Mateus 10,7-15: A missão do Reino como compromisso libertador
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O Evangelho de Mateus 10,7-15 representa uma das mais significativas sínteses da espiritualidade missionária de Jesus. Nele encontramos não apenas instruções práticas aos discípulos enviados em missão, mas sobretudo uma verdadeira pedagogia do Reino de Deus. A missão cristã nasce da experiência com Jesus e transforma-se em compromisso histórico com a vida, especialmente onde ela se encontra ameaçada.
A Teologia Latino-americana compreende esse texto não como uma simples recordação histórica da missão dos Doze, mas como um chamado permanente dirigido às comunidades cristãs de todos os tempos. O Reino anunciado por Jesus possui consequências sociais, econômicas, culturais e políticas. Trata-se de uma Boa Nova destinada, antes de tudo, aos pobres, aos pequenos, aos descartados da história.
A Leitura Popular da Bíblia, desenvolvida nas Comunidades Eclesiais de Base, convida-nos a ler este Evangelho a partir da vida concreta do povo. O texto ilumina a realidade, enquanto a realidade permite compreender novas dimensões da Palavra de Deus. A missão não consiste apenas em ensinar doutrinas, mas em tornar presente o Reino por meio da justiça, da solidariedade e da misericórdia.
O contexto de Mateus 10
O capítulo 10 constitui o chamado “Discurso Missionário”. Depois de contemplar as multidões “cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), Jesus envia seus discípulos para continuarem sua própria missão.
O envio acontece num contexto de opressão. A Palestina do século I encontrava-se submetida ao domínio romano. A exploração econômica, os elevados impostos, a concentração de terras, a exclusão religiosa promovida por determinados grupos e o empobrecimento crescente marcavam profundamente a vida do povo.
Não é por acaso que Jesus inicia sua missão dirigindo-se precisamente aos que sofrem. Seu anúncio do Reino responde às necessidades concretas daquele povo.
“Pelo caminho anunciai: o Reino dos Céus está próximo”
A primeira ordem é anunciar. Entretanto, anunciar não significa apenas proclamar palavras. Na tradição bíblica, anunciar implica realizar.
O Reino dos Céus não corresponde a um lugar futuro reservado após a morte. Em Mateus, essa expressão substitui “Reino de Deus” por respeito ao costume judaico de evitar pronunciar diretamente o nome divino. O Reino é o próprio agir de Deus na história. Quando Jesus afirma que o Reino está próximo, proclama que Deus já começou a transformar a realidade humana.
A Teologia Latino-americana insiste que esse Reino possui uma dimensão histórica. Como afirmava o teólogo Gustavo Gutiérrez, falar da salvação significa falar também da libertação das estruturas de pecado que produzem pobreza e exclusão. Assim, anunciar o Reino significa denunciar tudo aquilo que produz morte e anunciar possibilidades concretas de vida.
“Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios”
Jesus associa imediatamente palavra e ação. Não existe evangelização sem promoção da vida. Cada um desses sinais possui profundo significado.
Curar enfermos representa restaurar a dignidade humana. Purificar leprosos significa reintegrar os excluídos à convivência social. Expulsar demônios simboliza libertar pessoas das forças que escravizam. Ressuscitar mortos aponta para toda ação capaz de devolver esperança onde parece existir apenas desesperança.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, esses sinais continuam acontecendo hoje. São “mortos” todos aqueles cuja dignidade foi destruída pela fome. São “leprosos” aqueles rejeitados pela sociedade. São “endemoniados” os aprisionados pela violência, pelas drogas, pelo tráfico humano, pelo racismo, pelo machismo, pela corrupção e pelas diversas formas de exclusão.
A missão da Igreja consiste em tornar visível essa libertação.
“De graça recebestes, de graça deveis dar”
Este talvez seja um dos versículos mais revolucionários do texto. Jesus proíbe transformar a missão em comércio.
No mundo antigo era comum filósofos itinerantes cobrarem por seus ensinamentos. Jesus rompe completamente essa lógica. Tudo aquilo que Deus oferece é dom. A graça não pode ser vendida.
A Teologia Latino-americana sempre recordou que o Evangelho jamais pode ser subordinado aos interesses econômicos, ao prestígio institucional ou às lógicas de poder. A missão cristã perde sua credibilidade quando deixa de ser serviço para tornar-se privilégio. Também hoje esta palavra desafia comunidades cristãs a cultivarem uma pastoral marcada pela gratuidade, simplicidade e proximidade com os pobres.
A pobreza missionária como sinal do Reino
Jesus orienta:
“Não leveis ouro, prata, dinheiro, sacola, duas túnicas…”
Não se trata de condenar os bens materiais. O objetivo é impedir que o missionário coloque sua segurança nas riquezas. A pobreza evangélica torna o discípulo livre.
A Teologia Latino-americana compreende essa pobreza como opção. Não significa glorificar a miséria. Ao contrário, significa colocar-se ao lado dos pobres para combater as causas da pobreza. Como insistia Jon Sobrino, trata-se de uma Igreja pobre para os pobres.
Uma Igreja que vive com simplicidade torna-se muito mais próxima das dores do povo.
A hospitalidade como construção comunitária
Jesus recomenda permanecer na casa que acolher os missionários. Na cultura semita, a hospitalidade era muito mais que gentileza. Era sinal de aliança.
Ao permanecer na casa, o discípulo partilha a vida cotidiana das pessoas. Não estabelece relações de superioridade. Come da mesma comida. Dorme sob o mesmo teto. Escuta os mesmos sofrimentos. A missão nasce da convivência.
A Leitura Popular da Bíblia valoriza profundamente esse aspecto. O Evangelho cresce nas pequenas comunidades.
Nas famílias.
Nas periferias.
Nos grupos de reflexão.
Nas Comunidades Eclesiais de Base.
O Reino constrói relações.
Sacudir a poeira dos pés
À primeira vista, esse gesto pode parecer um ato de condenação. Entretanto, possui significado mais profundo. O discípulo não impõe o Evangelho. Respeita a liberdade.
Quando uma comunidade rejeita a proposta do Reino, o missionário segue adiante.
Não responde com violência.
Não alimenta ressentimentos.
Continua anunciando onde houver abertura.
Este ensinamento continua extremamente atual. Há muita arrogância e violência nos discursos apologéticos de hoje. A evangelização não acontece mediante imposições culturais, políticas ou religiosas. Ela acontece pelo testemunho. E muitos dos que se dizem defensores da Sã Doutrina, dão contratestemunho do Evangelho. São violentos, excludentes, preconceituosos. São instrumentos de separação. testemunham mais de si mesmos do que de Jesus.
Atualizando Mateus 10 para a América Latina
Nossa realidade apresenta novos desafios. Hoje encontramos multidões cansadas e abatidas.
São famílias vivendo nas periferias urbanas.
Povos indígenas ameaçados.
Comunidades quilombolas privadas de direitos.
Migrantes.
Refugiados.
Pessoas em situação de rua.
Jovens sem perspectivas.
Mulheres vítimas de violência.
Idosos abandonados.
Pessoas com deficiência frequentemente invisibilizadas.
Negros submetidos ao racismo estrutural.
Trabalhadores explorados.
A missão continua sendo anunciar que Deus deseja vida plena para todos. Essa missão exige uma Igreja em saída, conforme insiste Papa Francisco, capaz de caminhar junto ao povo, escutando seus clamores e construindo caminhos concretos de justiça.
Consequências pastorais
Mateus 10,7-15 propõe profundas exigências para nossas comunidades.
Entre elas destacam-se:
- recuperar a centralidade do Reino acima das estruturas eclesiásticas;
- fortalecer pequenas comunidades missionárias;
- formar discípulos comprometidos com a justiça social;
- aproximar a evangelização das periferias existenciais;
- defender os direitos humanos como expressão da dignidade dada por Deus;
- desenvolver pastorais que integrem anúncio, promoção humana e cuidado com a Casa Comum;
- promover uma Igreja sinodal, participativa e ministerial;
- valorizar o protagonismo dos leigos, das mulheres, dos jovens e das comunidades tradicionais;
- cultivar uma espiritualidade da simplicidade, da gratuidade e do serviço.
Conclusão
Mateus 10,7-15 permanece como um dos grandes manifestos missionários do Novo Testamento. Nele, Jesus apresenta um modo de evangelizar profundamente diferente das lógicas do poder. O discípulo não conquista; serve. Não acumula; partilha. Não domina; caminha com o povo. Não busca privilégios; torna-se sinal da presença amorosa de Deus.
À luz da Teologia Latino-americana, o anúncio do Reino é inseparável da promoção da justiça, da defesa da dignidade humana e da opção preferencial pelos pobres. A Leitura Popular da Bíblia reforça que esse Evangelho ganha vida quando lido em comunidade, confrontado com a realidade e traduzido em práticas concretas de solidariedade.
Em tempos marcados por profundas desigualdades sociais, violência, exclusão e indiferença, o envio missionário de Jesus conserva toda a sua atualidade. A Igreja é chamada a testemunhar um Reino que já se faz presente onde a fome é combatida, a paz é construída, os direitos são defendidos, os excluídos são acolhidos e a esperança floresce.
Assim, a missão confiada por Jesus aos discípulos continua ecoando nas comunidades cristãs da América Latina: anunciar que o Reino está próximo é comprometer-se com uma sociedade reconciliada, justa e fraterna, onde os pobres deixem de ser objeto de assistência para tornarem-se sujeitos da própria história e protagonistas da construção do Reino de Deus.
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