Por Pe. Hermes A. Fernandes
A vida de São Damião de Molokai permanece como um dos mais profundos testemunhos cristãos de solidariedade com os pobres, os abandonados e os excluídos. Sua história, embora situada no século XIX, continua iluminando os desafios enfrentados pelos povos da América Latina, especialmente aqueles que vivem nas periferias urbanas e rurais, marcados pela pobreza, pela violência, pelo racismo, pela fome e pela invisibilidade social.
Nascido na Bélgica em 1840 com o nome de Jozef De Veuster, Damião ingressou na congregação dos Sagrados Corações e foi enviado como missionário para o Havaí. Naquele período, a lepra — hoje conhecida como hanseníase — espalhava-se entre a população local. O medo do contágio levou as autoridades a adotarem uma política de segregação: os doentes eram retirados de suas famílias e enviados para a península de Molokai, onde permaneciam isolados do restante da sociedade.
A situação dos leprosos era dramática. Eles não sofriam apenas por causa da doença física, mas também pela rejeição social. Eram considerados impuros, perigosos e indignos de conviver com os demais. Em muitos aspectos, sua humanidade lhes era negada. Foi nesse contexto que Damião decidiu viver entre eles, compartilhando suas dores, suas esperanças e suas lutas.
Ao chegar a Molokai, ele não se apresentou como um benfeitor distante. Tornou-se parte da comunidade. Construiu casas, organizou escolas, cuidou dos enfermos, celebrou a fé, defendeu os direitos dos abandonados e lutou para que fossem tratados com dignidade. Seu compromisso foi tão radical que acabou contraindo a própria doença. Não permaneceu ao lado dos leprosos apenas enquanto era seguro fazê-lo; permaneceu até o fim.
Os leprosos de ontem e os excluídos de hoje
A Leitura Popular da Bíblia nos ajuda a compreender que a lepra, nas Escrituras e na história, é mais do que uma enfermidade. Ela representa os mecanismos de exclusão que afastam pessoas da convivência social, da participação comunitária e do acesso à dignidade.
Se olharmos para a realidade latino-americana, perceberemos que os “leprosos” de hoje possuem muitos rostos.
São os milhões de pessoas que vivem nas periferias sem saneamento básico e sem acesso adequado à saúde. São os trabalhadores submetidos a condições precárias de emprego. São os moradores de rua que se tornam invisíveis aos olhos da sociedade. São os povos indígenas expulsos de seus territórios. São as comunidades negras que continuam sofrendo os efeitos históricos do racismo estrutural. São os migrantes, os refugiados, os dependentes químicos abandonados, os idosos esquecidos, os jovens sem oportunidades e tantas outras pessoas consideradas descartáveis por uma sociedade orientada pelo lucro e pela competição.
Como os leprosos de Molokai, muitos destes irmãos e irmãs carregam não apenas o peso de suas dificuldades materiais, mas também o estigma da rejeição social. Frequentemente são culpabilizados pela própria condição, como se a pobreza fosse resultado de fracassos individuais e não consequência de estruturas econômicas e políticas injustas.
A espiritualidade da proximidade
O testemunho de São Damião desafia uma espiritualidade que se limita a discursos ou práticas religiosas desvinculadas da realidade humana. Sua vida recorda que seguir Jesus significa aproximar-se daqueles que o mundo afasta.
Nos Evangelhos, Jesus toca os leprosos, conversa com os marginalizados e devolve dignidade aos excluídos. Ele rompe barreiras religiosas, sociais e culturais para anunciar que todos são filhos e filhas de Deus. Damião viveu exatamente essa lógica evangélica.
Na América Latina, essa espiritualidade da proximidade encontra profunda sintonia com a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base, das pastorais sociais e das inúmeras iniciativas populares que procuram construir uma sociedade mais justa. A fé cristã torna-se autêntica quando se transforma em presença solidária junto aos que sofrem.
São Damião não resolveu todos os problemas de Molokai. Entretanto, demonstrou que ninguém deve enfrentar o sofrimento sozinho. Sua presença tornou-se um sinal concreto do amor de Deus entre os esquecidos.
Um chamado para a Igreja e para a sociedade
O exemplo de São Damião continua questionando a Igreja e toda a sociedade latino-americana. Ele nos convida a perguntar: quem são aqueles que permanecem isolados em nossos dias? Quem são os invisíveis que evitamos encontrar? Quais são as novas formas de lepra social produzidas pela desigualdade, pelo preconceito e pela exclusão?
A resposta a essas perguntas exige mais do que compaixão. Exige compromisso. Exige a construção de comunidades acolhedoras, políticas públicas inclusivas e práticas pastorais que coloquem os pobres no centro da missão.
A santidade de São Damião não nasceu de feitos extraordinários, mas de uma escolha cotidiana: permanecer ao lado dos que ninguém queria. Seu testemunho recorda que o Reino de Deus começa a se tornar realidade quando os excluídos deixam de ser objeto de assistência e passam a ser reconhecidos como sujeitos de dignidade, direitos e esperança.
Para os povos da América Latina, marcados por tantas feridas sociais, São Damião de Molokai continua sendo um profeta da solidariedade. Sua vida proclama que nenhuma pessoa é impura, descartável ou esquecida diante de Deus. E que a verdadeira missão cristã consiste em caminhar com os pobres, compartilhar suas lutas e construir, junto com eles, sinais concretos de vida, justiça e fraternidade. Sigamos! Sejamos Damião de Malokai hoje.
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