Evangelho de Mateus: o Discurso de Jesus em Parábolas (Cap. 13)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O capítulo 13 do Evangelho de Mateus constitui um dos conjuntos mais significativos de parábolas de Jesus sobre o Reino dos Céus. O evangelista reúne sete parábolas — o semeador (Mt 13,1-9), o joio e o trigo (13,24-30), o grão de mostarda (13,31-32), o fermento (13,33), o tesouro escondido (13,44), a pérola preciosa (13,45-46) e a rede lançada ao mar (13,47-50) — além das explicações de algumas delas e da conclusão sobre o escriba que sabe retirar “coisas novas e velhas” de seu tesouro (13,51-52).

Não se trata simplesmente de histórias destinadas a tornar o ensinamento de Jesus mais agradável. As parábolas são uma linguagem profundamente provocadora. Partem das experiências cotidianas de camponeses, pescadores, mulheres, trabalhadores e famílias do mundo rural da Galileia para revelar que Deus está agindo na história. Jesus fala do Reino utilizando imagens que o povo conhece: uma semente, um campo, uma colheita, uma mulher fazendo pão, um pescador lançando sua rede, um homem encontrando um tesouro.

Essa maneira de ensinar possui enorme afinidade com a experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Nelas, a Palavra de Deus não é lida como realidade distante da vida, mas como Palavra que ilumina a existência concreta do povo. A trajetória latino-americana das CEBs esteve profundamente vinculada à opção pelos pobres, à ligação entre fé e vida e à participação dos cristãos nas lutas por justiça e libertação.

A Teologia Latino-Americana ajuda-nos, portanto, a perguntar: onde estão hoje as sementes do Reino? Quem são os pequenos que fazem essa semente crescer? Quais estruturas impedem que ela produza frutos? Onde está o fermento escondido nas periferias? Que tesouros o povo pobre descobre em sua caminhada?

Lido a partir dessa perspectiva, Mateus 13 deixa de ser apenas um discurso sobre o futuro Reino de Deus. Torna-se um chamado à transformação da história.

1. O contexto de Mateus 13: Jesus fala a um povo ferido pela história

Para compreender as parábolas, é necessário recordar o contexto social, econômico, político e religioso da Palestina do primeiro século.

Jesus viveu numa sociedade marcada pela dominação romana, pela concentração de terras, pela cobrança de impostos e por profundas desigualdades. A maioria da população vivia do trabalho agrícola, da pesca e de atividades artesanais. A vida dos camponeses estava submetida a múltiplas formas de tributação e dependência.

É nesse mundo que Jesus anuncia: “O Reino dos Céus está próximo” (cf. Mt 4,17).

O Reino não deve ser reduzido a uma realidade exclusivamente espiritual. Trata-se do senhorio de Deus que confronta tudo aquilo que produz morte, opressão e exclusão. Por isso, quando Jesus fala do Reino, sua mensagem possui necessariamente consequências sociais.

A linguagem parabólica permite anunciar essa novidade sem utilizar os códigos dos poderosos. Jesus não fala como um funcionário do templo nem como um representante do Império. Ele fala a partir da vida cotidiana do povo.

É significativo que várias parábolas de Mateus 13 estejam ligadas à agricultura. O povo sabia que uma semente aparentemente insignificante podia transformar-se em uma grande colheita. Sabia também que havia solos bons e ruins, ervas daninhas, períodos de espera e riscos de perda.

Jesus transforma essa experiência em teologia. Deus está semeando. E a história humana é o campo no qual essa semente é acolhida, rejeitada, sufocada ou multiplicada.

2. A parábola do semeador: Deus confia a semente ao chão da história

Mt 13,1-9.18-23

A primeira parábola começa com uma imagem extremamente simples: “O semeador saiu para semear”.

O semeador lança a semente em diferentes lugares. Algumas caem à beira do caminho; outras em terreno pedregoso; outras entre espinhos; finalmente, algumas encontram terra boa e produzem fruto. A estrutura do relato aparece claramente em Mt 13,1-9, seguida pela interpretação nos versículos 18-23.

A parábola não apresenta inicialmente uma agricultura ideal. O semeador parece desperdiçar sementes. Ele semeia em lugares onde aparentemente não haverá resultado. Isso revela algo importante sobre a missão de Jesus: Deus não trabalha segundo a lógica da eficiência imediata. A semente é lançada abundantemente.

A comunidade cristã não pode determinar antecipadamente quem é digno de receber a Palavra. O Evangelho é oferecido a todos, especialmente àqueles que a sociedade considera sem valor.

Uma hermenêutica latino-americana

A semente pode ser compreendida como a Palavra que gera vida e libertação. O solo representa as condições concretas nas quais essa Palavra é acolhida.

Aqui surge uma pergunta pastoral fundamental: por que determinadas sementes não conseguem produzir frutos? Uma leitura individualista poderia responsabilizar exclusivamente o indivíduo: “Ele não teve fé suficiente”. A Leitura Popular da Bíblia pergunta algo diferente: quais são os espinhos que sufocam a vida do povo?

Podemos reconhecer hoje:

  • o desemprego;
  • a fome;
  • a violência;
  • o racismo;
  • a concentração de renda;
  • a exploração do trabalho;
  • a falta de moradia;
  • a destruição ambiental;
  • a violência contra mulheres e crianças;
  • a marginalização da juventude;
  • a exclusão dos povos indígenas;
  • o abandono das populações periféricas.

Essas realidades podem transformar-se em verdadeiros “espinhos” que impedem a semente da vida de crescer.

A questão pastoral não é apenas ensinar o povo a ouvir a Palavra. É também combater aquilo que sufoca a Palavra e a vida.

3. O semeador e a missão das Comunidades Eclesiais de Base

As CEBs podem ser compreendidas como pequenas parcelas de terra nas quais a Palavra é lançada, acolhida e compartilhada.

A comunidade reúne pessoas simples para rezar, refletir, celebrar e agir.

Nesse processo, a Bíblia deixa de ser livro distante e torna-se companheira da caminhada. A leitura bíblica latino-americana procura relacionar o texto com o sofrimento e as esperanças dos pobres e excluídos.

Uma comunidade que lê Mateus 13 pode perguntar: Que tipo de terreno somos nós? Mas também precisa perguntar: Que tipo de terreno estamos ajudando a construir na sociedade?

Uma comunidade cristã não pode limitar-se a dizer ao pobre: “Tenha fé”. Ela precisa trabalhar para que o pobre tenha: terra, pão, trabalho, moradia, saúde, educação, dignidade, direitos e participação.

A fé que não produz vida corre o risco de tornar-se uma semente sufocada.

4. O joio e o trigo: a paciência de Deus diante da complexidade da história

Mt 13,24-30.36-43

A segunda grande parábola apresenta um campo no qual trigo e joio crescem juntos. Os empregados querem arrancar imediatamente o joio. O proprietário, porém, responde: “Deixai-os crescer juntos até à colheita.”

O texto insiste que uma separação precipitada pode destruir também o trigo. Na própria parábola, em sua forma narrativa, encontrada em Mt 13,24-30; e posteriormente, em sua interpretação em 13,36-43.

Existe aqui uma importante crítica à lógica do julgamento precipitado. A história humana é complexa. Nem sempre conseguimos distinguir imediatamente o que é trigo e o que é joio.

Uma advertência pastoral

Essa parábola pode ser profundamente atual para uma Igreja que corre o risco de transformar diferenças em condenações. O Reino não cresce pela eliminação violenta do outro. Isso não significa relativizar a injustiça. Jesus não manda aceitar a opressão. Ao contrário, a parábola termina apontando para a vitória definitiva da justiça. Mas ela nos convida a distinguir discernimento profético de fanatismo religioso.

A luta contra a injustiça não pode transformar-se em ódio às pessoas.

A Igreja é chamada a enfrentar sistemas de pecado, estruturas de exclusão e práticas de violência, mas sempre preservando a dignidade humana.

Para as CEBs

As comunidades populares precisam ser espaços onde as pessoas possam aprender a discernir a realidade.

Isso significa identificar:

  • quem produz pobreza;
  • quais mecanismos econômicos geram exclusão;
  • quais discursos legitimam o preconceito;
  • quais interesses destroem a natureza;
  • quais práticas políticas ferem os direitos humanos.

A paciência do dono do campo não significa passividade. Significa que a comunidade deve agir com discernimento, evitando respostas simplistas diante de situações complexas.

5. O grão de mostarda: Deus começa pelos pequenos

Mt 13,31-32

O grão de mostarda é pequeno, mas pode transformar-se em algo grande. Jesus afirma que o Reino dos Céus é semelhante a essa semente.

Essa imagem possui extraordinária força para uma espiritualidade das periferias.

O Reino começa pequeno.
Começa numa casa.
Num grupo de oração.
Numa comunidade.
Numa mulher que reúne seus vizinhos.
Num trabalhador que organiza seus companheiros.
Num jovem que decide não reproduzir a violência.
Num povo indígena que defende sua terra.
Numa comunidade que luta pela água.
Num grupo de pessoas que se reúne para estudar a Bíblia.

A lógica do Reino não é a lógica dos grandes espetáculos. Deus trabalha a partir dos pequenos.

Essa é uma das grandes intuições da Teologia Latino-Americana: os pobres não são apenas destinatários da ação pastoral. São sujeitos históricos e sujeitos da evangelização. A opção pelos pobres constitui uma dimensão central da identidade eclesial latino-americana.

O pequeno grão das CEBs pode tornar-se árvore capaz de acolher muitos.

6. O fermento: a revolução silenciosa do Reino

Mt 13,33

Jesus compara o Reino ao fermento que uma mulher mistura na massa até que tudo fique levedado. A imagem é extraordinária. O fermento desaparece dentro da massa, mas transforma toda a realidade.

Aqui encontramos uma profunda espiritualidade da transformação silenciosa. Nem toda mudança acontece através de grandes acontecimentos. Às vezes, uma comunidade transforma um bairro lentamente.

Uma catequista transforma a vida de uma criança.
Uma pastoral ajuda uma família a recuperar sua dignidade.
Um grupo de mulheres cria uma rede de solidariedade.
Uma comunidade organizada conquista saneamento.
Uma associação de moradores conquista moradia.
Um grupo bíblico desperta consciência crítica.

Tudo isso pode parecer pequeno. Mas é fermento.

A mulher como protagonista

É significativo que Jesus utilize a imagem de uma mulher trabalhando a massa. Num contexto patriarcal, Jesus coloca uma atividade cotidiana feminina dentro da linguagem do Reino. Isso permite uma leitura particularmente fecunda para as comunidades populares: o Reino também cresce através das mulheres, frequentemente invisibilizadas nas estruturas formais da Igreja, embora sejam protagonistas de grande parte da vida comunitária.

Nas CEBs, muitas vezes são as mulheres que mantêm viva a oração, a celebração, a solidariedade, a catequese, a visita aos doentes e a organização comunitária. Elas são fermento do Reino.

7. O tesouro escondido: descobrir o Reino no meio do povo

Mt 13,44

Jesus fala de um homem que encontra um tesouro escondido no campo. Cheio de alegria, vende tudo o que possui e compra aquele campo.

O Reino é apresentado como algo que possui valor incomparável. Mas há outro detalhe importante: o tesouro estava escondido. Essa imagem pode ser aplicada à experiência dos pobres.

A sociedade frequentemente olha para a periferia e enxerga apenas carências. Jesus ensina a enxergar tesouros.

Existe sabedoria nas comunidades populares.
Existe solidariedade.
Existe espiritualidade.
Existe capacidade de resistência.
Existe cultura.
Existe memória.
Existe esperança.
Existe criatividade.
Existe uma extraordinária capacidade de reconstruir a vida mesmo em condições adversas.

A Teologia Latino-Americana procura reconhecer esse protagonismo. As CEBs representam justamente uma experiência na qual os pobres podem tornar-se sujeitos da própria caminhada eclesial e social.

Uma pastoral libertadora não vai à periferia apenas para levar Deus. Vai também para encontrar Deus que já está presente na vida do povo.

8. A pérola preciosa: o Reino exige decisão

Mt 13,45-46

A parábola da pérola apresenta um comerciante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, vende tudo para adquiri-la.

O Reino não é um acréscimo secundário à existência. Ele reorganiza a vida. Quem descobre o Reino não pode continuar vivendo exatamente da mesma maneira.

Por isso, a conversão cristã possui uma dimensão social. Não basta mudar sentimentos individuais. É preciso mudar práticas.

Uma comunidade que descobre o Reino precisa perguntar: Como usamos nosso dinheiro? Como tratamos os trabalhadores? Como consumimos? Como tratamos a natureza? Como acolhemos migrantes? Como nos relacionamos com pessoas em situação de rua? Como enfrentamos o racismo? Como reagimos diante da violência contra os pobres?

A descoberta da pérola transforma escolhas concretas.

9. A rede lançada ao mar: um Reino que reúne pessoas diferentes

Mt 13,47-50

A última parábola compara o Reino a uma rede que recolhe peixes de toda espécie. Depois, os pescadores fazem a separação.

A imagem é profundamente comunitária. A rede reúne. Não seleciona antecipadamente. Ela alcança diferentes pessoas.

A Igreja, portanto, não pode construir comunidades fechadas sobre si mesmas. A comunidade do Reino é aberta.

Deve acolher:

  • pobres;
  • trabalhadores;
  • migrantes;
  • indígenas;
  • quilombolas;
  • pessoas com deficiência;
  • idosos;
  • jovens;
  • crianças;
  • pessoas em situação de rua;
  • pessoas que vivem diferentes formas de exclusão social.

A rede do Reino não pode ser uma rede que aprisiona. Precisa ser uma rede que acolhe, integra e promove vida.

10. “Coisas novas e velhas”: uma Igreja capaz de aprender

Ao final do discurso, Jesus pergunta aos discípulos se compreenderam. Eles respondem afirmativamente. Então Jesus compara o discípulo do Reino a um escriba que sabe tirar do seu tesouro coisas novas e velhas (Mt 13,51-52).

Essa imagem é particularmente importante para a pastoral latino-americana.

A Igreja precisa preservar sua tradição, mas também precisa aprender.

Precisa saber escutar:

  • a Bíblia;
  • a tradição cristã;
  • os pobres;
  • os jovens;
  • as mulheres;
  • os povos originários;
  • a ciência;
  • os movimentos sociais;
  • a realidade ambiental;
  • os sinais dos tempos.

Uma Igreja que só olha para o passado pode perder a capacidade de anunciar o Evangelho no presente.

As CEBs representam uma forma de Igreja na qual a fé é construída comunitariamente a partir da relação entre Palavra e vida. Essa experiência esteve ligada à opção pelos pobres e à participação dos cristãos nas lutas sociais e políticas por libertação.

11. As parábolas e a opção preferencial pelos pobres

A opção pelos pobres não é um elemento periférico da missão cristã. Na reflexão latino-americana, ela está profundamente ligada ao próprio Deus bíblico, que escuta o clamor dos oprimidos e chama seu povo à libertação (cf. Ex 3,7-10).

Mateus 13 ajuda a perceber essa opção através de imagens.

O Reino é semente: porque Deus acredita na capacidade dos pequenos.
O Reino é fermento: porque transforma a realidade a partir de dentro.
O Reino é mostarda: porque começa com aquilo que parece insignificante.
O Reino é tesouro: porque a dignidade humana possui valor incomparável.
O Reino é pérola: porque exige uma decisão radical.
O Reino é rede: porque ninguém deve ser excluído antecipadamente.
O Reino é campo: porque a história continua sendo lugar de discernimento e transformação.

Assim, as parábolas não convidam a uma espiritualidade de fuga do mundo. Convidam a transformar o mundo segundo os valores do Reino.

12. Dimensão sociotransformadora: da parábola à ação pastoral

Uma leitura libertadora de Mateus 13 precisa conduzir da reflexão à prática. A pergunta fundamental das CEBs não pode ser apenas: “O que o texto significa?” Deve ser também: “O que este texto nos chama a fazer?”

A resposta pode assumir diferentes dimensões.

12.1. Fortalecer a Leitura Popular da Bíblia

As comunidades podem reunir-se regularmente em torno da Palavra, seguindo um caminho simples:

Vida → Bíblia → Vida.

Partir da realidade.

Escutar o texto.

Interpretar sua mensagem.

Retornar à realidade com compromisso.

Essa metodologia permite que a Bíblia dialogue com os sofrimentos e esperanças concretas do povo. A experiência latino-americana de leitura bíblica tem justamente procurado considerar a vida dos pobres e oprimidos na interpretação e recepção das Escrituras.

12.2. Identificar os “espinhos” que sufocam a vida

Cada comunidade pode realizar um verdadeiro diagnóstico pastoral de seu território:

  • Quem está passando fome?
  • Quem não possui moradia?
  • Quem está desempregado?
  • Quem sofre violência?
  • Quem é discriminado?
  • Quem está abandonado?
  • Quem não possui acesso à saúde?
  • Que famílias vivem em áreas de risco?
  • Que problemas ambientais ameaçam a comunidade?

A parábola do semeador torna-se, assim, instrumento de leitura da realidade.

12.3. Transformar a comunidade em fermento

A comunidade deve criar pequenas iniciativas concretas:

  • círculos bíblicos;
  • grupos de solidariedade;
  • campanhas de alimentos;
  • apoio a pessoas em situação de rua;
  • formação para cidadania;
  • defesa dos direitos humanos;
  • apoio às famílias vulneráveis;
  • ações de cuidado ambiental;
  • fortalecimento das pastorais sociais.

Não é necessário começar com grandes projetos. O Reino começa como mostarda.

12.4. Defender os povos marginalizados

A espiritualidade das parábolas precisa alcançar os povos historicamente excluídos: indígenas, quilombolas, camponeses, trabalhadores precarizados, migrantes, pessoas em situação de rua e populações periféricas.

A Igreja não deve falar sobre eles apenas.

Precisa caminhar com eles.

12.5. Fazer da pastoral uma presença samaritana

A comunidade deve perguntar continuamente:

Quem está caído à margem do caminho?

E, depois:

O que estamos fazendo para ajudá-lo a levantar?

A pastoral cristã não pode reduzir-se à administração sacramental. Precisa tornar-se presença concreta junto aos feridos da história.

13. Uma espiritualidade do Reino para as CEBs

Mateus 13 apresenta uma espiritualidade que pode ser resumida em sete atitudes:

Semear, mesmo quando não sabemos qual será o resultado.
Esperar, porque o Reino possui seus próprios ritmos.
Discernir, porque trigo e joio podem crescer juntos.
Começar pequeno, porque Deus age através da mostarda.
Transformar por dentro, como o fermento.
Valorizar o que está escondido, como o tesouro.
Decidir, como aquele que encontrou a pérola.

Essa espiritualidade é profundamente adequada às comunidades populares. As CEBs sabem que a transformação histórica é lenta. Sabem que muitas sementes parecem morrer. Sabem que muitas lutas exigem perseverança. Mas também sabem que aquilo que começa pequeno pode produzir frutos inesperados.

14. A parábola como pedagogia de Jesus

Há ainda uma dimensão pedagógica fundamental. Jesus não apresenta teorias abstratas. Ele ensina através da vida.

Fala de sementes porque o povo planta.
Fala de fermento porque as mulheres fazem pão.
Fala de pesca porque os discípulos conhecem o mar.
Fala de tesouro porque as pessoas sabem o valor das coisas.
Fala de pérola porque comerciantes conhecem o mercado.
Fala de rede porque pescadores conhecem o trabalho.

Jesus revela Deus a partir da experiência cotidiana dos pequenos. Essa pedagogia continua extremamente atual. Uma Igreja próxima do povo precisa aprender novamente a linguagem das parábolas.

Precisa perguntar:

Quais são as parábolas que o povo conta hoje?

O trabalhador fala da vida através do trabalho.
A mãe fala através da luta pela sobrevivência dos filhos.
O agricultor fala através da terra.
O indígena fala através da relação com o território.
A juventude fala através de sua cultura.
A mulher da periferia fala através da luta cotidiana.
O migrante fala através da travessia.
O pobre fala através da resistência.
A Igreja precisa escutar essas histórias.
Nelas também podem existir sementes do Reino.

Conclusão: o Reino está sendo semeado

Mateus 13 não é simplesmente um capítulo sobre parábolas.É uma grande catequese sobre a maneira como Deus age na história.

Deus semeia.
Deus espera.
Deus transforma.
Deus faz crescer.
Deus reúne.

E, sobretudo, Deus confia aos pequenos a missão de colaborar na construção de seu Reino.

A Teologia Latino-Americana permite perceber que essa mensagem possui uma dimensão inseparavelmente espiritual e social. A opção pelos pobres não é u

Por isso, ler Mateus 13 nas Comunidades Eclesiais de Base significa colocar os pés no chão da história.

É olhar para uma favela e procurar sementes.
É entrar numa comunidade rural e procurar sementes.
É escutar os povos indígenas e procurar sementes.
É caminhar com trabalhadores e procurar sementes.
É aproximar-se das pessoas em situação de rua e procurar sementes.
É ouvir as mulheres que sustentam suas famílias e procurar sementes.
É encontrar jovens ameaçados pela violência e procurar sementes.
É reconhecer que, mesmo em meio às contradições da história, Deus continua trabalhando silenciosamente.

A parábola do semeador recorda que nem toda semente produzirá imediatamente.
A mostarda ensina que não devemos desprezar os pequenos começos.
O fermento anuncia que mudanças profundas podem acontecer silenciosamente.
O tesouro revela que há riquezas escondidas nos lugares desprezados pela sociedade.
A pérola exige decisão.
A rede convoca à inclusão.
E o trigo e o joio ensinam o discernimento e a esperança.

Dessa maneira, as CEBs podem tornar-se verdadeiramente sementes do Reino no meio da sociedade: comunidades que rezam, mas também lutam; que celebram, mas também denunciam; que acolhem, mas também transformam; que anunciam a salvação, mas também enfrentam as estruturas que produzem sofrimento.

O Reino de Deus começa pequeno. Talvez comece justamente numa pequena comunidade reunida ao redor de uma Bíblia.

Ali, alguém lê: “Quem tem ouvidos, ouça.” E o povo responde não apenas com os ouvidos, mas com os pés.

Levanta-se.
Caminha.
Organiza-se.
Cuida.
Resiste.
Partilha.
Luta pela justiça.
Defende a vida.

E, pouco a pouco, aquilo que parecia apenas uma pequena semente começa a tornar-se árvore. É o Reino crescendo no chão da história.


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