Comentário bíblico-pastoral do 32º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Leituras: Sb 6,12-16; 1Ts 4,13-18; Mt 25,1-13
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia da Palavra do 32º Domingo do Tempo Comum nos convida a refletir sobre três dimensões fundamentais da experiência cristã: a busca da Sabedoria, a esperança diante da morte e a vigilância na espera pelo Senhor. Os textos bíblicos apresentam uma fé que não se acomoda diante das dificuldades da história, mas permanece atenta aos sinais de Deus e comprometida com a transformação da realidade. À luz da Leitura Popular da Bíblia, compreendemos que esperar pelo Reino não significa fugir do mundo, mas assumir a responsabilidade de construir, desde agora, relações de justiça, fraternidade e solidariedade. A sabedoria, a esperança e a vigilância precisam encontrar expressão concreta na defesa dos pobres, marginalizados e excluídos.
1. A Sabedoria que procura quem deseja encontrá-la (Sb 6,12-16)
O Livro da Sabedoria foi escrito provavelmente em Alexandria, no Egito, no final do século I a.C. (entre 50 a.C. e 30 a.C.). Seu autor pertence à tradição judaica e escreve para comunidades que viviam em contato com a cultura helenística, enfrentando o desafio de preservar sua identidade religiosa em uma sociedade marcada por diferentes concepções de mundo. A obra procura demonstrar que a verdadeira sabedoria não se encontra na riqueza, no poder ou no prestígio, mas na fidelidade a Deus e na prática da justiça.
Na passagem proclamada, a Sabedoria aparece personificada. É apresentada como resplandecente, permanente, acessível e sempre disponível àqueles que a procuram. Existe, entretanto, uma inversão muito significativa: não é somente o ser humano que procura a Sabedoria; ela também toma a iniciativa de ir ao encontro daqueles que a desejam. O texto utiliza imagens como madrugar, permanecer atento e meditar, indicando que encontrar a Sabedoria exige disposição interior, perseverança e compromisso.
Essa Sabedoria não é privilégio de uma elite intelectual ou religiosa. Ela se oferece a todos os que procuram orientar a existência segundo os caminhos de Deus. Na perspectiva bíblica, ser sábio significa aprender a discernir a vontade divina e agir de acordo com a justiça.
O Magistério da Igreja, sobretudo por sua Doutrina Social, nos ajuda a reconhecer que essa sabedoria também se manifesta na experiência histórica dos pobres. Há sabedoria na resistência dos trabalhadores, na memória dos povos indígenas, na organização das mulheres, na solidariedade das periferias e na luta das comunidades que defendem seus territórios. Uma Igreja verdadeiramente sábia não despreza esses conhecimentos, mas aprende com eles.
O texto nos provoca a questionar uma sociedade que frequentemente identifica inteligência com capacidade de acumular riquezas e exercer poder. A sabedoria de Deus, ao contrário, conduz à defesa da vida e à construção do bem comum. Para nossas comunidades, procurar a Sabedoria significa desenvolver uma fé capaz de interpretar criticamente a realidade e reconhecer as situações nas quais a dignidade humana está sendo negada.
2. A esperança que não se rende diante da morte (1Ts 4,13-18)
A Primeira Carta aos Tessalonicenses é provavelmente o escrito mais antigo do Segundo Testamento, redigido por Paulo por volta do ano 50 d.C. A comunidade de Tessalônica vivia em uma sociedade marcada pelo domínio do Império Romano e por tensões culturais e religiosas. Os cristãos aguardavam com expectativa a manifestação definitiva de Jesus Cristo, mas a morte de alguns integrantes da comunidade provocou inquietações: aqueles que haviam morrido antes da volta do Senhor participariam da salvação?
Paulo responde apresentando o fundamento da esperança cristã: Jesus morreu e ressuscitou. Por isso, aqueles que morreram unidos a Cristo também participarão da vitória sobre a morte. A linguagem utilizada pelo apóstolo é apocalíptica, recorrendo às imagens da descida do Senhor, da voz do arcanjo e da trombeta divina. Essas imagens não pretendem oferecer um calendário dos acontecimentos finais, mas proclamar a intervenção definitiva de Deus na história e a vitória de Cristo.
Um detalhe importante está na preocupação de Paulo com os mortos da comunidade. Ninguém deve ser considerado esquecido por Deus ou privado da esperança. A ressurreição estabelece uma fraternidade que ultrapassa os limites da própria morte. O apóstolo conclui pedindo que os cristãos se consolem mutuamente. A esperança é, portanto, uma experiência comunitária.
Entretanto, não devemos interpretar essa passagem como convite à resignação diante do sofrimento. A fé na ressurreição não significa aceitar passivamente as mortes provocadas pela injustiça. Pelo contrário, acreditar no Deus da vida exige combater tudo aquilo que produz morte.
Na realidade latino-americana, quantas pessoas são vítimas da violência no campo, do racismo, da exploração do trabalho, da fome, da ausência de políticas públicas e dos conflitos territoriais? Quantas lideranças populares, indígenas e defensoras dos Direitos Humanos perdem a vida por causa de sua atuação em favor da justiça?
A esperança cristã não apaga a memória dessas vítimas. Ela denuncia a naturalização da violência e proclama que nenhuma vida é insignificante diante de Deus. A Igreja é chamada a consolar as famílias enlutadas, acompanhar os que sofrem, defender a memória dos que foram assassinados e trabalhar para que essas mortes não continuem acontecendo.
3. As lâmpadas acesas: vigilância e responsabilidade diante da história (Mt 25,1-13)
O Evangelho de Mateus apresenta a parábola das dez jovens que aguardavam a chegada do noivo para participar de uma festa de casamento. Cinco eram prudentes e cinco imprevidentes. Todas possuíam lâmpadas, mas somente as primeiras levaram uma reserva de óleo. Diante da demora do noivo, todas adormeceram. Quando finalmente chegou o momento do encontro, as prudentes estavam preparadas, enquanto as outras perceberam que não tinham óleo suficiente.
Para compreender a narrativa, é importante considerar os costumes matrimoniais da época. As celebrações envolviam deslocamentos e procissões, muitas vezes realizadas durante a noite. As jovens deveriam estar preparadas para acompanhar o noivo e participar da festa. A demora, entretanto, revelou a diferença entre aquelas que haviam se preparado e aquelas que confiaram apenas nas condições imediatas.
Mateus situa a parábola no discurso escatológico de Jesus, particularmente nos capítulos 24 e 25. A comunidade cristã vivia a expectativa da manifestação definitiva do Senhor e precisava aprender a perseverar mesmo diante da demora. A mensagem central aparece no versículo 13: é necessário vigiar, pois não se conhece o dia nem a hora.
A vigilância não deve ser entendida como medo do fim do mundo ou preocupação excessiva com previsões sobre a volta de Cristo. Trata-se de viver permanentemente preparados, assumindo os valores do Reino e permanecendo fiéis à missão recebida.
É significativo que todas as jovens tenham adormecido. Portanto, o problema não está no descanso, mas na falta de preparação. A diferença está na responsabilidade assumida antecipadamente. O óleo não deve ser interpretado como um símbolo de significado único e fechado; na aplicação pastoral, pode representar a fé alimentada pela oração, pela Palavra, pela solidariedade e pelas práticas concretas de justiça.
A parábola nos ensina que a fidelidade ao Evangelho não pode ser improvisada. Não basta apresentar-se como cristão ou participar de celebrações religiosas. É necessário construir uma existência coerente com aquilo que professamos.
Na realidade de nossas comunidades, manter as lâmpadas acesas significa não permitir que a esperança se apague diante das injustiças. É perseverar na defesa da vida, mesmo quando os resultados demoram; é continuar anunciando a Boa-Nova, mesmo quando os interesses econômicos e políticos parecem prevalecer sobre a dignidade humana.
4. Uma Igreja vigilante ao lado dos pobres e defensora da Casa Comum
As três leituras se iluminam mutuamente. A Sabedoria ensina a procurar os caminhos de Deus; Paulo anuncia a esperança que vence a morte; Jesus convida à vigilância e à responsabilidade. A Leitura Popular da Bíblia permite compreender que essas três dimensões precisam se concretizar na história dos povos.
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) são espaços privilegiados para alimentar essa espiritualidade. Quando o povo se reúne para escutar a Palavra, celebrar a vida, interpretar a realidade e organizar ações solidárias, mantém acesa a chama da esperança. As CEBs precisam continuar sendo comunidades de formação bíblica, consciência crítica, participação popular e compromisso com a transformação social.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), acompanhando trabalhadores e trabalhadoras rurais, famílias acampadas e assentadas e comunidades tradicionais, testemunha uma esperança que não se conforma com a concentração fundiária e a violência no campo. Sua missão recorda que a terra deve cumprir sua função social e estar a serviço da vida. Defender os trabalhadores rurais, denunciar a exploração e apoiar a luta pelo direito à terra são expressões concretas de vigilância evangélica.
O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), por sua vez, manifesta a dimensão profética da Igreja ao caminhar junto aos povos originários. A defesa dos territórios, das culturas, da autodeterminação e dos direitos constitucionais indígenas constitui parte indispensável da missão evangelizadora. As ameaças, invasões territoriais e violências contra comunidades indígenas, inclusive no Mato Grosso do Sul, exigem uma Igreja que não se cale diante das violações de Direitos Humanos. Os povos indígenas não são obstáculos ao desenvolvimento: são sujeitos de direitos e portadores de conhecimentos, espiritualidades e experiências fundamentais para a humanidade.
Essa missão também se relaciona com a defesa da Casa Comum. A destruição dos biomas, o envenenamento das águas, o desmatamento e a exploração predatória dos recursos naturais atingem especialmente as populações mais vulneráveis. A ecologia integral nos ensina que não existe verdadeira defesa da natureza sem defesa das pessoas e dos povos que nela vivem.
Por isso, a ação pastoral precisa ultrapassar os limites de uma religiosidade individualista. É necessário investir na formação bíblica e social, fortalecer a organização popular, acompanhar as comunidades ameaçadas, denunciar as injustiças, defender políticas públicas e construir alianças com aqueles que trabalham pela dignidade humana.
5. Manter acesa a esperança: a espera que se transforma em missão
A Liturgia deste domingo nos recorda que esperar o Senhor não significa cruzar os braços diante da história. A verdadeira vigilância cristã exige sabedoria para discernir a realidade, esperança para enfrentar as adversidades e coragem para permanecer comprometidos com a vida.
Uma Igreja que mantém suas lâmpadas acesas não pode permanecer indiferente à fome, à falta de moradia, ao desemprego, ao racismo, à violência contra as mulheres, à exploração dos trabalhadores e à destruição dos territórios indígenas. Não basta preparar os fiéis para a eternidade se não assumimos nossa responsabilidade diante das injustiças do presente.
Que nossas CEBs continuem sendo espaços de acolhida, organização e resistência; que a CPT permaneça ao lado daqueles que lutam pelo direito à terra e ao trabalho digno; que o CIMI continue defendendo os povos indígenas e seus territórios.
Manter as lâmpadas acesas significa não deixar morrer a esperança de um mundo diferente. É preparar a chegada do Senhor trabalhando para que os pobres tenham pão, os trabalhadores tenham terra e dignidade, os povos indígenas tenham seus territórios respeitados e todos possam viver como irmãos e irmãs. Afinal, a verdadeira vigilância cristã acontece quando a espera pelo Reino se transforma em compromisso com a vida.
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