Ela muito amou

Por Karina Moreti

Há uma mulher caminhando pelas ruas de Betânia com um pequeno vaso nas mãos. Ninguém registra seu nome. Ninguém conhece sua história. Os Evangelhos conservaram apenas aquilo que realmente importa: o gesto. Ela entra na casa de Simão, o leproso, aproxima-se de Jesus e, diante do espanto dos presentes, quebra um vaso de alabastro para derramar sobre seus pés um perfume preciosíssimo (cf. Mc 14,3; Mt 26,7). Em poucos instantes, toda a casa se enche de fragrância. Ao mesmo tempo, enche-se também de murmurações. Enquanto alguns enxergam desperdício, Jesus contempla um amor que não conhece medidas.

A tradição evangélica conservou essa memória em quatro narrativas distintas. Lucas apresenta uma mulher conhecida na cidade como pecadora que unge os pés de Jesus na casa de um fariseu (cf. Lc 7,36-50). João identifica a mulher como Maria de Betânia e afirma que o perfume encheu toda a casa (cf. Jo 12,1-8). Marcos e Mateus, por sua vez, narram a unção realizada por uma mulher anônima poucos dias antes da paixão (cf. Mc 14,3-9; Mt 26,6-13). Não há necessidade de fundir essas mulheres numa única personagem. Cada evangelista preserva uma tradição própria, mas todas convergem para uma mesma verdade: diante de Jesus, uma mulher foi capaz de reconhecer aquilo que muitos discípulos ainda não haviam compreendido.

Marcos chama o recipiente de ἀλάβαστρον (alábastron). O detalhe não é decorativo. Na Antiguidade, o alabastro era uma pedra clara, delicada e levemente translúcida, utilizada para esculpir pequenos recipientes destinados a conservar perfumes de altíssimo valor. Sua porosidade ajudava a preservar a essência, protegendo-a da luz, do calor e da evaporação. O vaso era quase tão precioso quanto aquilo que guardava. Não servia para perfumes comuns. Era reservado ao que havia de mais raro.

O perfume era nardo puro (nardos pistikḗ), extraído da Nardostachys jatamansi, planta que crescia nas encostas do Himalaia e chegava à Palestina através das grandes rotas comerciais do Oriente. Seu preço era impressionante. Marcos menciona cerca de trezentos denários (cf. Mc 14,5), o equivalente ao salário de quase um ano inteiro de trabalho. Não era um luxo cotidiano. Era uma riqueza cuidadosamente preservada para um momento decisivo da vida. Talvez um dote. Talvez uma herança. Talvez a única segurança daquela mulher diante do futuro.

Mas o Evangelho conduz o olhar para outro detalhe. Antes de derramar o perfume, ela quebra o vaso. O verbo empregado por Marcos é συντρίβω (syntríbō), “romper”, “despedaçar completamente”. Muitos vasos de alabastro eram selados e precisavam ter o gargalo quebrado para que toda a essência fosse derramada. O gesto é definitivo. Depois disso, não existe volta. Não se guarda uma parte para amanhã. Não se conserva uma reserva para tempos difíceis. Não se reutiliza o recipiente. A mulher oferece tudo o que possui porque, diante daquele que reconhece como o Ungido de Deus, nada pode permanecer fechado.

Talvez seja exatamente por isso que a reação dos presentes seja de escândalo. Os discípulos fazem contas. Calculam o preço do perfume, estimam quanto poderia ser arrecadado e concluem que tudo aquilo foi um desperdício (cf. Mc 14,4-5; Mt 26,8-9). Jesus, porém, olha para a cena a partir de outro horizonte. Enquanto eles enxergam um patrimônio perdido, ele contempla uma vida oferecida. No Reino de Deus, existem gestos cuja verdade não pode ser medida pelo valor de mercado. O amor jamais cabe numa planilha.

Lucas amplia ainda mais essa compreensão. Na casa do fariseu, Jesus faz uma pergunta que atravessa os séculos: “Estás vendo esta mulher?” (Lc 7,44). A pergunta parece desnecessária, pois todos a viam. Mas olhar não é o mesmo que enxergar. Simão contempla uma pecadora. Jesus contempla uma discípula. O fariseu enxerga um passado marcado por erros. Jesus reconhece um coração transformado pelo amor. É por isso que afirma: “Ela muito amou” (Lc 7,47).

João acrescenta uma imagem inesquecível: “A casa encheu-se com o perfume” (Jo 12,3). O perfume deixa de pertencer ao vaso e passa a pertencer ao ambiente. A fragrância alcança a todos, inclusive aqueles que não compreenderam o gesto. Assim acontece com o amor verdadeiro. Quando é derramado, nunca permanece restrito à pessoa que o oferece. Espalha-se silenciosamente e transforma tudo ao seu redor.

Não é por acaso que o nardo aparece na Bíblia muito antes dos Evangelhos. No livro do Cântico dos Cânticos, a amada canta: “enquanto o rei está em seu divã, o meu nardo difunde seu perfume” (Ct 1,12). Mais adiante, o nardo reaparece entre as plantas do jardim amado (cf. Ct 4,13-14). O perfume torna-se símbolo do amor que se oferece gratuitamente. Nos Evangelhos, esse mesmo nardo volta a aparecer diante daquele que é apresentado como o verdadeiro Esposo. O perfume que celebrava o amor humano passa agora a anunciar o amor de Cristo, que se entregará até a cruz.

É por isso que Jesus interpreta aquela unção como preparação para sua sepultura (cf. Mc 14,8). A mulher talvez não compreenda plenamente o alcance do que faz, mas seu gesto torna-se profundamente profético. O vaso quebrado anuncia o corpo que será partido. O perfume derramado anuncia a vida que será entregue. A paixão começa a ser narrada não com o cheiro da morte, mas com a fragrância do amor.

Provavelmente Paulo tivesse essa imagem na memória quando escreveu aos coríntios: “Nós somos o bom perfume de Cristo” (2Cor 2,15). O discípulo não é chamado apenas a admirar o perfume daquela mulher, mas a tornar-se perfume para o mundo. Entretanto, existe um detalhe que o Evangelho não nos permite esquecer: o perfume só se espalha porque primeiro houve um vaso quebrado.

Essa talvez seja também a história de tantas mulheres que sustentaram e continuam sustentando a Igreja. Muitas permaneceram anônimas, como a mulher de Marcos e Mateus. Seus nomes raramente apareceram nos livros de história. Não ocuparam cargos de prestígio, não receberam títulos nem monumentos. Mas quebraram seus vasos. Gastaram suas vidas na catequese, na visita aos doentes, na mesa dos pobres, na educação dos filhos, na organização das comunidades, na oração silenciosa, no cuidado cotidiano. O mundo talvez não tenha guardado seus nomes. Conservou, porém, o perfume de suas vidas.

Ao final da narrativa, Jesus faz uma promessa extraordinária: “Onde quer que o Evangelho seja proclamado em todo o mundo, será contado também o que ela fez, para memória sua” (Mc 14,9; Mt 26,13). É curioso perceber que o Evangelho preserva a memória de um gesto e não de um nome. O nome perdeu-se no tempo. O vaso foi quebrado. O perfume evaporou. O amor permaneceu.

Essa é a grande lição dessa mulher. Os vasos se quebram. Os perfumes se dissipam. As casas desaparecem. Os nomes podem ser esquecidos pelo tempo. O amor, porém, permanece. É ele que continua perfumando a história e revelando o Reino de Deus na vida daqueles que aprendem a entregar tudo o que são.

Talvez por isso o Evangelho não tenha conservado seu nome, mas tenha preservado seu gesto. O vaso foi quebrado. O perfume espalhou-se pela casa. E sua memória continua viva há mais de dois mil anos, porque existem gestos que jamais envelhecem.

Afinal, poucas palavras resumem tão bem uma vida quanto aquelas pronunciadas por Jesus: “Ela muito amou.” (Lc 7,47)


Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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