Por Pe. Hermes A. Fernandes
Dom Luciano Mendes de Almeida é uma das figuras mais admiradas da Igreja Católica no Brasil contemporâneo. Jesuíta, intelectual brilhante, pastor incansável e homem de profunda espiritualidade, tornou-se conhecido não apenas pelos cargos importantes que ocupou na Igreja, mas sobretudo pela forma concreta com que viveu o Evangelho junto aos pobres, às crianças abandonadas, aos doentes e aos excluídos da sociedade. Sua memória permanece viva entre aqueles que o conheceram e também entre milhares de pessoas que veem nele um autêntico testemunho de santidade.
Nascido no Rio de Janeiro em 5 de outubro de 1930, Luciano Pedro Mendes de Almeida ingressou na Companhia de Jesus ainda jovem. Dotado de extraordinária inteligência, realizou estudos filosóficos e teológicos em Roma, obtendo sólida formação acadêmica. Ordenado sacerdote em 1958, destacou-se como professor, formador e pensador, mas jamais permitiu que o conhecimento o afastasse das pessoas simples. Pelo contrário, sua erudição sempre esteve a serviço da evangelização e da promoção humana.
Em 1976 foi nomeado bispo auxiliar de São Paulo, trabalhando ao lado do cardeal Paulo Evaristo Arns. Na capital paulista desenvolveu intensa atuação pastoral, especialmente junto às populações mais vulneráveis. Foi um dos fundadores da Pastoral do Menor, iniciativa que se tornou referência nacional na defesa dos direitos de crianças e adolescentes em situação de risco e que influenciou importantes avanços na proteção da infância no Brasil.
Seu reconhecimento nacional levou-o a assumir funções de grande relevância na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi secretário-geral e posteriormente presidente. Também exerceu importante papel no episcopado latino-americano, participando dos debates pastorais que marcaram a recepção do Concílio Vaticano II e das Conferências Episcopais da América Latina. Entretanto, mesmo ocupando posições de liderança, Dom Luciano manteve um estilo de vida extremamente simples, caracterizado pela proximidade com o povo.
Em 1988, foi nomeado arcebispo da Arquidiocese de Mariana, onde permaneceria até sua morte, em 2006. Foi nesse período que sua fama de santidade se consolidou de modo especial. Em Mariana, tornou-se conhecido por visitar pessoalmente os pobres, os doentes, os presos e os moradores de rua. Era comum vê-lo caminhando pelas ruas, carregando bolsas com medicamentos ou alimentos destinados a pessoas necessitadas. Muitos testemunham que ele conhecia pelo nome inúmeras famílias pobres e acompanhava suas dificuldades concretas.
O compromisso de Dom Luciano com os pobres não era fruto de uma opção meramente social ou política. Nascia de sua profunda experiência de fé. Inspirado pelo Evangelho e pela tradição da Igreja latino-americana, entendia que Cristo se faz presente de maneira privilegiada nos que sofrem. Por isso, sua ação pastoral unia evangelização, promoção humana e defesa da dignidade das pessoas. Acolhia crianças abandonadas, defendia os direitos humanos, promovia obras sociais e incentivava uma Igreja próxima das periferias existenciais e geográficas.
Sua atuação em favor dos excluídos fez dele uma referência moral para a sociedade brasileira. Em tempos marcados por profundas desigualdades sociais, Dom Luciano tornou-se uma voz profética em defesa da justiça, da solidariedade e da fraternidade. Sua vida recorda a tradição dos grandes pastores latino-americanos que compreenderam a opção preferencial pelos pobres como uma exigência do próprio Evangelho.
Além de sua dedicação aos pobres, impressionava sua humildade. Pessoas que conviveram com ele relatam que jamais utilizava sua posição eclesiástica para buscar privilégios. Apesar de possuir notável cultura e reconhecimento internacional, tratava todos com a mesma atenção e respeito, desde autoridades até os mais simples trabalhadores. Essa combinação de inteligência, simplicidade, caridade e profunda vida espiritual contribuiu para que sua fama de santidade crescesse rapidamente após sua morte.
Dom Luciano faleceu em 27 de agosto de 2006, após enfrentar graves problemas de saúde. Sua morte provocou grande comoção na Igreja brasileira. Poucos anos depois, iniciou-se oficialmente o processo para sua beatificação. Em 2014, a Santa Sé autorizou a abertura da causa, concedendo-lhe o título de Servo de Deus. A fase diocesana do processo foi concluída em 2018, após extensa coleta de documentos e testemunhos sobre sua vida, virtudes e reputação de santidade. O material produzido ultrapassou seis mil páginas e foi enviado ao Vaticano para análise.
Segundo informações mais recentes divulgadas pela Arquidiocese de Mariana e por responsáveis pela causa, a documentação encontra-se em Roma, passando pelas etapas técnicas de estudo e tradução necessárias para a elaboração da chamada Positio, documento que reúne os elementos destinados à avaliação das virtudes heroicas do Servo de Deus. De acordo com atualizações divulgadas em 2024, o processo encontrava-se na fase de tradução e organização da vasta documentação enviada ao Dicastério para as Causas dos Santos. O próximo passo esperado é o reconhecimento oficial de suas virtudes heroicas, quando então poderá receber o título de Venerável. Posteriormente, será necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão para a beatificação.
A história de Dom Luciano Mendes de Almeida permanece como um dos mais belos testemunhos da Igreja no Brasil. Sua vida demonstra que a verdadeira grandeza cristã não se mede pelo poder ou pelo prestígio, mas pela capacidade de servir. Intelectual respeitado, bispo influente e pastor amado, ele fez da caridade sua linguagem mais eloquente. Por isso, para muitos fiéis, antes mesmo de qualquer reconhecimento oficial da Igreja, Dom Luciano já permanece na memória do povo como um autêntico amigo dos pobres e uma luminosa testemunha do Evangelho de Jesus Cristo.
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