Reflexão para Sexta-feira da 31ª Semana do Tempo Comum

A esperteza a serviço da vida: fidelidade ao Evangelho e compromisso com os pobres

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Palavra de Deus proclamada nesta sexta-feira da 31ª Semana do Tempo Comum nos coloca diante de duas questões fundamentais para a vida cristã: a quem estamos seguindo e a serviço de quais interesses colocamos nossa inteligência, nossos recursos e nossas capacidades? Paulo, ao escrever à comunidade de Filipos, convida os cristãos a reconhecerem seu verdadeiro pertencimento, tendo em Cristo a referência de vida. No Evangelho de Lucas, Jesus apresenta a desconcertante parábola do administrador desonesto, destacando sua capacidade de agir com inteligência diante de uma situação de crise. Embora sejam textos distintos, ambos nos provocam a refletir sobre nossas escolhas, a responsabilidade diante da vida e a necessidade de uma fé que não se limite às palavras, mas se transforme em compromisso concreto com a justiça.

A Leitura Popular da Bíblia nos ajuda a compreender que o seguimento de Jesus não pode ser separado da realidade histórica dos povos, especialmente daqueles que experimentam a pobreza, a violência, a exploração e a negação de seus direitos. A fé cristã exige discernimento, coragem e compromisso com a transformação das estruturas que produzem sofrimento.

1. Filipenses 3,17–4,1: seguir os passos de Cristo e pertencer à sua comunidade

A Carta aos Filipenses foi escrita por Paulo em circunstâncias de prisão, provavelmente entre os anos 50 e 60 d.C. Filipos era uma colônia romana da Macedônia, marcada pela presença militar, pela organização social hierarquizada e pela valorização dos privilégios associados à cidadania romana. Nesse ambiente, a comunidade cristã precisava aprender a viver segundo uma lógica diferente daquela que orientava o Império.

Paulo começa recomendando aos irmãos que sejam seus imitadores e observem aqueles que vivem segundo o exemplo recebido. Não se trata de uma exaltação pessoal do apóstolo, mas de um convite a reconhecer testemunhos concretos de fidelidade ao Evangelho. A comunidade precisa de referências que demonstrem, por meio da própria existência, que é possível viver de outra maneira.

Em seguida, Paulo manifesta sua preocupação com aqueles que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. A expressão é bastante significativa. O apóstolo não está simplesmente condenando pessoas que possuem opiniões diferentes, mas denunciando uma maneira de viver incompatível com o projeto de Jesus. São aqueles cuja existência está orientada para interesses egoístas, cujo horizonte é o próprio prazer e cuja glória está naquilo que deveria ser motivo de vergonha.

A afirmação de que o destino dessas pessoas é a perdição denuncia uma existência fechada em si mesma, incapaz de reconhecer a dignidade do outro. A expressão paulina de que o deus dessas pessoas é o ventre pode ser compreendida como crítica à absolutização dos próprios desejos e interesses. Quando o indivíduo transforma o consumo, o poder, a riqueza e o prazer em referências supremas, perde a capacidade de reconhecer a humanidade daqueles que estão ao seu redor.

Em contraposição, Paulo afirma: “A nossa cidadania está nos céus” (Fl 3,20). Para uma comunidade situada em uma colônia romana, essa declaração tinha uma dimensão profundamente provocadora. Os cristãos pertenciam a uma realidade que não se submetia aos critérios de prestígio, dominação e privilégio do Império. Sua identidade estava fundamentada em Cristo.

Isso não significa abandonar o mundo ou desprezar a realidade terrestre. Pelo contrário, significa viver na história a partir dos valores do Reino de Deus. A esperança na transformação definitiva da existência, quando Cristo transformará nosso corpo humilhado, deve orientar o modo como tratamos os corpos humilhados de hoje: os corpos famintos, violentados, explorados, discriminados e privados de seus direitos.

A conclusão de Paulo é profundamente comunitária: permanecer firmes no Senhor. A perseverança cristã não é uma atitude individualista, mas uma caminhada sustentada pela fraternidade e pela fidelidade ao Evangelho.

A Leitura Popular da Bíblia reconhece nessa passagem um chamado à resistência diante das estruturas que negam a vida. A cidadania do céu não pode ser utilizada como justificativa para a indiferença diante das injustiças da terra. Uma espiritualidade que fala da eternidade, mas se omite diante da fome, do racismo, da concentração fundiária e da violência contra os povos indígenas, contradiz o próprio testemunho de Cristo.

2. Lucas 16,1-8: a inteligência humana colocada diante da injustiça

A parábola do administrador desonesto é uma das mais provocadoras do Evangelho de Lucas. Jesus apresenta um administrador acusado de desperdiçar os bens de seu patrão. Diante da possibilidade de perder o emprego, ele percebe que precisa agir rapidamente para garantir sua sobrevivência. Chama os devedores e modifica os valores registrados em suas dívidas, reduzindo consideravelmente suas obrigações.

O texto apresenta uma situação social característica do mundo antigo. Os grandes proprietários frequentemente administravam seus bens por meio de intermediários, que controlavam a produção agrícola, as cobranças e as relações econômicas com os trabalhadores e arrendatários. Essas relações eram atravessadas por desigualdades e mecanismos de exploração.

A redução das dívidas pode envolver diferentes interpretações: o administrador poderia estar retirando parte de sua própria comissão ou alterando valores que incorporavam juros e encargos. O texto não esclarece inteiramente esse mecanismo. O que importa para a compreensão da parábola é a habilidade com que ele percebe a gravidade de sua situação e toma providências para garantir seu futuro.

O aspecto surpreendente está na avaliação do senhor: o administrador é elogiado por sua esperteza. Jesus não está aprovando sua desonestidade, tampouco ensinando que os fins justificam os meios. O elogio recai sobre a capacidade de agir com inteligência e determinação diante de uma situação concreta.

A frase final apresenta o núcleo da provocação: “Os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz” (Lc 16,8).

Jesus questiona a falta de iniciativa daqueles que dizem acreditar no Reino de Deus. Muitas vezes, os que trabalham em benefício de interesses econômicos particulares demonstram mais organização, criatividade e determinação do que aqueles que deveriam estar comprometidos com a justiça, a fraternidade e a transformação da sociedade.

A parábola, portanto, não pode ser reduzida a uma autorização para práticas desonestas. Sua força está em provocar os discípulos a utilizar inteligência, criatividade e capacidade de organização na construção de relações mais justas.

A pergunta que permanece é profundamente atual: se aqueles que defendem interesses econômicos particulares conseguem organizar estratégias para ampliar seus lucros e preservar seus privilégios, por que os seguidores de Jesus não conseguem mobilizar a mesma determinação para defender a vida, combater a fome e proteger os direitos dos mais vulneráveis?

3. A Palavra de Deus e a realidade dos pobres: inteligência, organização e compromisso

Quando aproximamos os dois textos bíblicos, percebemos uma convergência importante. Paulo convida a comunidade a não se deixar seduzir pelos valores de uma sociedade fundamentada no poder e nos privilégios. Jesus, por sua vez, provoca seus discípulos a agir com inteligência, criatividade e determinação. Ambos apontam para uma fé que precisa produzir consequências na realidade concreta.

Na sociedade brasileira, continuamos convivendo com estruturas que reproduzem antigas formas de exploração. A concentração de terras, o avanço de interesses econômicos sobre territórios tradicionais, o racismo estrutural, a violência contra os povos indígenas, a precarização do trabalho e a exclusão social revelam que a dignidade humana ainda está subordinada, muitas vezes, aos interesses do capital.

É nesse contexto que a missão das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) ganha particular importância.

As CEBs representam uma maneira de ser Igreja na qual a Palavra de Deus é acolhida a partir da vida do povo. São comunidades que rezam, celebram, refletem e se organizam para enfrentar as situações que ameaçam a dignidade humana. Sua espiritualidade não se separa da realidade cotidiana. Pelo contrário, reconhece que Deus continua ouvindo o clamor dos pobres e chamando seu povo à libertação.

A CPT, por sua vez, testemunha que a defesa da terra está diretamente relacionada à defesa da vida. Sua presença junto aos trabalhadores rurais, camponeses, comunidades tradicionais e famílias ameaçadas pela violência no campo recorda que a terra não pode ser compreendida simplesmente como mercadoria. Ela é espaço de vida, trabalho, cultura, identidade e sustento. A justiça do Reino exige enfrentar a concentração fundiária e denunciar as práticas de violência e exploração que atingem os trabalhadores.

O CIMI, em sua caminhada junto aos povos indígenas, recorda à Igreja que evangelizar também significa defender territórios, culturas, línguas, espiritualidades e o direito dos povos de existir conforme suas próprias tradições. As ameaças, invasões territoriais, assassinatos e diferentes formas de violência contra comunidades indígenas, particularmente em regiões como Mato Grosso do Sul, demonstram a urgência de uma Igreja profética, que não permaneça silenciosa diante das violações dos Direitos Humanos.

Essas três experiências pastorais encontram nos textos desta liturgia uma inspiração importante. A cidadania do céu, anunciada por Paulo, precisa ser testemunhada na defesa da cidadania negada aos pobres da terra. A inteligência destacada por Jesus deve inspirar nossas comunidades a desenvolver estratégias de organização, articulação e resistência diante das forças que ameaçam a vida.

Não basta lamentar as injustiças. É necessário organizar a esperança!

4. Ação pastoral: uma Igreja que não se acomoda diante da injustiça

A liturgia desta sexta-feira nos convida a rever nossas práticas eclesiais. Uma Igreja que anuncia o Reino de Deus não pode permanecer indiferente diante das condições que produzem sofrimento e exclusão. A fidelidade a Cristo exige uma pastoral comprometida com a transformação da realidade.

Algumas atitudes tornam-se fundamentais:

  • Fortalecer as CEBs: promover a leitura popular da Bíblia, a formação de lideranças e a organização comunitária, ajudando o povo a reconhecer sua dignidade e seus direitos.
  • Apoiar a CPT: ampliar a presença pastoral junto aos trabalhadores rurais, denunciar a violência no campo e defender a reforma agrária, a agricultura familiar e a soberania alimentar.
  • Caminhar com o CIMI: assumir concretamente a defesa dos povos indígenas, de seus territórios e de seus direitos, combatendo o preconceito e todas as formas de violência.
  • Desenvolver uma pastoral profética: não ter medo de denunciar os mecanismos econômicos, políticos e sociais que produzem pobreza, desigualdade e exclusão.
  • Promover a economia da solidariedade: incentivar práticas de partilha, cooperativismo, economia popular, consumo responsável e cuidado com a Casa Comum.
  • Educar para a cidadania: ajudar crianças, jovens e adultos a compreender que a fé cristã também implica participação social, defesa dos Direitos Humanos e compromisso com a democracia.

A Eucaristia, que celebramos nesta sexta-feira, não pode ser separada dessas exigências. O pão partilhado no altar precisa encontrar correspondência no pão repartido na vida. Não podemos celebrar o Corpo de Cristo enquanto ignoramos os corpos feridos pela fome, pela violência, pelo abandono e pela exploração.

A mesa eucarística nos educa para a fraternidade. Nela, ninguém deveria ser considerado descartável, pois todos são chamados a participar da mesma comunhão. Uma comunidade que comunga o Corpo de Cristo precisa aprender a reconhecer esse mesmo Cristo nos pobres, nos indígenas, nos trabalhadores explorados, nas famílias sem moradia e em todos aqueles cuja dignidade é negada.

Conclusão: cidadãos do céu, comprometidos com a terra

Os textos bíblicos desta sexta-feira da 31ª Semana do Tempo Comum nos deixam uma provocação que não podemos ignorar. Paulo nos recorda que nossa verdadeira cidadania está fundamentada em Cristo. Jesus nos ensina que a inteligência e a capacidade de organização também precisam fazer parte da caminhada daqueles que desejam construir o Reino de Deus.

Não podemos ser uma Igreja que anuncia a esperança, mas se acomoda diante do sofrimento humano. Não podemos falar de salvação enquanto nos omitimos diante das estruturas que produzem morte. A espiritualidade cristã precisa gerar coragem, solidariedade, compromisso e disposição para transformar a realidade.

A Leitura Popular da Bíblia nos ensina que a opção preferencial pelos pobres não é um apêndice da missão evangelizadora, mas uma exigência do próprio Evangelho. É no encontro com os pequenos e vulnerabilizados que somos continuamente chamados a rever nossa maneira de compreender Deus, a Igreja e a sociedade.

Que as CEBs, a CPT e o CIMI continuem sendo sinais dessa Igreja que caminha com o povo, escuta seus clamores e assume suas lutas. Que não nos faltem inteligência para discernir, coragem para denunciar e perseverança para construir alternativas.

Afinal, nossa cidadania está nos céus, mas é aqui, na terra, que precisamos demonstrar a quem pertence nosso coração.


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