Expulsar os demônios de hoje

Por Karina Moreti

Os Evangelhos afirmam repetidamente que Jesus expulsava demônios. A informação aparece em diferentes tradições e ocupa lugar importante em seu ministério. Basta percorrer as páginas do Evangelho de Marcos para perceber que a expulsão dos espíritos impuros faz parte da manifestação do Reino de Deus. Contudo, uma pergunta continua necessária: o que significava expulsar demônios no contexto em que Jesus viveu? E o que essa prática tem a dizer às comunidades cristãs do século XXI?

A resposta exige voltar ao mundo bíblico. A Palestina do primeiro século era uma terra marcada pelo sofrimento. O domínio romano impunha tributos pesados. Grandes proprietários concentravam terras. Muitos camponeses perdiam seus meios de subsistência. A fome fazia parte da vida de numerosas famílias. A doença frequentemente significava exclusão social. A religião, por sua vez, podia ser utilizada para reforçar divisões entre puros e impuros, dignos e indignos.

Foi nesse contexto que Jesus iniciou sua missão anunciando uma notícia capaz de transformar a vida do povo: o Reino de Deus está próximo. Não se tratava apenas de uma promessa para o futuro, mas da ação de Deus irrompendo na história. Onde o Reino chegava, os pobres encontravam esperança, os oprimidos recuperavam a liberdade e os esquecidos voltavam a ser reconhecidos em sua dignidade de filhos e filhas de Deus.

O próprio Jesus apresentou sua missão dessa forma. Na sinagoga de Nazaré, leu as palavras do profeta Isaías: “o Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres” (Lc 4,18). Não é difícil perceber quem ocupa o centro desse programa. São os pobres, os cativos, os cegos e os oprimidos. São pessoas concretas, com rostos concretos, vivendo situações concretas de sofrimento.

Por essa razão, os exorcismos não podem ser separados da missão libertadora de Jesus. A mesma autoridade que expulsa espíritos impuros é a que cura enfermos, alimenta multidões, acolhe pecadores, reintegra excluídos e denuncia injustiças. Tudo faz parte de um único movimento: a chegada do Reinado de Deus.

O primeiro exorcismo narrado pelo Evangelho de Marcos acontece dentro de uma sinagoga (cf. Mc 1,21-28). O detalhe chama a atenção. O espírito impuro não aparece numa região distante nem num ambiente pagão. Ele manifesta-se no interior de um espaço religioso. A narrativa sugere uma verdade importante: as forças contrárias ao projeto de Deus podem instalar-se até mesmo nos lugares destinados a anunciar sua Palavra.

Ao longo dos Evangelhos, os espíritos impuros produzem isolamento, sofrimento e desumanização. Pessoas perdem sua autonomia. São afastadas da convivência comunitária. Tornam-se prisioneiras de forças que roubam sua dignidade. A ação de Jesus segue sempre a direção contrária. Ele devolve a palavra aos silenciados. Reintegra os excluídos. Reconstrói relações rompidas. Restaura a humanidade ferida.

Essa dinâmica aparece de forma particularmente forte no relato do homem possuído por uma legião de demônios (cf. Mc 5,1-20). O personagem vive entre os túmulos. Está separado da comunidade. Ninguém consegue ajudá-lo. Quando Jesus pergunta seu nome, recebe uma resposta surpreendente: “Meu nome é Legião, porque somos muitos” (Mc 5,9).

A expressão possui um significado que os primeiros leitores certamente compreendiam. Legião era o nome das unidades militares romanas que ocupavam a Palestina. O evangelista parece indicar que o mal não atua apenas na vida individual. Existem também forças coletivas que oprimem povos inteiros. Existem sistemas que esmagam pessoas. Existem estruturas que produzem sofrimento e morte.

O homem de Gerasa não perdeu apenas a paz. Perdeu a própria identidade. Já não possui nome. Sua humanidade foi encoberta pela opressão que o domina. Quando Jesus o liberta, devolve-lhe aquilo que o mal havia roubado: sua dignidade, sua liberdade e seu lugar na comunidade.

Essa narrativa oferece uma chave importante para a leitura dos Evangelhos. O mal possui dimensão pessoal. A tradição cristã nunca deixou de reconhecer essa realidade. Contudo, a própria Escritura mostra que ele também assume formas sociais, políticas, econômicas e culturais. O pecado não permanece apenas no coração humano. Muitas vezes organiza-se em estruturas que produzem exclusão e sofrimento.

Os profetas de Israel denunciaram essas realidades com vigor. Amós condenou aqueles que enriqueciam às custas dos pobres. Isaías criticou governantes que produziam leis injustas. Miqueias acusou os poderosos que roubavam terras e destruíam famílias. A preocupação não era apenas moral. Era profundamente social. Quando a vida dos pequenos era esmagada, o projeto de Deus era violado.

Jesus insere-se nessa mesma tradição profética. Sua prática revela um Deus que escuta o clamor dos pobres e toma partido da vida. Por isso, os maiores conflitos de seu ministério não ocorreram com pessoas consideradas possuídas. Os conflitos mais intensos surgiram com aqueles que utilizavam a religião para oprimir, acumulavam privilégios às custas do povo ou colaboravam com estruturas de dominação.

Os exorcismos, portanto, fazem parte de uma realidade maior. Inserem-se no confronto entre o Reinado de Deus e todas as forças que se opõem à vida. A mesma autoridade que expulsa os espíritos impuros cura os enfermos, alimenta os famintos, acolhe os excluídos e denuncia os mecanismos de opressão. Em cada um desses gestos, Deus restaura aquilo que o mal havia ferido e torna presente o seu Reino no meio do povo.

A própria resposta de Jesus aos seus adversários confirma essa compreensão. Quando o acusam de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, ele declara: “Mas se é através do Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus chegou para vocês” (Mt 12,28). O centro da questão não é o demônio. O centro é o Reino. Onde ele floresce, a vida é restaurada. Os famintos recebem alimento. Os doentes encontram cuidado. Os pobres recuperam sua dignidade. Os excluídos voltam a ter lugar na comunidade. Os pecadores experimentam a misericórdia. Os pequenos descobrem que são amados por Deus.

Essa oposição entre Reino e forças de morte alcança seu ponto máximo na paixão de Jesus. A cruz não representa apenas o sofrimento de um inocente. Ela revela o choque entre dois projetos de mundo. De um lado, o projeto anunciado por Jesus. De outro, os poderes que sustentam a injustiça.

Na condenação de Jesus encontram-se diversas formas de opressão. O poder político utiliza a violência para preservar a ordem. Lideranças religiosas procuram defender seus interesses. A justiça é manipulada. A multidão é conduzida pelo medo e pela hostilidade. O inocente é sacrificado. Sob muitos aspectos, a cruz revela a verdadeira face da Legião.

Entretanto, a última palavra não pertence à morte. A ressurreição revela que Deus não abandona as vítimas da história, que a violência não triunfa para sempre e que a vida possui uma força maior do que qualquer sistema de opressão. Essa mensagem continua atual.

Vivemos num mundo de extraordinários avanços tecnológicos. A humanidade produz riquezas em escala jamais vista. Ainda assim, milhões de pessoas seguem sem acesso ao necessário para viver com dignidade. A fome, a miséria, a violência, o abandono e a desigualdade continuam marcando o corpo ferido da história.

Os demônios mais perigosos do nosso tempo são justamente aqueles que aprenderam a parecer normais. A fome reduzida a estatística. A desigualdade convertida em paisagem. A indiferença travestida de prudência. O consumismo vendido como felicidade. O individualismo erguido como fronteira contra o sofrimento do outro. São essas forças que continuam separando irmãos e irmãs. Destruindo comunidades. Desfigurando a imagem de Deus presente em cada ser humano.

Por isso, a luta contra o mal não pode limitar-se à busca de fenômenos extraordinários. O combate espiritual se dá na história concreta: na criança que vai dormir com fome, na família que perde sua casa, nos idosos abandonados, nos trabalhadores tratados como descartáveis; na vida que vale menos que o lucro.

Em Mateus 25, Jesus oferece um critério decisivo. No julgamento final, ele identifica-se com os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os enfermos e os presos. A pergunta não é quantos prodígios foram realizados. A pergunta é outra: eu estava com fome, e vocês me deram de comer?

A resposta revela onde o próprio Cristo escolheu habitar: no pobre, no vulnerável, no sofredor e no excluído. Ali a fé é colocada à prova, o discípulo encontra seu Senhor e se realiza, no cotidiano da história. Este é o verdadeiro combate espiritual.

Os Evangelhos afirmam que Jesus expulsava demônios e, ao mesmo tempo, o apresentam devolvendo dignidade aos pobres, acolhendo os excluídos e restaurando vidas feridas. Essas dimensões não se opõem, mas pertencem à mesma missão.

Seguir Jesus é participar dessa obra libertadora: anunciar o Reino de Deus e enfrentar tudo aquilo que nega a vida, libertar o que aprisiona pessoas e comunidades e abrir caminhos para que cada homem e cada mulher vivam como filhos e filhas de Deus.

Enquanto houver fome, exclusão, violência e injustiça, permanece atual a tarefa dos discípulos: anunciar a Boa Nova aos pobres, libertar os oprimidos, restaurar a dignidade dos pequenos e tornar visível, na história, a presença do Reino inaugurado por Jesus.

Porque o Reino de Deus não chega com ruído, mas se manifesta onde a vida resiste, onde a dignidade insiste e onde a morte deixa de ter a última palavra.


Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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