Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Estamos na XXI Semana do Tempo Comum. Nesta Sexta-feira celebramos a Memória Litúrgica de Santo Agostino, bispo e doutor da Igreja. Na Liturgia da Palavra, os textos de 1Cor 1,17-25 e Mt 25,1-13 nos colocam diante de duas imagens fundamentais para a experiência cristã: a Cruz, lugar onde Deus manifesta uma sabedoria que contradiz os critérios dominantes, e a vigilância, atitude de quem mantém acesa a esperança enquanto aguarda a manifestação do Reino. Lidos à luz da Teologia Latino-Americana e da realidade das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos adquirem uma força profundamente sociotransformadora.
Paulo e Mateus, em contextos diferentes, questionam uma religião acomodada aos valores do mundo. O Evangelho não é apresentado como confirmação dos critérios de poder, prestígio e segurança, mas como convocação para uma vida marcada pela esperança, solidariedade, justiça e compromisso com aqueles que a sociedade marginaliza. A Cruz e a lâmpada acesa tornam-se, assim, símbolos de uma Igreja chamada a permanecer junto dos pobres e a discernir os sinais de Deus na história.
1. A sabedoria da Cruz: 1Cor 1,17-25
A Primeira Carta aos Coríntios nasce em uma comunidade marcada por divisões, disputas e diferentes formas de compreender a autoridade cristã. Paulo percebe que alguns membros da comunidade estavam avaliando os pregadores segundo critérios de prestígio, eloquência e sabedoria. Por isso, afirma que Cristo não o enviou para anunciar o Evangelho com a “sabedoria da linguagem”, para que a cruz de Cristo não fosse esvaziada.
O argumento paulino é radical: a Cruz não é um acidente secundário da missão de Jesus; ela constitui o critério a partir do qual Deus revela uma nova compreensão da realidade. Para os que se consideram sábios segundo os critérios do mundo, a cruz parece loucura; para aqueles que esperam um Messias poderoso segundo os padrões estabelecidos, ela é escândalo. Entretanto, precisamente aquilo que parece fraqueza manifesta a força de Deus.
O contexto social ajuda a compreender a força dessa afirmação. A Cruz era instrumento de execução humilhante e pública, associado ao poder imperial romano. Proclamar um crucificado como Senhor significava inverter os valores estabelecidos. Deus não se revela prioritariamente nos centros de poder, mas naquele que foi rejeitado, humilhado e condenado.
É justamente aqui que a leitura latino-americana encontra uma chave hermenêutica privilegiada. A teologia reconhece que Deus se manifesta de modo especial na história dos pobres, dos crucificados e das vítimas da injustiça. A Cruz de Cristo ilumina as cruzes concretas de povos indígenas ameaçados, trabalhadores explorados, pessoas em situação de rua, comunidades periféricas, migrantes, mulheres vítimas de violência e tantos outros que carregam os sinais de uma sociedade marcada pela desigualdade.
A “loucura” de Deus questiona a lógica segundo a qual o valor de uma pessoa depende de dinheiro, poder, escolaridade, influência ou posição social. A sabedoria da Cruz desmonta a pretensão de uma sociedade que considera “fracassados” aqueles que não conseguem competir segundo as regras impostas pelo mercado.
Nesse sentido, Paulo não está rejeitando o conhecimento ou a inteligência. O problema está em transformar a sabedoria humana em instrumento de dominação e em critério absoluto da verdade. A Cruz revela que a verdadeira sabedoria começa quando somos capazes de enxergar a realidade a partir dos pequenos e dos últimos.
Nas CEBs, essa perspectiva se concretiza na Leitura Popular da Bíblia. O texto bíblico não é separado da vida. A comunidade lê a Palavra e, simultaneamente, lê a realidade. Pergunta-se: quais são hoje os crucificados? Quem está sendo descartado? Quais estruturas produzem sofrimento? Onde estão presentes a injustiça, a violência, a fome e a exclusão?
A Cruz, portanto, não conduz à passividade. Pelo contrário, ela desperta uma espiritualidade de resistência, solidariedade e compromisso. O Deus que ressuscita o Crucificado convoca seus discípulos a não aceitar como “normal” aquilo que produz crucificados.
2. A vigilância que mantém a esperança: Mt 25,1-13
A parábola das dez virgens está inserida no grande discurso escatológico de Mateus (Mt 24–25), no qual Jesus chama seus discípulos à vigilância diante da chegada do Reino. É um texto próprio de Mateus, sem paralelo nos demais Evangelhos, e apresenta dez jovens que aguardam a chegada do noivo. Cinco são prudentes e levam óleo consigo; cinco são imprudentes e não se preparam adequadamente. Quando o noivo demora, todas adormecem. À meia-noite, porém, ouve-se o anúncio de sua chegada.
Um detalhe importante impede uma interpretação superficial: todas dormem. Portanto, o problema não está simplesmente em dormir. A diferença aparece na preparação. Quando chega o momento decisivo, umas possuem óleo para manter as lâmpadas acesas; outras não.
A palavra de Jesus — “vigiai” — não deve ser compreendida como incentivo ao medo ou como tentativa de descobrir a data do fim. A vigilância bíblica significa viver o presente com responsabilidade diante de Deus. É manter os olhos abertos para perceber a ação divina e permanecer disponível para participar dela.
A parábola fala de espera, mas não de uma espera passiva. O Reino exige preparação. A esperança cristã não é fuga do mundo; é força para transformá-lo. A pesquisa exegética contemporânea reconhece a complexidade do texto e sua riqueza interpretativa, inclusive quanto ao gênero literário e ao simbolismo de seus personagens.
Para as CEBs, a imagem das lâmpadas pode ser interpretada como símbolo da esperança organizada. Uma comunidade que mantém a lâmpada acesa é aquela que não permite que a realidade de pobreza e exclusão apague a esperança. Mas também não confunde esperança com acomodação. Ela transforma a fé em participação, organização comunitária e compromisso social.
A vigilância cristã significa perceber, por exemplo, quando uma família está ameaçada de perder sua moradia; quando trabalhadores estão submetidos à exploração; quando comunidades indígenas têm seus territórios ameaçados; quando uma mulher sofre violência; quando jovens das periferias são vítimas da violência; quando pessoas pobres são tratadas como descartáveis. Vigiar é não passar indiferente diante dessas realidades.
Nesse sentido, a parábola dialoga profundamente com a espiritualidade das CEBs: a fé precisa manter acesa a capacidade de discernir, organizar-se e agir.
3. A sabedoria dos pobres e a esperança organizada
Os dois textos convergem em uma perspectiva profundamente evangélica. Em 1Coríntios, Deus manifesta sua sabedoria naquilo que o mundo considera fraco e insignificante. Em Mateus, o Reino exige uma comunidade preparada, vigilante e capaz de manter acesa sua luz.
A teologia ajuda a perceber que essas duas imagens possuem consequências sociais. A Cruz questiona as estruturas que produzem sofrimento; a vigilância impede que a comunidade se acomode diante delas.
As CEBs podem ser compreendidas justamente como espaços onde essas duas dimensões se encontram: contemplação da Cruz e compromisso com a transformação da realidade. A comunidade reúne-se para ouvir a Palavra, interpretar a vida e buscar caminhos concretos de ação. A Bíblia deixa de ser apenas objeto de estudo e torna-se Palavra que interpela, consola, denuncia e mobiliza.
A “sabedoria de Deus” é, portanto, incompatível com uma Igreja que procura apenas prestígio, poder ou reconhecimento social. Uma Igreja inspirada pela Cruz precisa estar próxima dos crucificados da história. E uma Igreja vigilante precisa discernir onde Deus está chamando seus discípulos a agir.
4. Dimensão sociotransformadora e ação pastoral
A partir desses textos, a ação pastoral pode assumir algumas prioridades concretas:
Primeiro, fortalecer as CEBs como espaços de escuta da Palavra e da realidade. A leitura bíblica deve partir das perguntas concretas do povo e retornar à vida como força de transformação.
Segundo, desenvolver uma pastoral da presença junto aos pobres e excluídos. Não basta falar sobre os pobres; é necessário caminhar com eles, defender sua dignidade e reconhecer sua capacidade de protagonismo.
Terceiro, formar comunidades capazes de identificar as novas formas de crucificação presentes na sociedade: fome, racismo, violência, desemprego, precarização do trabalho, migração forçada, destruição ambiental, violência contra mulheres, abandono de idosos e exclusão das juventudes periféricas.
Quarto, cultivar uma espiritualidade da esperança ativa. A lâmpada acesa não representa uma fé individualista, mas uma comunidade que permanece desperta diante da realidade e se prepara para responder aos desafios do Reino.
Quinto, assumir a defesa da vida como critério pastoral. A Cruz de Cristo não permite que a Igreja permaneça indiferente diante daqueles cuja vida é ameaçada. A fé cristã torna-se concreta quando a comunidade se compromete com justiça, dignidade, fraternidade e paz.
Conclusão
1Cor 1,17-25 e Mt 25,1-13 apresentam duas dimensões inseparáveis do discipulado cristão: assumir a sabedoria da cruz e manter acesa a lâmpada da esperança. A Cruz ensina a Igreja a olhar a história a partir dos pequenos, dos pobres e dos crucificados. A parábola das dez virgens ensina que esperar o Reino significa permanecer vigilante e preparado.
Para a Teologia Latino-Americana e para as CEBs, essa mensagem possui enorme atualidade. A Igreja não pode ser espectadora diante das injustiças de seu tempo. A sabedoria do Evangelho chama a romper com os critérios de uma sociedade que privilegia poder, lucro e prestígio. A vigilância evangélica convoca a reconhecer os sinais dos tempos e a agir antes que a indiferença transforme o sofrimento em algo normal.
A verdadeira lâmpada cristã permanece acesa quando a comunidade se reúne em torno da Palavra, reconhece os crucificados de seu tempo e transforma a fé em compromisso. A Cruz revela de que lado Deus está; a lâmpada acesa revela como seus discípulos devem permanecer na história: vigilantes, solidários e comprometidos com a vida.
Assim, a missão das CEBs continua sendo a de manter viva uma esperança que não aliena, mas transforma; uma fé que não se fecha no templo, mas se faz presença junto aos pobres; uma Igreja que, seguindo o Crucificado-Ressuscitado, assume como sua a causa daqueles que a sociedade insiste em deixar à margem.
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