Da confiança nos próprios méritos à alegria de encontrar os perdidos: uma Igreja que se aproxima dos pequenos
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Comentário bíblico-pastoral de Fl 3,3-8a e Lc 15,1-10 – Quinta-feira da 31ª Semana do Tempo Comum
A Palavra de Deus proclamada na Liturgia Eucarística desta quinta-feira da 31ª Semana do Tempo Comum nos convida a rever os critérios pelos quais avaliamos a vida, a fé e a missão da Igreja. Na passagem da Carta aos Filipenses, Paulo questiona uma religiosidade fundamentada em títulos, privilégios e méritos pessoais. No Evangelho de Lucas, Jesus apresenta um Deus que não se conforma com a perda de nenhuma pessoa e que toma a iniciativa de procurá-la. Os dois textos, lidos em conjunto, oferecem uma profunda orientação para a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI): uma Igreja que abandona suas pretensões de superioridade e se coloca a serviço da vida, sobretudo onde ela está ameaçada.
1. Paulo: abandonar os privilégios para ganhar Cristo (Fl 3,3-8a)
A comunidade cristã de Filipos, situada na Macedônia, foi uma das primeiras comunidades fundadas por Paulo em território europeu. A carta revela uma relação de profunda proximidade entre o apóstolo e os cristãos daquela cidade. Entretanto, a comunidade enfrentava tensões relacionadas à identidade cristã e à influência de pessoas que defendiam a necessidade da circuncisão e de determinadas observâncias judaicas como condições para pertencer plenamente ao povo de Deus.
É nesse contexto que Paulo apresenta uma afirmação contundente: a verdadeira circuncisão não se reduz a uma marca corporal ou a uma formalidade religiosa, mas caracteriza aqueles que adoram a Deus no Espírito, colocam sua confiança em Cristo e não depositam sua segurança nos privilégios humanos.
O apóstolo chega a apresentar seu próprio currículo religioso: circuncidado ao oitavo dia, pertencente ao povo de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus, fariseu quanto à Lei e zeloso a ponto de perseguir a Igreja. Paulo possuía credenciais suficientes para reivindicar reconhecimento dentro dos critérios religiosos de seu tempo. Entretanto, sua experiência com Cristo provocou uma profunda transformação em sua maneira de compreender a existência.
Aquilo que antes considerava vantagem passou a reconhecer como perda diante da grandeza de conhecer Jesus Cristo. Não se trata de desprezar suas raízes judaicas, mas de afirmar que nenhuma identidade religiosa, tradição ou posição de prestígio pode ocupar o lugar da adesão a Cristo.
Essa passagem questiona também nossas comunidades e estruturas eclesiais. Quantas vezes a Igreja corre o risco de valorizar mais os títulos, as funções, os cargos, as vestes e as posições institucionais do que a fidelidade ao Evangelho? Quantas vezes a observância religiosa se transforma em instrumento de julgamento e exclusão?
A Leitura Popular da Bíblia nos ajuda a compreender que conhecer Cristo significa encontrá-lo também na história concreta dos empobrecidos. A fé não pode ser reduzida a uma experiência intimista ou a uma identidade religiosa que se satisfaz consigo mesma. Ela precisa produzir conversão, solidariedade e compromisso com a transformação das estruturas que geram sofrimento.
Ganhar Cristo significa perder o interesse pelos privilégios que nos afastam dos pequenos. Significa abandonar a segurança de uma religião autorreferencial para assumir os riscos de uma Igreja comprometida com a justiça, a dignidade humana e a libertação.
2. Jesus: um Deus que procura, acolhe e celebra a vida (Lc 15,1-10)
O Evangelho de Lucas apresenta uma das imagens mais bonitas da misericórdia divina. Jesus está cercado por publicanos e pecadores que se aproximam para ouvi-lo. Publicanos eram pessoas encarregadas da cobrança de impostos, frequentemente associadas à exploração econômica e ao domínio romano. Eram considerados impuros e socialmente desprezados. Os pecadores, por sua vez, constituíam uma categoria ampla, que incluía pessoas cuja condição de vida ou comportamento não correspondia às exigências religiosas estabelecidas pelos grupos mais rigorosos.
A reação dos fariseus e escribas é de indignação: Jesus acolhe essas pessoas e come com elas. A questão não era apenas a proximidade física, mas a participação na mesma mesa. No contexto cultural judaico, compartilhar uma refeição significava estabelecer vínculos de comunhão, reconhecimento e pertencimento. Ao sentar-se à mesa com os considerados pecadores, Jesus questionava uma compreensão religiosa que transformava a Lei em instrumento de separação.
É justamente diante dessa crítica que Jesus apresenta duas parábolas: a ovelha perdida e a moeda perdida.
Na primeira, um pastor deixa as noventa e nove ovelhas e vai à procura daquela que se perdeu. A imagem do pastor possui profunda tradição bíblica. O próprio Deus é apresentado como pastor de Israel (Sl 23; Ez 34). O profeta Ezequiel denuncia os dirigentes que exploravam o rebanho e anuncia que o próprio Senhor procuraria suas ovelhas, cuidaria das feridas e buscaria as desgarradas (Ez 34,11-16).
Jesus recupera essa tradição e revela que a misericórdia de Deus não se acomoda diante da perda de uma única pessoa. A comunidade não pode considerar insignificante quem ficou para trás. A alegria do reencontro é maior do que a tranquilidade de permanecer entre aqueles que já estão protegidos.
Na segunda parábola, uma mulher perde uma moeda de prata. Acende uma lâmpada, varre cuidadosamente a casa e procura até encontrá-la. É importante perceber a presença feminina nessa narrativa. Jesus utiliza a experiência cotidiana de uma mulher para revelar a maneira como Deus age. A mulher não desiste, não considera a moeda descartável e mobiliza todos os recursos disponíveis para recuperá-la.
As duas parábolas terminam com uma celebração compartilhada com amigos e vizinhos. A alegria de Deus acontece quando alguém é reencontrado e recupera sua dignidade. O centro da narrativa não é a condenação, mas a misericórdia; não é a exclusão, mas a possibilidade de recomeçar.
Há, ainda, uma provocação importante: Jesus não apresenta um Deus que espera passivamente que os perdidos retornem. O pastor sai à procura, e a mulher realiza um esforço cuidadoso para encontrar o que perdeu. A misericórdia é ativa, movimenta-se, atravessa distâncias e não aceita a indiferença.
A Igreja precisa aprender com esse movimento. Não basta abrir as portas dos templos e esperar que os pobres, os excluídos e os marginalizados apareçam. É necessário sair ao encontro deles, conhecer suas realidades, escutar suas dores e participar de suas lutas.
3. A opção pelos pobres como caminho de conversão e fidelidade ao Evangelho
A aproximação entre os dois textos permite perceber uma unidade teológica muito significativa. Paulo renuncia às vantagens que alimentavam seu prestígio religioso para colocar Cristo no centro de sua existência. Jesus, por sua vez, revela que o coração de Deus está voltado para aqueles que a sociedade e determinados grupos religiosos consideram descartáveis.
O Magistério da Igreja, sobretudo pela Doutrina Social da Igreja, compreende essa dinâmica a partir da opção preferencial pelos pobres. Não se trata de uma escolha ideológica acrescentada posteriormente ao cristianismo, mas de uma exigência que nasce do próprio modo de agir de Jesus. Deus não é indiferente à realidade daqueles que sofrem injustiças, perdem seus direitos e têm sua dignidade negada.
A pobreza não pode ser romantizada, tampouco a exclusão pode ser tratada como consequência inevitável da organização social. A fome, a falta de moradia, o desemprego, a violência, o racismo, a concentração fundiária e a destruição ambiental são realidades que exigem posicionamento cristão.
Nesse sentido, a experiência das Comunidades Eclesiais de Base constitui uma expressão concreta dessa Igreja que procura os perdidos. Quando uma comunidade se reúne nas periferias, partilha a Palavra, celebra a vida e organiza a solidariedade, está tornando visível o movimento do pastor que não abandona nenhuma ovelha.
As CEBs não podem ser apenas espaços de convivência religiosa. São chamadas a ser comunidades de discípulos e discípulas missionários, capazes de interpretar os acontecimentos da realidade à luz da Palavra de Deus e transformar a fé em compromisso histórico. A Leitura Popular da Bíblia ajuda a reconhecer que Deus continua falando na vida do povo, especialmente nas experiências de resistência, organização e esperança dos empobrecidos.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), por sua vez, realiza uma missão profundamente relacionada à parábola do pastor que procura a ovelha ameaçada. Sua presença junto aos trabalhadores e trabalhadoras rurais, às famílias acampadas e assentadas e às comunidades tradicionais revela uma Igreja que não se conforma com a violência no campo, a concentração da terra, a exploração do trabalho e a destruição dos territórios.
Quando famílias são expulsas de suas terras, quando trabalhadores são submetidos a condições degradantes e quando a produção econômica se sobrepõe à dignidade humana, a missão pastoral exige presença, denúncia e defesa de direitos. Não basta oferecer consolo espiritual às vítimas: é preciso colaborar para que as causas de seu sofrimento sejam enfrentadas.
O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) também expressa essa dimensão profética. Sua caminhada junto aos povos indígenas, em defesa de seus territórios, culturas, tradições e direitos constitucionais, recorda que nenhuma vida pode ser considerada descartável. Os povos originários não são obstáculos ao desenvolvimento, mas sujeitos de direitos, portadores de conhecimentos, espiritualidades e formas de organização que enriquecem a humanidade.
As ameaças, invasões territoriais, assassinatos e diferentes formas de violência contra comunidades indígenas, inclusive recentemente no Mato Grosso do Sul, constituem feridas abertas na sociedade brasileira. Diante delas, a Igreja não pode permanecer em silêncio. O Evangelho exige solidariedade concreta, defesa dos territórios tradicionais e compromisso com a justiça.
A destruição da Casa Comum também significa perder o cuidado com o rebanho. A exploração predatória da natureza, o envenenamento das águas e a devastação dos biomas atingem principalmente aqueles que dependem diretamente da terra para viver. A ecologia integral, tão presente no magistério do papa Francisco e retomada no horizonte da Igreja, ajuda-nos a compreender que não existe justiça social sem justiça ambiental.
4. Uma Igreja que não aceita perder ninguém
A Liturgia da Palavra nos apresenta, portanto, um duplo chamado à conversão. De um lado, precisamos abandonar a confiança nos privilégios religiosos, nos títulos e nas estruturas que alimentam uma falsa superioridade. De outro, somos convidados a assumir a dinâmica missionária de Jesus, que vai ao encontro daqueles que foram deixados à margem.
Uma Igreja que se reconhece discípula de Jesus não pode escolher a quem amar, acolher ou defender. Não pode fechar os olhos diante da violência contra os povos indígenas, da exploração dos trabalhadores, do sofrimento das famílias sem terra, da população em situação de rua, das mulheres vítimas de violência, das pessoas negras discriminadas e de tantos outros grupos historicamente excluídos.
O trabalho das CEBs, da CPT e do CIMI recorda que a evangelização não acontece apenas pela transmissão de ensinamentos religiosos, mas também pela presença solidária, pela defesa da vida e pela participação nas lutas por justiça. É necessário fortalecer a formação bíblica e política das comunidades, promover a organização popular, estabelecer parcerias com movimentos sociais e defender políticas públicas que assegurem direitos fundamentais.
Também é preciso que nossas celebrações eucarísticas expressem essa mesma opção. Não podemos nos aproximar da Mesa do Senhor enquanto permanecemos indiferentes à fome de nossos irmãos e irmãs. A Eucaristia, memorial da entrega de Jesus, compromete a comunidade com a partilha, a fraternidade e a construção de relações sociais mais justas.
A conversão anunciada por Lucas não pode ser confundida com uma mudança individual desconectada da realidade. Ela envolve a transformação das relações, o reconhecimento dos direitos negados e a disposição de reparar as injustiças. A alegria do céu precisa encontrar correspondência na alegria de um povo que recupera sua dignidade, sua terra, sua liberdade e sua esperança.
Afinal, uma Igreja que procura os perdidos é também uma Igreja que questiona as estruturas que produzem exclusão.
5. A alegria de Deus é a vida recuperada
A Palavra proclamada nesta celebração nos convida a perguntar: quais são as vantagens das quais precisamos abrir mão para seguir verdadeiramente Jesus? Quem são as pessoas que nossa comunidade ainda não consegue acolher? Quais sofrimentos estão tão próximos de nós que já nos acostumamos a não enxergá-los?
Paulo nos ensina que conhecer Cristo vale mais do que qualquer privilégio. Jesus nos revela que Deus não desiste de nenhuma pessoa. Entre essas duas experiências encontramos o caminho da Igreja: uma comunidade que não vive para defender suas próprias vantagens, mas para testemunhar a misericórdia e a justiça do Reino.
Que nossas Comunidades Eclesiais de Base sejam cada vez mais espaços de acolhida, participação e resistência; que a CPT continue ao lado daqueles que lutam pelo direito à terra e ao trabalho digno; que o CIMI permaneça firme na defesa dos povos indígenas e de seus territórios.
Que a Igreja tenha coragem de sair de suas seguranças institucionais, caminhar pelas periferias geográficas e existenciais e reconhecer que o Evangelho precisa ser anunciado onde a vida está ameaçada.
Porque, para Deus, nenhuma vida é descartável, nenhuma pessoa é insignificante e nenhum povo pode ser abandonado. A verdadeira alegria do Reino acontece quando os perdidos são encontrados, os excluídos são acolhidos e os injustiçados recuperam a esperança de viver com dignidade.
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