Trabalhar pela salvação, carregar a cruz e seguir Jesus: uma Igreja que escolhe os pobres
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Palavra de Deus proclamada na Liturgia Eucarística da Quarta-feira da 31ª Semana do Tempo Comum nos coloca diante de duas exigências fundamentais da vida cristã: assumir responsavelmente a construção da salvação e compreender que o seguimento de Jesus exige escolhas, renúncias e compromisso. Paulo, escrevendo à comunidade de Filipos, convida os cristãos a desenvolverem a própria salvação, deixando-se conduzir por Deus. No Evangelho de Lucas, Jesus apresenta a radicalidade do discipulado, afirmando que ninguém pode segui-lo sem estar disposto a colocar o Reino de Deus acima de todas as seguranças e interesses pessoais.
À luz da Leitura Popular da Bíblia, esses textos nos convidam a perguntar que Igreja estamos construindo e de que maneira nossa fé se transforma em compromisso concreto com os pobres, os marginalizados e os excluídos de ontem e de hoje.
1. Filipenses 2,12-18: uma comunidade que testemunha a salvação
A Carta aos Filipenses foi escrita por Paulo em situação de prisão, provavelmente entre os anos 55 e 62 d.C., conforme a hipótese de localização e datação adotada. Filipos era uma colônia romana da Macedônia, marcada pela presença da cultura imperial, por hierarquias sociais e por desigualdades. A comunidade cristã, portanto, precisava aprender a viver uma experiência de fraternidade que contrastasse com os valores dominantes de seu tempo.
O trecho começa com uma recomendação: “Trabalhai para a vossa salvação com temor e tremor” (Fl 2,12). Paulo não está defendendo uma salvação conquistada exclusivamente pelo esforço humano. Ao contrário, esclarece imediatamente: “É Deus que realiza em vós tanto o querer como o fazer, conforme o seu desígnio benevolente” (Fl 2,13). A iniciativa é divina, mas a resposta humana precisa ser responsável e comprometida. A graça não nos dispensa da ação; ela nos capacita a transformar a realidade.
O contexto imediato dessa passagem é o conhecido hino cristológico de Filipenses 2,6-11, que apresenta Jesus como aquele que, mesmo tendo a condição divina, esvaziou-se, assumiu a condição de servo e se fez obediente até a morte de cruz. Assim, a comunidade é chamada a reproduzir, em suas relações, a lógica do Cristo servidor, e não a lógica da dominação.
Paulo também recomenda que os cristãos façam tudo “sem murmurações nem discussões” (Fl 2,14). Não se trata de proibir a denúncia das injustiças ou silenciar os que sofrem. O apóstolo está combatendo divisões e disputas internas que enfraquecem o testemunho comunitário. A unidade desejada não é a uniformidade imposta, mas a fraternidade construída na corresponsabilidade.
Ao convidar os cristãos a brilharem como luzes no mundo, Paulo apresenta uma comunidade que anuncia a vida em meio a uma sociedade marcada por relações desumanizadoras. A fé precisa ser visível nas atitudes, na solidariedade e na capacidade de gerar esperança.
Essa perspectiva encontra profunda ressonância na caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que procuram unir Palavra, oração, partilha e compromisso social. Também dialoga com a missão da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que acompanha trabalhadores e trabalhadoras rurais em suas lutas pela terra e pela dignidade, e com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que caminha ao lado dos povos originários na defesa de seus territórios, culturas e direitos.
A salvação anunciada por Paulo não pode ser reduzida a uma experiência individualista ou a uma promessa distante. Ela começa a manifestar-se quando nossas comunidades se tornam sinais concretos de uma humanidade reconciliada, na qual ninguém seja descartado e a dignidade de cada pessoa seja respeitada.
2. Lucas 14,25-33: o preço e as exigências do seguimento de Jesus
O Evangelho de Lucas apresenta Jesus caminhando em direção a Jerusalém. Grandes multidões o acompanham, mas Jesus não deseja seguidores movidos apenas pelo entusiasmo ou pela admiração. Ele sabe que o caminho para Jerusalém passa pela rejeição, pelo sofrimento e pela cruz. Por isso, dirige-se à multidão e apresenta, sem disfarces, as exigências do discipulado.
A primeira afirmação é bastante provocadora: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26). O verbo traduzido por desapegar-se ou odiar, conforme a tradução bíblica utilizada, precisa ser compreendido no contexto cultural semítico. Não significa cultivar sentimentos de ódio contra a família, mas expressa uma linguagem radical de preferência: nada, nem mesmo os vínculos mais importantes, pode ocupar o lugar de Deus e de seu projeto de vida.
Jesus não está desvalorizando a família, mas questionando qualquer vínculo, estrutura ou interesse que impeça a fidelidade ao Reino. O discipulado exige liberdade interior para colocar a vontade de Deus acima das conveniências pessoais e das estruturas que produzem injustiça.
Em seguida, Jesus afirma: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). A cruz, naquele contexto, era instrumento de execução utilizado pelo poder romano para humilhar, intimidar e eliminar aqueles considerados ameaças à ordem estabelecida. Portanto, falar em carregar a cruz não significa aceitar passivamente a opressão, a violência ou a miséria. Significa assumir as consequências de uma fidelidade ao projeto de Jesus que pode entrar em conflito com os interesses dos poderosos.
Duas pequenas parábolas ajudam a compreender essa exigência. Na primeira, um homem deseja construir uma torre, mas precisa calcular os custos antes de iniciar a obra. Na segunda, um rei, diante de um exército muito superior, avalia se possui condições de enfrentar a batalha. Ambas ensinam que o seguimento de Jesus não pode ser uma decisão superficial. É preciso consciência, discernimento e perseverança.
A conclusão é contundente: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Jesus questiona a relação de posse e apego aos bens materiais. Não se trata simplesmente de uma recomendação moral sobre a pobreza individual, mas de uma mudança profunda na maneira de compreender a vida, os bens e as relações humanas. O discípulo não pode transformar suas posses em instrumentos de dominação ou colocar a acumulação acima da fraternidade.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, essa passagem adquire uma dimensão social e profética. O seguimento de Jesus exige que a Igreja questione os mecanismos econômicos, políticos e culturais que concentram riquezas, destroem territórios, exploram trabalhadores e produzem exclusão. Não basta proclamar que seguimos Jesus: precisamos verificar se nossas escolhas estão efetivamente comprometidas com aqueles que mais sofrem.
3. CEBs, CPT e CIMI: o discipulado que se transforma em compromisso
Os dois textos bíblicos se encontram em uma mesma exigência: a fé precisa produzir uma maneira diferente de viver. Paulo apresenta uma comunidade que manifesta a salvação por meio de atitudes concretas. Jesus apresenta um discipulado que exige renúncia, coragem e disponibilidade para assumir a cruz. Em ambos, não existe espaço para uma espiritualidade indiferente à realidade humana.
A caminhada das Comunidades Eclesiais de Base constitui uma expressão concreta dessa experiência. Ao reunir pessoas para rezar, estudar a Bíblia, celebrar e refletir sobre a realidade, as CEBs ajudam a construir uma Igreja que aprende a reconhecer a presença de Deus na vida cotidiana do povo. A Leitura Popular da Bíblia permite que homens e mulheres, especialmente os empobrecidos, descubram que não são destinatários passivos da evangelização, mas sujeitos de sua própria história e protagonistas da construção do Reino.
A Comissão Pastoral da Terra, por sua vez, recorda que o compromisso cristão passa necessariamente pela defesa da vida no campo. Em um país marcado pela concentração fundiária, pela violência contra trabalhadores rurais, pelo trabalho escravo contemporâneo e pela exploração indiscriminada dos bens naturais, seguir Jesus significa não permanecer indiferente. A luta pela terra, pela reforma agrária, pela soberania alimentar e pela preservação da Casa Comum integra o compromisso com a justiça e a dignidade humana.
O Conselho Indigenista Missionário nos recorda que a missão evangelizadora também precisa estar ao lado dos povos originários. A defesa dos territórios indígenas, das culturas, das línguas, das tradições e do direito à existência desses povos não é uma pauta secundária da Igreja. É expressão concreta do Evangelho da vida. As ameaças, invasões territoriais, assassinatos e demais violências contra comunidades indígenas, especialmente aquelas que enfrentam situações dramáticas no Mato Grosso do Sul, exigem posicionamento firme das comunidades cristãs e de toda a sociedade.
Não podemos anunciar o Cristo que se fez servo e, ao mesmo tempo, permanecer silenciosos diante daqueles que têm sua dignidade negada. Não podemos falar da cruz de Jesus sem reconhecer as cruzes impostas aos pobres pela ganância, pelo preconceito, pelo racismo, pela violência e pela indiferença social.
A opção preferencial pelos pobres, assumida pela Igreja latino-americana especialmente a partir de Medellín e reafirmada em Puebla e Aparecida, não constitui uma preferência ideológica ou uma simples escolha pastoral entre tantas outras. Ela nasce da própria maneira como Jesus viveu sua missão: aproximando-se dos pequenos, acolhendo os excluídos, denunciando as injustiças e anunciando que o Reino de Deus pertence também àqueles que a sociedade considera insignificantes.
É nesse horizonte que as CEBs, a CPT e o CIMI encontram uma profunda convergência: são expressões de uma Igreja que procura caminhar com o povo, defender a vida e testemunhar que a Boa-Nova não pode ser separada da justiça.
4. Uma ação pastoral que não tenha medo de assumir a cruz
A Liturgia Eucarística desta quarta-feira nos provoca a transformar a reflexão bíblica em compromissos pastorais concretos. Não basta que nossas comunidades sejam espaços de oração e celebração; elas precisam ser também lugares de acolhida, participação, resistência e transformação social.
Algumas atitudes tornam-se particularmente necessárias:
- Fortalecer as Comunidades Eclesiais de Base, incentivando a formação bíblica, teológica e sociopolítica de suas lideranças, para que a Palavra de Deus seja interpretada a partir da realidade do povo e gere consciência crítica e compromisso comunitário.
- Aproximar as comunidades das lutas da CPT, promovendo a defesa da terra, da agricultura familiar, dos trabalhadores rurais e das populações ameaçadas pela exploração econômica e pela violência no campo.
- Assumir a causa dos povos indígenas, fortalecendo a presença missionária junto às comunidades originárias, denunciando as violações de seus direitos e defendendo seus territórios e sua autonomia.
- Promover uma Igreja samaritana e profética, capaz de acolher pessoas em situação de rua, famílias sem moradia, desempregados, migrantes, mulheres vítimas de violência, população negra e todos aqueles que experimentam diferentes formas de exclusão.
- Educar para uma espiritualidade libertadora, que não confunda fé com alienação, sofrimento com resignação ou obediência a Deus com submissão aos interesses dos poderosos.
Carregar a cruz, na perspectiva do Evangelho, não significa procurar o sofrimento, mas assumir a responsabilidade de enfrentá-lo quando ele é imposto aos irmãos e irmãs. A Igreja não pode transformar a cruz em justificativa religiosa para a perpetuação das injustiças. Ao contrário, deve reconhecer que o Crucificado continua presente nos corpos feridos pela violência, pela fome, pelo preconceito e pela negação de direitos.
Também é necessário que nossas comunidades façam um exame de consciência: quais seguranças precisamos abandonar para sermos verdadeiramente discípulos? Quais privilégios precisam ser questionados? De quais estruturas precisamos nos libertar para que o Evangelho seja anunciado com credibilidade?
5. Conclusão: a salvação se manifesta na defesa da vida
Filipenses 2,12-18 e Lucas 14,25-33 nos recordam que a fé cristã não pode ser reduzida a discursos, devoções ou práticas religiosas descomprometidas com a realidade. A salvação é dom de Deus, mas precisa encontrar correspondência em nossa maneira de viver. O seguimento de Jesus exige escolhas, renúncias e disponibilidade para construir uma sociedade na qual a vida esteja acima do lucro, a fraternidade acima da competição e a dignidade humana acima dos interesses particulares.
A Leitura Popular da Bíblia nos ajuda a compreender que o rosto de Cristo continua revelando-se entre os pobres, os trabalhadores explorados, os povos indígenas ameaçados, as comunidades quilombolas, as mulheres violentadas e todos aqueles que permanecem à margem dos projetos de desenvolvimento excludentes.
As CEBs, a CPT e o CIMI nos oferecem testemunhos importantes dessa Igreja que procura caminhar com os crucificados da história. Seu trabalho recorda que evangelizar não é apenas ensinar uma doutrina, mas participar da construção de condições concretas para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10).
Na Eucaristia, celebramos o Cristo que se entregou por amor. Participar de sua mesa significa assumir também o compromisso com aqueles que continuam privados do pão, da terra, da moradia, da liberdade e da dignidade. Não existe verdadeira comunhão com o Corpo de Cristo quando permanecemos indiferentes aos corpos humanos feridos pela injustiça.
A pergunta que esta Liturgia nos deixa é profundamente desafiadora: estamos realmente dispostos a seguir Jesus ou queremos apenas caminhar ao seu lado enquanto o caminho não exige renúncias? Ser discípulo significa escolher a vida, assumir a cruz dos irmãos e trabalhar para que nenhuma pessoa seja considerada descartável. Afinal, uma Igreja que segue Jesus não pode ter medo de caminhar com os pobres, porque foi justamente entre eles que o Mestre anunciou a chegada do Reino de Deus.
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