O Amor é mais forte do que a Morte: da Paixão à Ressurreição de Jesus no Evangelho de Mateus (Cap. 26 a 28)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

Os capítulos 26 a 28 do Evangelho de Mateus constituem o grande desfecho da narrativa sobre Jesus: a conspiração contra ele, a unção em Betânia, a última ceia, a agonia no Getsêmani, a prisão, o julgamento, a crucificação, a morte, o sepultamento, a ressurreição e o envio missionário dos discípulos. A paixão e a ressurreição não são, portanto, episódios isolados, mas o ponto culminante de todo o Evangelho.

Mateus segue de perto a narrativa de Marcos, mas introduz elementos próprios que revelam preocupações teológicas e pastorais de sua comunidade. Entre eles estão a ênfase no cumprimento das Escrituras, o papel das mulheres como testemunhas, fenômenos da natureza como sinais associados à morte de Jesus, o sepultamento e, finalmente, o encontro do Ressuscitado com os discípulos na Galileia.

Lidos a partir da Teologia Latino-Americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses capítulos apresentam uma pergunta decisiva: que Deus se revela no Crucificado e Ressuscitado, e que tipo de Igreja nasce dessa experiência? A resposta de Mateus aponta para um Deus que se coloca do lado da vítima, vence os poderes da morte e envia seus discípulos para construir uma comunidade comprometida com a vida.

1. Mateus 26: Jesus entrega sua vida

Mateus 26 inicia a narrativa da paixão com uma declaração de Jesus: chegou a hora do Filho do Homem ser entregue e crucificado (26,1-2). Não se trata de uma morte acidental. Jesus sabe que seu anúncio do Reino e sua prática de justiça entraram em conflito com estruturas religiosas, econômicas e políticas que não toleram a libertação dos pobres.

A conspiração dos chefes dos sacerdotes e líderes do judaísmo formativo (26,3-5) revela que a morte de Jesus possui uma dimensão política e social. O poder religioso procura eliminar aquele cuja palavra questiona privilégios. O conflito entre Jesus e as autoridades não pode ser reduzido a uma questão meramente individual ou espiritual. O anúncio do Reino coloca em xeque uma sociedade marcada pela exclusão.

A cena da unção em Betânia (26,6-13) introduz uma mulher anônima como protagonista. Enquanto alguns consideram seu gesto um desperdício, Jesus o interpreta como uma ação de amor e memória. Ela reconhece, antes dos discípulos, a gravidade da situação. Sua memória permanece associada ao Evangelho: “Eu garanto a vocês que por toda a parte onde esta Boa Notícia for pregada, também contarão o que ela fez, e ela será lembrada” (26,13).

Para uma leitura popular da Bíblia, essa mulher representa tantas pessoas anônimas que, nas comunidades, realizam gestos aparentemente pequenos, mas carregados de significado. São mulheres, trabalhadores, idosos, jovens, agentes de pastoral e pobres que sustentam a esperança cotidiana.

A última ceia (26,17-30) aprofunda essa dimensão. Jesus toma o pão e o vinho e os interpreta como expressão de sua própria entrega. O sangue da Aliança é derramado “em favor de muitos”. A Eucaristia, portanto, não pode ser separada da existência concreta de Jesus. O corpo celebrado no altar é o corpo daquele que será entregue.

A Teologia Latino-Americana insiste que a Eucaristia exige coerência com a solidariedade aos crucificados da história. Celebrar o corpo de Cristo enquanto se permanece indiferente aos corpos feridos pela fome, pela violência, pelo racismo, pela exploração e pela exclusão seria contradizer a própria lógica da Ceia do Senhor.

No Getsêmani (26,36-46), Jesus experimenta angústia e solidão. Ele pede aos discípulos que permaneçam com ele, mas eles adormecem. O Messias não aparece como alguém indiferente ao sofrimento. Ele enfrenta a dor com confiança no Pai. Essa humanidade de Jesus torna-se particularmente significativa para os pobres e sofredores: Deus não observa o sofrimento humano de longe; em Jesus, Ele entra nele.

A prisão (26,47-56) mostra a lógica da violência. Judas entrega Jesus com um beijo; uma espada é utilizada para reagir; Jesus, porém, rejeita a violência como caminho do Reino. A força messiânica não será construída mediante a reprodução da lógica dos opressores.

O julgamento diante das autoridades religiosas (26,57-68) e a negação de Pedro (26,69-75) mostram uma comunidade marcada pela fragilidade. Mesmo aqueles que haviam prometido fidelidade podem sucumbir ao medo. Essa constatação é importante para as Comunidades Eclesiais de Base: a Igreja não é uma comunidade de pessoas perfeitas, mas de discípulos que precisam continuamente converter-se ao caminho de Jesus.

2. Mateus 27: o Crucificado no centro da história

Mateus 27 se inicia com Jesus diante de Pilatos (27,1-26). Aqui aparece explicitamente o poder romano. A crucificação era uma condenação à morte instituída na Palestina pelo Império Romano, utilizada especialmente para intimidar e eliminar aqueles que eram considerados perigosos para a ordem imperial.

A condenação de Jesus não pode ser interpretada como simples consequência de um conflito religioso interno. A morte na cruz revela também a violência de um sistema que elimina aquele que ameaça sua estabilidade. Um estudo mais profundo sobre o Evangelho de Mateus e sua comunidade reconhece a complexidade histórica do julgamento e chama atenção para a necessidade de distinguir a responsabilidade das autoridades locais da execução romana.

É importante, portanto, evitar qualquer leitura que transforme o relato em acusação contra todo o povo judeu. O texto nasce de um conflito entre grupos concretos do século I e não pode ser utilizado para alimentar antissemitismo ou preconceito religioso.

Jesus é zombado, espancado e coroado com espinhos (27,27-31). O império pretende ridicularizar sua pretensão de ser rei. Entretanto, a ironia narrativa de Mateus é profunda: aquele que parece derrotado é precisamente o verdadeiro Rei.

A cruz (27,32-44) constitui o centro dramático do capítulo. Jesus é colocado entre dois criminosos. Sua morte acontece fora do espaço de honra, entre os rejeitados. A hermenêutica da Teologia Latino-Americana encontra aqui uma chave fundamental: o Deus revelado em Jesus identifica-se com os crucificados da história.

Jesus continua sendo crucificado hoje quando seres humanos são descartados por sua pobreza, pela cor de sua pele, por sua origem, pela condição social ou território; quando trabalhadores são submetidos à exploração; quando povos indígenas são expulsos de suas terras; quando migrantes são tratados como ameaça; quando moradores das periferias são vítimas da violência; quando mulheres sofrem violência e feminicídio.

O grito de Jesus — “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (27,46) — não deve ser censurado pela espiritualidade cristã. Há quem tema essas palavras de Jesus, acreditando ser sinal de fraqueza do Verbo Encarnado. Ao contrário, este grito de Jesus é a oração de um inocente que experimenta o abandono. Com este gesto e estas palavras, o próprio Jesus assume o grito dos sofredores.

A morte de Jesus (27,50) é acompanhada por sinais cósmicos: o véu do templo se rasga, a terra treme e os túmulos se abrem (27,51-53). Mateus interpreta a morte como acontecimento de alcance universal. O poder que parecia triunfar sobre Jesus não possui a última palavra.

O centurião e os que estavam com ele reconhecem: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus” (27,54). O reconhecimento acontece justamente diante do Crucificado. O Deus de Jesus não se manifesta conforme os critérios de poder, prestígio e dominação, mas na solidariedade com aquele que sofre.

O sepultamento realizado por José de Arimateia (27,57-61) e a colocação de guardas junto ao túmulo (27,62-66) preparam o capítulo seguinte. A tentativa de controlar até mesmo a memória do morto revela o medo dos poderes diante da possibilidade de que sua mensagem continue viva.

3. Mateus 28: a vida vence a morte

Mateus 28 começa com as mulheres indo ao sepulcro “depois do sábado” (28,1). Maria Madalena e a outra Maria tornam-se testemunhas fundamentais. Em uma sociedade na qual o testemunho feminino possuía peso social limitado, Mateus coloca mulheres na primeira linha da Proclamação Pascal.

O anjo anuncia: “Ele não está aqui. Ressuscitou” (28,6). A ressurreição é a resposta de Deus à violência praticada contra Jesus. Não significa negar a Cruz, mas afirmar que a Cruz não conseguiu destruir a vida que Deus sustenta. A morte não teve a última palavra.

A Páscoa, portanto, não é fuga da realidade histórica. É a confirmação de que o projeto do Reino anunciado por Jesus não termina no túmulo. A Ressurreição inaugura uma nova possibilidade histórica.

As mulheres recebem a missão de anunciar aos discípulos que Jesus irá encontrá-los na Galileia (28,7-10). É significativo que o Ressuscitado não os convoque primeiro para o centro do poder religioso, Jerusalém, mas para a Galileia, lugar associado ao início de sua missão e caracterizado por maior diversidade cultural e religiosa. Ainda vale lembrar que a Galileia era revestida de sérios preconceitos por parte daqueles que afiançavam sua confiança nos centros de poder. Jesus ressuscitado convida seus discípulos a encontrá-lo na periferia marginalizada e excluída. Algo que nos faz pensar sobre nossa própria realidade eclesial. Jesus ressuscitado é encontrado nas periferias, nos excluídos, marginalizados, nas mulheres vítimas de violência, nos trabalhadores explorados, nos humanos e humanas que têm seus Direitos negados. A comunidade cristã é chamada a reencontrar Jesus não somente nos espaços considerados sagrados, mas – sobretudo – nos territórios onde a vida está ameaçada.

A narrativa dos guardas (28,11-15) apresenta uma tentativa de controlar a interpretação dos acontecimentos. Segundo o relato, as autoridades difundem a versão de que os discípulos teriam roubado o corpo. Mateus contrapõe duas versões da realidade: a propaganda dos poderes e o testemunho dos discípulos e discípulas.

Aqui encontramos uma questão extremamente atual. Também hoje os pobres e marginalizados frequentemente têm sua realidade invisibilizada ou distorcida. A missão cristã inclui, portanto, em escutar os que não têm voz e tornar visíveis as vidas que o sistema procura esconder.

4. Mateus 28,16-20: uma Igreja em saída

O encontro final ocorre na Galileia, sobre uma montanha (28,16). Os onze discípulos contemplam Jesus ressuscitado, mas alguns ainda têm dificuldade de acreditar (28,17). A observação é extraordinariamente realista: a missão não é confiada a pessoas sem dificuldades de fé, mas a discípulos e discípulas que continuam caminhando apesar de suas fragilidades.

Jesus declara: “Foi-me dada toda autoridade no céu e sobre a terra” (28,18). Essa afirmação adquire enorme significado quando comparada à autoridade dos impérios. O Ressuscitado contrapõe-se ao poder dominador. Sua autoridade é fundamentada na vida, no serviço e no amor.

Em seguida, Jesus envia: “Ide, fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos” (28,19). A missão que antes tinha sido dirigida prioritariamente a Israel (Mt 10,5-6) agora se abre a todos os povos. A universalidade da missão está profundamente ligada à própria dinâmica do Evangelho de Mateus.

O verbo central é “fazer discípulos”. A missão não consiste simplesmente em aumentar números ou conquistar adeptos. Significa formar pessoas para o seguimento de Jesus, para a prática de seus ensinamentos e para a construção do Reino.

Por isso, “batizar” e “ensinar” não podem ser separados. A iniciação cristã deve conduzir a uma existência transformada. E aquilo que deve ser ensinado é “tudo o que vos ordenei”, ou seja: as bem-aventuranças, o amor aos inimigos, a misericórdia, o perdão, a justiça, a solidariedade, o cuidado com os pequenos e a prática concreta do amor.

Estudos exegéticos recentes reconhecem em Mt 28,16-20 uma espécie de texto-ponte: ele conclui a história de Jesus e abre a história missionária da Igreja.

A última frase é decisiva: “Eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (28,20). O Ressuscitado não promete aos discípulos ausência de conflitos. Terão conflitos resultantes do anúncio da Boa-nova. Mas ele estará conosco, como quem nos fortalece nesta caminhada (cf. Fl 4,13).

Para as Comunidades Eclesiais de Base, essa palavra possui enorme força pastoral. Comunidades pequenas, frequentemente inseridas em contextos de pobreza, violência, abandono ou exclusão, podem sentir-se frágeis. Mateus recorda-lhes que a missão não depende primordialmente de estruturas grandiosas, mas da presença de Cristo e da fidelidade ao Evangelho.

5. Das Comunidades de Jesus aos crucificados de hoje

A hermenêutica da Teologia Latino-americana de Mateus 26–28 conduz necessariamente da contemplação à ação. O Crucificado e Ressuscitado envia uma Igreja que deve assumir a causa da vida.

As Comunidades Eclesiais de Base podem ser compreendidas como espaços privilegiados dessa missão porque reúnem Bíblia, vida, comunidade e compromisso. A leitura popular da Bíblia pergunta: quem são hoje os crucificados? Onde estão os túmulos que escondem a esperança? Quais poderes produzem morte? Onde estão os sinais de ressurreição?

Essa leitura pode gerar compromissos concretos:

1. Escutar os pobres. A comunidade deve partir da vida real das pessoas e reconhecer os pobres não como objetos de assistência, mas como sujeitos da evangelização e da transformação social.

2. Defender a dignidade humana. A Fé Pascal exige posicionamento diante da fome, do desemprego, da exploração, do racismo, da violência, da exclusão e de todas as formas de desumanização.

3. Assumir a causa dos povos marginalizados. A missão inclui defender comunidades indígenas, quilombolas, camponeses, migrantes, moradores das periferias e todos aqueles cuja dignidade e direitos são ameaçados.

4. Construir uma Igreja sinodal e participativa. A presença das mulheres no primeiro anúncio da ressurreição questiona estruturas eclesiais que silenciam ou secundarizam sua participação. A comunidade deve reconhecer os diversos ministérios e carismas presentes no Povo de Deus.

5. Transformar a Eucaristia em compromisso. O pão repartido no altar deve prolongar-se no pão repartido na vida. A celebração eucarística encontra sua autenticidade quando gera solidariedade.

6. Ser presença junto aos crucificados. A Igreja não pode permanecer distante dos lugares onde a morte acontece. Como Jesus foi ao encontro dos pobres, doentes, pecadores e excluídos, também a comunidade cristã deve estar presente nas periferias existenciais e sociais.

7. Anunciar a ressurreição como esperança ativa. Esperança cristã não é passividade. A ressurreição impulsiona a lutar para que a vida prevaleça sobre tudo aquilo que produz morte.

Conclusão

Mateus 26–28 conduz o leitor por um caminho que vai da Ceia à Cruz, da Cruz ao túmulo e do túmulo à missão. A trajetória de Jesus revela que o Reino de Deus passa necessariamente pelo enfrentamento das estruturas de morte, mas também revela que essas estruturas não possuem a palavra definitiva.

O Crucificado é Ressuscitado. E o Ressuscitado envia seus discípulos.

Para a Teologia Latino-Americana e para as Comunidades Eclesiais de Base, essa mensagem possui extraordinária atualidade. O Evangelho não permite separar espiritualidade e compromisso histórico, celebração e justiça, fé e transformação social. A ressurreição de Jesus proclama que Deus está comprometido com a vida.

Por isso, a missão das Comunidades Eclesiais de Base não pode limitar-se à manutenção de estruturas religiosas. É necessário sair ao encontro das periferias, ouvir os gritos dos pobres, denunciar as causas da exclusão, defender a dignidade dos vulnerabilizados e construir comunidades onde ninguém seja descartado.

Mateus termina com uma promessa e uma tarefa: “Eu estou convosco” e “Ide”. A Igreja recebe a presença de Cristo para assumir a missão de Cristo. A comunidade que celebra o Ressuscitado é chamada a tornar-se sinal de ressurreição no mundo.

Assim, diante dos crucificados de ontem e de hoje, as Comunidades Eclesiais de Base são convocadas a proclamar, com a própria vida, que a última palavra não pertence à violência, à injustiça ou à morte. A última palavra pertence ao Deus da Vida.


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