Irmã Dorothy Stang e Padre Josimo: o martírio como testemunho do Reino

“É por causa do meu povo machucado que acredito em religião libertadora”
(Canção de Pe. Zezinho, SCJ)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A história da Igreja na América Latina é marcada pelo testemunho de homens e mulheres que fizeram da fé cristã um compromisso concreto com a vida dos pobres. Entre essas testemunhas destacam-se Dorothy Mae Stang e Josimo Morais Tavares. Embora tenham vivido em contextos diferentes, suas trajetórias apresentam profundas convergências: ambos colocaram o Evangelho ao lado dos pobres da terra, enfrentaram estruturas de injustiça e pagaram com a própria vida pela fidelidade ao projeto de Deus.

A partir da perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, o testemunho desses mártires não pode ser compreendido apenas como um episódio trágico da história eclesial. Seu martírio revela uma forma concreta de interpretar e viver as Escrituras, na qual a Palavra de Deus ilumina a luta pela vida, pela terra, pela dignidade e pela justiça.

O contexto de seus testemunhos

Padre Josimo atuou na região do Bico do Papagaio, no então norte de Goiás (hoje estado do Tocantins), uma área marcada por intensos conflitos fundiários. Como coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), acompanhava trabalhadores rurais, posseiros e pequenos agricultores ameaçados por grandes proprietários. Sua ação pastoral não se limitava à celebração dos sacramentos; ele entendia que anunciar o Evangelho significava também defender a vida dos camponeses e denunciar estruturas de opressão.

Irmã Dorothy, por sua vez, dedicou décadas de sua vida à Amazônia paraense, especialmente na região de Anapu. Sua missão estava profundamente ligada à defesa dos pequenos agricultores, da floresta e de formas sustentáveis de convivência com a criação. Ela acreditava que a terra deveria servir à vida das famílias pobres e não aos interesses da exploração predatória.

Ambos enfrentaram os mesmos poderes: a concentração fundiária, a violência no campo, a exploração econômica e a lógica que transforma a terra em mercadoria enquanto exclui aqueles que dela dependem para sobreviver.

Por isso, suas mortes não foram acontecimentos isolados. Foram consequências diretas de uma opção evangélica pelos pobres.

A Leitura Popular da Bíblia e a centralidade dos pobres

A Leitura Popular da Bíblia, desenvolvida especialmente nas Comunidades Eclesiais de Base e inspirada por diversos biblistas latino-americanos, parte de uma convicção fundamental: Deus se revela na história concreta dos pobres e oprimidos.

Não se trata de ler a Bíblia apenas para conhecer fatos do passado, mas para descobrir como a Palavra de Deus ilumina as lutas do presente.

Nessa perspectiva, a pergunta central não é apenas: “O que o texto significou naquela época?”, mas também: “O que Deus está dizendo hoje ao seu povo através desse texto?”

Foi exatamente assim que Dorothy e Josimo viveram.

Eles não leram o livro do Êxodo como uma simples narrativa antiga. Viram nele o Deus que continua ouvindo o clamor dos oprimidos.

Não leram os profetas como personagens distantes. Reconheceram em Isaías, Amós, Jeremias e Miqueias a mesma voz que denuncia as injustiças contemporâneas.

Não contemplaram Jesus apenas como figura religiosa. Encontraram nele o Cristo que se identifica com os pequenos, os perseguidos e os excluídos.

O martírio como consequência da fidelidade ao Evangelho

Na tradição cristã, o martírio não é a busca da morte. É a consequência extrema da fidelidade ao Reino de Deus. Tanto Josimo quanto Dorothy sabiam dos riscos que corriam. Padre Josimo recebeu inúmeras ameaças. Em diversos momentos afirmou ter consciência de que poderia ser assassinado. Mesmo assim, permaneceu junto ao povo.

Uma de suas frases tornou-se emblemática:

“Eu sei que posso morrer por uma causa justa.”

Essa afirmação lembra a postura dos profetas bíblicos que, mesmo perseguidos, continuaram anunciando a Palavra de Deus.

O mesmo ocorreu com Dorothy. Pouco antes de ser assassinada, ela seguia visitando comunidades e apoiando agricultores ameaçados. Segundo relatos, quando foi abordada por seus assassinos, retirou a Bíblia da bolsa e começou a ler as Bem-Aventuranças. Esse gesto possui enorme força simbólica. A Palavra que orientou sua vida tornou-se também a última palavra pronunciada antes de sua morte. É como se sua existência inteira tivesse sido uma interpretação viva do Evangelho.

As Bem-Aventuranças e o testemunho dos mártires da terra

Quando a Leitura Popular da Bíblia se aproxima das Bem-Aventuranças (Mt 5,1-12), encontra nelas um programa de vida para as comunidades.

“Bem-aventurados os pobres.”

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça.”

“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça.”

Essas palavras encontram concretização impressionante na vida de Dorothy e Josimo. Eles escolheram caminhar com os pobres. Assumiram a causa da justiça. Foram perseguidos exatamente por essa escolha. Por isso, suas vidas tornam-se uma espécie de comentário vivo das Bem-Aventuranças.

Não apenas ensinaram o Evangelho; encarnaram-no.

A terra como dom de Deus

Outro elemento fundamental para compreender ambos os testemunhos é a dimensão bíblica da terra. Na tradição do Antigo Testamento, a terra não é uma propriedade absoluta dos poderosos. Ela pertence a Deus e deve servir à vida de todo o povo. A concentração de terras nas mãos de poucos sempre foi criticada pelos profetas. Isaías denuncia aqueles que “ajuntam casa a casa e campo a campo”. Miqueias condena os que expulsam famílias de suas terras. Amós critica os que enriquecem à custa dos pobres.

Josimo e Dorothy atualizaram essa tradição profética. Defender os camponeses não era, para eles, uma atividade meramente política. Era uma exigência da fé. Era uma consequência da compreensão bíblica de que Deus deseja vida digna para todos.

O sangue dos mártires e a esperança do povo

A tradição cristã costuma afirmar que o sangue dos mártires é semente de novos cristãos. Na América Latina, poderíamos dizer que o sangue dos mártires também se torna semente de resistência, esperança e organização popular.

Após suas mortes, tanto Dorothy quanto Josimo transformaram-se em referências para comunidades, pastorais sociais, movimentos populares e grupos comprometidos com a justiça social. Suas memórias continuma inspirando pessoas que lutam pela reforma agrária, pela preservação ambiental, pelos direitos humanos e pela dignidade dos trabalhadores rurais.

A Leitura Popular da Bíblia compreende essa memória não como simples homenagem, mas como atualização da presença de Deus na história. Os mártires tornam-se sinais concretos de que o Reino continua acontecendo no meio do povo.

O significado eclesial de seus testemunhos

A Igreja latino-americana, especialmente a partir da Conferência de Medellín e posteriormente de Puebla, reconheceu a importância da opção preferencial pelos pobres como dimensão constitutiva da evangelização. Nesse horizonte, Dorothy e Josimo representam uma Igreja que não permanece distante dos sofrimentos humanos.

Representam uma Igreja encarnada. Uma Igreja que escuta o clamor dos pobres. Uma Igreja que lê a Bíblia com o povo e a partir da realidade do povo. Uma Igreja que compreende que a fé não pode ser separada da defesa da vida. Por isso, seus testemunhos ultrapassam o âmbito local e assumem significado universal.

Eles revelam que a fidelidade a Jesus Cristo passa necessariamente pelo compromisso com os crucificados da história.

Conclusão

À luz da Leitura Popular da Bíblia, Irmã Dorothy Stang e Padre Josimo Morais Tavares podem ser compreendidos como autênticos mártires do Reino de Deus. Ambos fizeram uma leitura da Palavra profundamente ligada à realidade dos pobres e permitiram que essa Palavra moldasse suas escolhas pastorais.

Como os profetas bíblicos, denunciaram a injustiça. Como os discípulos de Jesus, caminharam com os pequenos. Como os mártires da Igreja primitiva, deram a própria vida por aquilo em que acreditavam. Seu legado recorda que a Bíblia não é apenas um compêndio de livros para ser estudado, mas uma Palavra para ser vivida. E quando essa Palavra é acolhida a partir da vida dos pobres, ela se torna força transformadora da história.

Dorothy e Josimo continuam proclamando, através de sua memória, aquilo que aprenderam nas páginas das Escrituras: que Deus escuta o clamor dos oprimidos, caminha com os pobres e chama sua Igreja a ser sinal de justiça, solidariedade e esperança no mundo.


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