiosa não apenas consola o pobre depois que ele sofreu. Procura também perguntar por que ele está sofrendo e quais estruturas produzem sua vulnerabilidade.

7. São Felipe Néri: a santidade da proximidade

São Felipe Néri manifesta uma outra dimensão da misericórdia: a alegria. Ele aproximava-se das pessoas com simplicidade, humor, amizade e acolhimento. Sua espiritualidade rompeu com a imagem de uma santidade distante, severa e inacessível.

Felipe Néri recorda que a Igreja precisa ser uma casa onde as pessoas possam respirar, reencontrar esperança e experimentar que Deus não é um fiscal ameaçador, mas Pai misericordioso.

Há uma pastoral que aproxima e uma pastoral que assusta. Há uma Igreja que cura feridas e outra que acrescenta culpa às feridas. O testemunho de Felipe Néri aponta para a primeira.

8. Santa Dulce dos Pobres: a misericórdia que constrói

Santa Dulce dos Pobres talvez seja uma das expressões mais luminosas da misericórdia cristã no Brasil. Ela não se limitou a falar sobre os pobres. Fez-se próxima deles. Quando encontrou pessoas abandonadas, doentes e sem recursos, não perguntou primeiro se elas eram suficientemente dignas de receber ajuda. A necessidade delas era suficiente.

Sua vida mostra que a misericórdia possui uma consequência inevitável: ela constrói caminhos onde antes existiam apenas exclusões. Santa Dulce compreendeu que a fé precisa tornar-se pão, abrigo, hospital, cuidado, presença e esperança. Sua santidade questiona uma Igreja que pode gastar enormes energias discutindo questões secundárias enquanto pessoas concretas permanecem abandonadas.

9. Santo Oscar Romero: misericórdia diante das estruturas de violência

Santo Oscar Romero leva a misericórdia a uma dimensão ainda mais exigente. Ele descobriu que amar os pobres significava também denunciar aquilo que os destruía. Romero não compreendeu a caridade como simples assistência. Quando percebeu a violência estrutural que atingia seu povo, sua voz tornou-se denúncia profética.

A misericórdia não podia limitar-se a cuidar das vítimas. Era necessário também questionar os mecanismos que produziam as vítimas. Por isso, Romero nos ensina que a misericórdia cristã é inseparável da justiça.

Quem realmente ama o pobre precisa perguntar por que ele é pobre. Quem defende o trabalhador precisa perguntar por que ele é explorado. Quem acolhe o migrante precisa perguntar por que ele foi obrigado a abandonar sua terra. Quem acompanha as vítimas da violência precisa questionar as estruturas que perpetuam a violência.

A misericórdia não é neutralidade diante da injustiça.

10. Uma Igreja pobre com os pobres

A Teologia Latino-Americana compreendeu de maneira particularmente profunda essa dimensão do Evangelho. A opção preferencial pelos pobres não é uma invenção ideológica acrescentada posteriormente à fé cristã. Ela nasce do próprio coração da Escritura e do ministério de Jesus.

  • Deus escuta o clamor dos pobres.
  • Jesus aproxima-se dos marginalizados.
  • Os profetas denunciam os opressores.
  • A comunidade cristã primitiva partilha os bens.
  • Paulo organiza a solidariedade entre as comunidades.

A Igreja, portanto, não pode considerar os pobres como simples destinatários de assistência. Eles são sujeitos da evangelização, portadores de dignidade e lugares privilegiados da presença de Cristo.

A misericórdia exige uma Igreja capaz de deixar-se evangelizar pelos pobres.

11. O critério para discernir uma Igreja fiel

Talvez seja necessário recuperar uma pergunta simples:

Que tipo de Igreja estamos construindo?

  • Uma Igreja que protege sua própria imagem ou uma Igreja que protege os vulneráveis?
  • Uma Igreja preocupada com sua aparência ou uma Igreja preocupada com os feridos?
  • Uma Igreja que levanta muros ou uma Igreja que abre portas?
  • Uma Igreja que condena ou uma Igreja que caminha junto?
  • Uma Igreja que busca poder ou uma Igreja que lava os pés?
  • Uma Igreja que teme perder privilégios ou uma Igreja disposta a perder tudo para permanecer fiel ao Evangelho?

O critério definitivo encontra-se em Mateus 25: o que fizemos com os pequenos? Essa pergunta deveria estar diante de toda comunidade cristã, de todo sacerdote, de todo bispo, de todo movimento, de toda pastoral e de toda instituição eclesial.

Conclusão: voltar ao essencial

A Igreja não precisa abandonar sua tradição. Precisa voltar ao coração dela. E o coração da tradição cristã é o Deus misericordioso revelado em Jesus Cristo.

São Francisco nos ensina a aproximar-nos dos excluídos.

São Vicente de Paulo nos ensina a organizar a caridade.

São Felipe Néri nos ensina a acolher com alegria.

Santa Dulce dos Pobres nos ensina a transformar compaixão em cuidado concreto.

Santo Oscar Romero nos ensina que a misericórdia precisa enfrentar as estruturas que produzem sofrimento.

Todos eles, cada um à sua maneira, testemunham a mesma verdade: o cristianismo não se conserva pela repetição de formas, mas pela fidelidade ao amor.

A tradição é viva quando continua fazendo aquilo que Jesus fez. A Igreja é fiel quando se coloca ao lado dos vulneráveis. A liturgia é verdadeira quando nos envia ao serviço. A doutrina é fecunda quando protege a dignidade humana. A espiritualidade é autêntica quando gera compaixão.

E a tradição é verdadeiramente cristã quando, diante de um ser humano ferido à beira do caminho, não pergunta primeiro “quem é ele?”, mas simplesmente afirma:

“Ele é meu irmão. Precisa de mim. E nele está Cristo.”

Talvez seja essa a única tradição que a Igreja jamais poderá abandonar: a tradição da misericórdia.


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