Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia desta Quarta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum celebra a Solenidade da Natividade de São João Batista. Para bem celebrar este dia, somos chamados a contemplar o Evangelho de Lucas, que nos oferece narrativas mais detalhadas do nascimento e infância de João Batista e Jesus.
O texto de Lucas 1,57-66.80 narra o nascimento de João Batista, sua circuncisão, a apresentação de seu nome e o crescimento daquele que seria o precursor de Jesus. À primeira vista, trata-se de uma narrativa familiar e religiosa. Contudo, quando lida à luz da Leitura Popular da Bíblia, revela uma profunda mensagem de esperança, resistência e transformação social para os pobres e excluídos.
O contexto do Evangelho
O Evangelho de Lucas foi escrito para comunidades cristãs que viviam em meio às desigualdades do Império Romano. Os pobres, os camponeses, as mulheres, os estrangeiros e os doentes eram frequentemente marginalizados. Desde os primeiros capítulos, Lucas apresenta um Deus que toma partido dos pequenos e intervém na história por meio daqueles que o mundo considera insignificantes.
Antes do nascimento de João, Lucas já havia apresentado Isabel e Zacarias como um casal justo, mas marcado pelo sofrimento da esterilidade (Lc 1,5-25). Na cultura judaica daquele tempo, a incapacidade de gerar filhos era frequentemente vista como sinal de vergonha social. Isabel carregava não apenas uma dor pessoal, mas também o peso da exclusão simbólica imposta pela sociedade.
Quando João nasce, Deus transforma a condição de humilhação em motivo de alegria coletiva. O nascimento da criança torna-se sinal de que Deus continua agindo na história humana, especialmente em favor daqueles que experimentam situações de sofrimento e marginalização.
A ruptura representada pelo nome João
Um dos elementos centrais da narrativa é a escolha do nome da criança. Os parentes desejavam que ela recebesse o nome de Zacarias, seguindo a tradição familiar. Entretanto, Isabel afirma:
“Não. Ele vai chamar-se João” (Lc 1,60).
Quando Zacarias confirma a decisão, sua capacidade de falar é restaurada.
Do ponto de vista exegético, o nome “João” (Yohanan) significa “Deus é misericordioso” ou “Deus concedeu graça”. A escolha rompe com as expectativas da comunidade e mostra que o projeto de Deus não está preso às tradições que reproduzem privilégios ou estruturas fechadas.
A narrativa revela que a novidade de Deus frequentemente desafia costumes estabelecidos. Deus inaugura algo novo na história, e essa novidade nasce justamente onde ninguém a espera.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, esse episódio convida as comunidades a discernirem quando determinadas tradições servem à vida e quando precisam ser transformadas para que o Reino de Deus floresça. Muitas vezes, os pobres, os negros, os indígenas, os migrantes e outros grupos marginalizados são impedidos de exercer sua voz porque estruturas sociais rígidas insistem em manter tudo como sempre foi. O Evangelho mostra que Deus não teme a mudança quando ela favorece a vida.
A recuperação da voz de Zacarias
Outro aspecto importante é o retorno da fala de Zacarias.
Durante toda a narrativa anterior, Zacarias permaneceu mudo. Sua mudez simboliza a dificuldade humana de acreditar plenamente na ação libertadora de Deus. Quando ele acolhe o projeto divino e reconhece a missão de João, sua voz é devolvida.
A restauração da fala possui um forte significado social e teológico. Não se trata apenas de um milagre físico. É a recuperação da capacidade de anunciar, testemunhar e participar da construção da história da salvação.
Na realidade dos pobres de ontem e de hoje, muitas pessoas vivem situações semelhantes. São indivíduos e grupos que tiveram sua voz silenciada pela pobreza, pelo racismo, pela violência, pela exclusão econômica ou pelas diversas formas de discriminação. O Evangelho proclama que Deus deseja devolver a palavra aos que foram calados.
A missão da Igreja, portanto, não consiste apenas em falar pelos pobres, mas em criar condições para que eles próprios sejam sujeitos de sua história, de sua fé e de sua organização comunitária.
O temor do povo e a esperança do futuro
O texto afirma que os vizinhos ficaram tomados de temor e perguntavam:
“Que virá a ser este menino?” (Lc 1,66).
A pergunta não expressa medo, mas admiração diante da ação extraordinária de Deus.
Lucas sugere que algo novo está surgindo. O nascimento de João anuncia a proximidade da chegada do Messias. Deus está preparando uma transformação profunda da história.
Na Leitura Popular da Bíblia, essa pergunta continua atual. O que poderá nascer das periferias urbanas? O que poderá surgir das comunidades indígenas ameaçadas? O que poderá florescer nas comunidades negras marcadas pelo racismo estrutural? O que poderá emergir dos movimentos populares e das Comunidades Eclesiais de Base?
O Evangelho responde: Deus continua fazendo nascer profetas onde o mundo enxerga apenas pobreza e fragilidade.
João cresce no deserto
O texto conclui afirmando:
“E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até ao dia em que se apresentou publicamente a Israel” (Lc 1,80).
O deserto possui grande importância bíblica. É o lugar do encontro com Deus, da formação da consciência e da preparação para a missão.
João não cresce nos centros do poder político nem religioso. Sua formação acontece longe dos palácios e dos templos dominados pelas elites.
Essa informação possui forte dimensão sociopolítica. A salvação não nasce dos espaços de privilégio, mas das margens. Deus escolhe os lugares esquecidos para preparar seus profetas.
Também hoje, muitas experiências transformadoras surgem das periferias, dos assentamentos, das comunidades tradicionais, das pastorais sociais e dos movimentos populares. São espaços onde a luta pela dignidade humana se encontra com a fé e gera sinais concretos do Reino de Deus.
Dimensão sociotransformadora
A Leitura Popular da Bíblia percebe neste texto diversos sinais da ação libertadora de Deus:
- Deus escolhe uma família simples para iniciar um novo capítulo da história da salvação.
- Deus transforma situações de exclusão em experiências de dignidade.
- Deus rompe estruturas fechadas quando estas impedem a realização da vida.
- Deus devolve voz aos que foram silenciados.
- Deus prepara seus profetas nas periferias da história.
Por isso, Lucas 1,57-66.80 não é apenas uma narrativa sobre o passado. É um anúncio de que Deus continua agindo entre os pobres e excluídos de hoje.
Pistas para a ação pastoral
À luz deste Evangelho, algumas atitudes pastorais tornam-se fundamentais:
- Valorizar o protagonismo dos pobres, reconhecendo-os como sujeitos da evangelização e não apenas destinatários da ação da Igreja.
- Criar espaços de escuta, onde os excluídos possam expressar suas dores, sonhos e propostas.
- Fortalecer as Comunidades de Base, que muitas vezes são verdadeiros “desertos fecundos” onde Deus continua formando lideranças comprometidas com a justiça.
- Defender a dignidade dos marginalizados, enfrentando as estruturas que produzem pobreza, racismo, violência e exclusão.
- Promover uma espiritualidade da esperança, capaz de reconhecer os sinais do Reino mesmo em contextos de sofrimento.
Conclusão
Lucas 1,57-66.80 proclama que Deus age na história por meio daqueles que o mundo costuma ignorar. O nascimento de João Batista revela um Deus que visita os pequenos, rompe silêncios, cria caminhos novos e prepara profetas nas periferias da vida.
A Leitura Popular da Bíblia convida as comunidades cristãs a reconhecerem que os “Joões Batistas” (Perdoem-me o neologismo!) continuam nascendo hoje entre os pobres, os negros, os indígenas, os trabalhadores explorados, os migrantes e todos aqueles que lutam por dignidade. Neles, a mão de Deus continua presente, preparando os caminhos do Reino de justiça, fraternidade e vida plena para todos.
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