Reflexão para Sexta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum – (Mt 8,1-4)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

1. Introdução

O relato de Mateus 8,1-4 inaugura uma nova seção do Evangelho. Depois de ensinar sobre o Reino de Deus no Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus desce da montanha e coloca em prática aquilo que havia anunciado. Sua primeira ação é profundamente significativa: aproxima-se de um leproso, acolhe sua súplica, toca seu corpo e o reintegra à vida da comunidade.

Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, esse texto revela que o Reino de Deus começa exatamente nas periferias da sociedade, onde vivem aqueles que foram privados de direitos, de reconhecimento e de esperança. O primeiro milagre narrado por Mateus é um gesto de inclusão, uma denúncia contra toda forma de exclusão e um anúncio de que Deus deseja restaurar a vida dos pobres e marginalizados.

2. Contexto exegético

Mateus escreve para comunidades judaico-cristãs que conviviam com tensões entre a tradição religiosa e a novidade do Evangelho. O evangelista apresenta Jesus como o novo Moisés: assim como Moisés sobe ao monte para receber a Lei, Jesus sobe ao monte para ensinar uma nova interpretação da vontade de Deus.

O texto começa afirmando:

“Quando Jesus desceu do monte, grandes multidões o seguiram.”

Esse detalhe possui um forte valor simbólico. O Mestre não permanece distante do povo. Depois de anunciar o Reino, ele desce ao encontro da realidade concreta das pessoas sofridas.

É justamente nesse caminho que aparece um leproso.

3. Quem era o leproso?

A palavra grega lepra designava diversas doenças de pele, não necessariamente a hanseníase conhecida atualmente. O problema maior não era apenas a enfermidade física, mas a exclusão social e religiosa proveniente dela.

Segundo a legislação de Levítico 13–14, a pessoa considerada impura deveria viver separada da comunidade, usar roupas rasgadas, cobrir o rosto e anunciar sua própria condição gritando: “Impuro! Impuro!”

Isso significava perder praticamente tudo:

  • perdia a convivência familiar;
  • perdia o direito ao culto;
  • perdia o trabalho;
  • perdia a participação na vida social;
  • perdia sua identidade como membro do povo.

Mais do que um doente, o leproso era alguém considerado indigno de pertencer à comunidade.

4. A coragem do excluído

O texto afirma:

“Um leproso aproximou-se e ajoelhou-se diante dele.”

Esse gesto já representa uma ruptura das normas sociais. Um leproso não deveria aproximar-se das pessoas. Sua oração é profundamente significativa:

“Senhor, se queres, podes purificar-me.”

Ele não duvida do poder de Jesus. Sua única dúvida é se será acolhido. Essa é a pergunta que continua presente na vida dos pobres de hoje:

  • Será que Deus também olha para nós?
  • Será que temos lugar na Igreja?
  • Será que nossa vida possui dignidade?

5. O gesto revolucionário de Jesus

A resposta de Jesus acontece em três movimentos:

Primeiro: ele estende a mão. Enquanto todos se afastam, Jesus aproxima-se.

Segundo: ele toca o leproso. Esse é talvez o gesto mais revolucionário do texto. Segundo a Lei, tocar um impuro significava tornar-se igualmente impuro. Jesus, porém, inverte essa lógica: não é a impureza que contamina a santidade; é a santidade do amor que vence toda exclusão. O Reino de Deus não se constrói evitando os marginalizados, mas aproximando-se deles.

Terceiro: Jesus diz:

“Eu quero. Fica purificado.”

No Evangelho de Mateus, essa pequena frase revela o verdadeiro desejo de Deus. Deus quer vida. Deus quer inclusão. Deus quer dignidade. Deus quer comunhão.

6. O envio ao sacerdote

Depois da cura, Jesus afirma:

“Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece a oferta que Moisés determinou.”

Esse detalhe não significa submissão acrítica ao sistema religioso. A apresentação ao sacerdote era o procedimento oficial para que alguém fosse declarado puro e pudesse voltar à convivência social. Jesus não apenas cura uma doença; ele devolve ao homem sua cidadania, sua família, seu trabalho, sua comunidade e sua fé. A cura é integral.

7. A leitura popular do texto

A Leitura Popular da Bíblia parte da convicção de que Deus continua falando através da experiência dos pobres. Nesse sentido, o leproso representa todos aqueles que vivem processos de exclusão.

São os moradores das periferias, os desempregados, os migrantes, os povos indígenas, a população negra vítima do racismo estrutural, as pessoas em situação de rua, os idosos abandonados, os dependentes químicos, os encarcerados, as mulheres vítimas de violência e todos aqueles cuja humanidade é constantemente negada.

O Evangelho mostra que Jesus rompe fronteiras religiosas e sociais para devolver dignidade a essas pessoas. Ele não pergunta sobre seus méritos. Não investiga suas culpas. Não estabelece condições. Primeiro toca, acolhe e restaura. Essa é a lógica do Reino.

8. A dimensão sociotransformadora

Mateus 8,1-4 denuncia uma sociedade que transforma diferenças em exclusões. A lepra torna-se símbolo de todas as estruturas que continuam produzindo invisibilidade. Ainda hoje existem “leprosos sociais”:

  • quem mora nas periferias esquecidas;
  • quem passa fome;
  • quem sofre preconceito racial;
  • quem não possui acesso à saúde ou educação;
  • quem é descartado pelo mercado de trabalho;
  • quem é tratado como problema e não como pessoa.

O gesto de Jesus convida a Igreja a abandonar uma pastoral distante e assumir uma presença comprometida com aqueles que vivem nas margens. Não basta anunciar um Evangelho espiritualizado. É necessário tocar as feridas do povo. Isso significa defender políticas públicas de inclusão, lutar por moradia, saúde, educação, segurança alimentar, trabalho digno e respeito aos direitos humanos.

A verdadeira evangelização passa pela promoção da vida.

9. Pistas para a ação pastoral

Este Evangelho inspira uma Igreja que:

  • aproxima-se dos pobres antes de julgá-los;
  • escuta os que vivem situações de sofrimento;
  • rompe preconceitos sociais e religiosos;
  • cria comunidades acolhedoras e inclusivas;
  • promove pastorais que recuperem a dignidade das pessoas;
  • assume compromisso concreto com justiça social e solidariedade.

A comunidade cristã torna-se sinal do Reino quando deixa de perguntar “quem merece entrar?” e passa a perguntar “quem ainda está do lado de fora?“.

10. Conclusão

Mateus 8,1-4 apresenta um dos retratos mais belos do projeto de Jesus. O primeiro milagre depois do Sermão da Montanha é um gesto de proximidade, toque e inclusão.

Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, o leproso não é apenas um personagem do passado, mas o rosto de todos os pobres e excluídos da história. Jesus continua estendendo sua mão através das comunidades que assumem a missão de restaurar vidas feridas e reconstruir relações marcadas pela exclusão.

Seguir Jesus significa descer da montanha das belas palavras para caminhar nas estradas da vida, onde estão os que sofrem. Ali o Reino de Deus acontece quando o medo dá lugar ao encontro, quando a exclusão é vencida pela fraternidade e quando os pobres deixam de ser invisíveis para ocupar o centro da missão da Igreja.

Assim, a comunidade cristã torna-se testemunha de um Deus que continua dizendo a cada pessoa ferida pela injustiça: “Eu quero. Fica purificado.”


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