Por Pe. Hermes A. Fernandes
O texto de Mateus 7,1-5 faz parte da seção final do Sermão da Montanha (Mt 5–7), síntese do projeto do Reino de Deus apresentado por Jesus. Frequentemente, esta passagem é interpretada apenas como uma advertência moral contra o julgamento dos outros. Entretanto, quando lida em seu contexto histórico e à luz da Leitura Popular da Bíblia, revela-se um profundo chamado à conversão pessoal e comunitária, capaz de transformar relações sociais marcadas pela exclusão, pela opressão e pela desigualdade.
A exegese do texto
O texto inicia com uma afirmação conhecida:
“Não julgueis, e não sereis julgados” (Mt 7,1).
A palavra grega utilizada por Mateus para “julgar” (krínein) possui um sentido mais amplo do que simplesmente emitir opiniões. Ela pode significar condenar, sentenciar ou colocar-se na posição de quem possui autoridade absoluta sobre o outro.
Jesus não está proibindo o discernimento moral nem a capacidade crítica dos discípulos. O próprio Evangelho de Mateus exige que a comunidade saiba distinguir entre o bem e o mal, entre os verdadeiros e os falsos profetas (cf. Mt 7,15-20). O que Jesus condena é a atitude arrogante de quem se coloca como juiz da vida alheia sem reconhecer suas próprias limitações.
Por isso, ele acrescenta:
“Pois, vós sereis julgados com o mesmo julgamento com que julgardes; e sereis medidos, com a mesma medida com que medirdes” (Mt 7,2).
Trata-se de um princípio de reciprocidade profundamente enraizado na tradição bíblica. Quem vive julgando e condenando constrói um mundo de condenação; quem vive praticando misericórdia ajuda a construir uma sociedade mais humana.
Em seguida, Jesus apresenta uma imagem carregada de humor e ironia:
“Por que observas o cisco no olho do teu irmão, e não prestas atenção à trave que está no teu próprio olho? ” (Mt 7,3).
O contraste entre um pequeno cisco e uma enorme trave de madeira é propositalmente exagerado. Jesus denuncia a hipocrisia de quem enxerga facilmente os defeitos dos outros, mas permanece cego diante de seus próprios erros.
No versículo 5 aparece uma palavra forte:
“Hipócrita!”
No contexto do Evangelho, a hipocrisia não consiste apenas em fingir virtudes. É a incapacidade de reconhecer a própria participação nas estruturas de pecado e injustiça, enquanto se responsabiliza os outros por todos os problemas.
A leitura popular do texto
A Leitura Popular da Bíblia parte da vida concreta das comunidades e pergunta: quem são hoje aqueles que sofrem os efeitos do julgamento e da condenação?
Em muitas sociedades, os pobres são frequentemente responsabilizados por sua própria condição. Diz-se que são pobres porque não trabalharam o suficiente, porque não se esforçaram ou porque fizeram escolhas erradas. Ao mesmo tempo, raramente se questionam as estruturas econômicas, políticas e sociais que produzem pobreza e exclusão.
Nessa perspectiva, a “trave” pode simbolizar precisamente os mecanismos de dominação que permanecem invisíveis para aqueles que ocupam posições de privilégio.
Jesus denuncia uma lógica muito presente em todas as épocas: apontar o “cisco” do pobre e ignorar a “trave” da injustiça estrutural.
É mais fácil condenar quem vive na periferia do que questionar sistemas econômicos que geram desigualdade. É mais fácil julgar os que passam fome do que analisar as causas da concentração de renda. É mais fácil culpar os marginalizados do que enfrentar as raízes da exclusão.
A palavra de Jesus rompe essa lógica e exige uma profunda conversão do olhar.
A dimensão sociotransformadora
Este texto possui uma força transformadora extraordinária porque desloca o foco da culpa individual para a responsabilidade coletiva.
Jesus convida seus discípulos a abandonarem uma postura de superioridade moral e a desenvolverem uma consciência crítica sobre sua própria realidade.
A pergunta central deixa de ser:
“Quem é o culpado?”
e passa a ser:
“Qual é a minha responsabilidade diante desta situação?”
Quando essa mudança acontece, nasce uma espiritualidade comprometida com a transformação social.
A crítica de Jesus à hipocrisia torna-se também uma crítica aos sistemas que naturalizam a pobreza e criminalizam os pobres.
A comunidade cristã é chamada a reconhecer que muitas das “traves” presentes na sociedade são o racismo, a concentração de riqueza, a exploração do trabalho, a violência contra povos indígenas, a exclusão social e todas as formas de negação da dignidade humana.
A conversão exigida por Jesus passa pela disposição de enxergar essas realidades e agir para transformá-las.
O compromisso com os pobres
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, este texto possui uma afinidade profunda com a opção evangélica pelos pobres.
Os pobres frequentemente são os mais julgados e menos escutados. São vítimas de preconceitos, estigmas e condenações morais.
Jesus inverte essa lógica.
Antes de julgar os outros, é necessário examinar as próprias atitudes, os próprios privilégios e as estruturas sociais das quais participamos.
Essa postura gera solidariedade.
Quem reconhece sua própria fragilidade torna-se capaz de acolher a fragilidade do irmão. Quem percebe sua própria necessidade da misericórdia de Deus torna-se mais disposto a praticar misericórdia.
Assim, o texto não promove passividade diante do mal, mas uma crítica comprometida com a verdade e exercida a partir da humildade e da fraternidade.
Pistas para a ação pastoral
A partir de Mateus 7,1-5, algumas práticas pastorais podem fortalecer o compromisso cristão com os pobres:
- Promover círculos bíblicos que ajudem as comunidades a relacionar a Palavra de Deus com as situações concretas de injustiça social.
- Desenvolver processos de formação que combatam preconceitos contra pobres, negros, indígenas, migrantes e outros grupos marginalizados.
- Incentivar a prática da escuta comunitária, valorizando a voz daqueles que normalmente são silenciados.
- Estimular o exame de consciência não apenas individual, mas também social e comunitário.
- Apoiar iniciativas pastorais que atuem na defesa dos direitos humanos e da dignidade dos mais vulneráveis.
- Fortalecer espaços de reconciliação e diálogo que superem a cultura da condenação e do ódio.
Conclusão
Mateus 7,1-5 não é um convite à indiferença diante do mal nem uma proibição do discernimento. É um chamado à humildade, à autocrítica e à misericórdia. Jesus denuncia a hipocrisia de quem enxerga apenas os erros alheios e permanece cego diante das próprias limitações e das injustiças das quais participa.
À luz da Leitura Popular da Bíblia, a “trave” não está apenas no coração individual, mas também nas estruturas sociais que produzem exclusão e sofrimento. Retirá-la significa converter o olhar, reconhecer a dignidade dos pobres e assumir um compromisso concreto com a construção do Reino de Deus, onde a justiça, a fraternidade e a misericórdia prevalecem sobre o julgamento e a condenação. Nesse sentido, o texto convida as comunidades cristãs a serem espaços de acolhida, consciência crítica e transformação social, especialmente ao lado daqueles que mais sofrem as consequências das injustiças do mundo.
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