Reflexão para Sexta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum – (Mateus 10,16-23)

Mateus 10,16-23: A missão profética em tempos de perseguição

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O Evangelho de Mateus apresenta, no capítulo 10, um dos mais importantes discursos missionários de Jesus. Depois de chamar os doze discípulos, conceder-lhes autoridade para curar e libertar (Mt 10,1-15), Jesus passa a adverti-los sobre as dificuldades que encontrarão pelo caminho. A missão do Reino não será uma caminhada de triunfos, mas um testemunho marcado pela oposição dos poderes políticos, religiosos e econômicos.

Na perspectiva da Teologia Latino-americana, esse texto adquire enorme relevância porque revela que anunciar o Reino implica confrontar estruturas de pecado que produzem pobreza, violência e exclusão. Não existe discipulado sem conflito quando o Evangelho é vivido em sua radicalidade.

A Leitura Popular da Bíblia parte da vida do povo. Antes de perguntar “o que o texto dizia?”, pergunta também “o que esse texto diz hoje às comunidades que sofrem?”. Assim, Mateus 10,16-23 deixa de ser apenas memória histórica para tornar-se palavra viva dirigida às comunidades perseguidas por defenderem os pobres.

O contexto histórico do Evangelho de Mateus

O Evangelho foi escrito aproximadamente entre os anos 80 e 90 d.C., quando as comunidades cristãs enfrentavam profundas dificuldades.

Depois da destruição de Jerusalém em 70 d.C., houve intensa reorganização do judaísmo em torno das sinagogas farisaicas. Muitos cristãos provenientes do judaísmo foram expulsos dessas comunidades por reconhecerem Jesus como Messias.

Ao mesmo tempo, o Império Romano via qualquer movimento religioso autônomo como potencial ameaça à ordem imperial. Assim, os seguidores de Jesus experimentavam dupla perseguição: religiosa e política.

Mateus escreve para fortalecer comunidades desanimadas, mostrando que aquilo que sofrem já havia sido anunciado pelo próprio Jesus.

“Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos”

Jesus inicia afirmando:

“Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos.”

A imagem é extremamente forte. Na Palestina do século I, uma ovelha diante de lobos não possuía qualquer possibilidade de defesa.

Jesus não promete poder militar.
Não promete riqueza.
Não promete segurança institucional.
Promete apenas sua presença.

Na Teologia Latino-americana, essa imagem representa a Igreja pobre, servidora e missionária.

Não é uma Igreja que domina.
É uma Igreja que serve.
Não impõe.
Testemunha.

A missão nasce da fragilidade.

“Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas”

Essas duas imagens parecem contraditórias. A serpente simboliza inteligência. A pomba simboliza inocência. Jesus une ambas.

A missão cristã exige discernimento político sem perder a pureza do coração.

A prudência não significa covardia. Também não significa acomodação.

Na América Latina, muitos agentes pastorais confundiram, ao longo da história, prudência com silêncio diante das injustiças.

Jesus propõe exatamente o contrário. Ser prudente é encontrar formas eficazes de anunciar a verdade. A simplicidade impede que o missionário reproduza os mecanismos de poder do mundo.

“Acautelai-vos dos homens”

Jesus não idealiza a sociedade. Ele conhece profundamente os mecanismos de violência. Os discípulos serão entregues aos tribunais. Serão açoitados nas sinagogas. Serão levados diante de governadores e reis. Esses elementos revelam a dimensão política do discipulado.

A perseguição não ocorre por causa de questões privadas. Ela acontece porque o Reino denuncia sistemas injustos.

Na América Latina, basta recordar:

  • Dom Oscar Romero;
  • Irmã Dorothy Stang;
  • Padre Josimo;
  • Padre Ezequiel Ramin;
  • Santo Óscar Arnulfo Romero;
  • tantos catequistas, indígenas, quilombolas, agentes da pastoral da terra e lideranças comunitárias assassinados por defenderem a vida.

Todos eles viveram literalmente Mateus 10.

“Não sereis vós que falareis”

Jesus promete o Espírito. Não promete discursos preparados. Promete presença.

Na tradição bíblica, o Espírito sempre aparece quando os pobres enfrentam os poderosos. O Espírito não elimina o sofrimento. Concede coragem. Essa promessa possui enorme importância pastoral.

As pequenas comunidades muitas vezes acreditam não possuir formação suficiente para evangelizar. Jesus afirma exatamente o contrário. A missão não depende primeiro dos diplomas. Depende da abertura ao Espírito.

A divisão dentro das famílias

Jesus afirma:

“O irmão entregará à morte o próprio irmão.”

Essa frase precisa ser compreendida dentro do contexto histórico. Muitos cristãos eram expulsos da própria família ao aderirem ao movimento de Jesus.

Hoje essa realidade continua presente. Muitas pessoas sofrem rejeição por defenderem direitos humanos, justiça social, igualdade racial, direitos indígenas, proteção ambiental e a dignidade dos pobres.

O Evangelho recorda que a fidelidade ao Reino pode provocar rupturas dolorosas.

“Quem perseverar até o fim será salvo”

Essa não é uma espiritualidade da resignação. Perseverar significa continuar acreditando na possibilidade de transformação da história.

Na Teologia da Libertação, esperança nunca significa esperar passivamente. Esperança significa construir. A perseverança é compromisso cotidiano com a justiça.

A dimensão sociotransformadora do texto

Mateus 10 denuncia toda tentativa de transformar o cristianismo em religião confortável. Jesus prepara discípulos para enfrentar estruturas de opressão.

Na realidade latino-americana, essas estruturas aparecem sob diversas formas:

  • concentração de renda;
  • racismo estrutural;
  • violência urbana;
  • feminicídio;
  • destruição ambiental;
  • criminalização dos movimentos populares;
  • genocídio da juventude negra;
  • violência contra os povos indígenas;
  • migração forçada;
  • exploração do trabalho.

Evangelizar significa também denunciar essas realidades. Não porque a Igreja faça política partidária. Mas porque anuncia um Reino onde toda vida possui dignidade.

Uma leitura popular do texto

Quando uma comunidade lê Mateus 10 reunida numa periferia urbana, numa ocupação, numa aldeia indígena, num assentamento rural ou numa comunidade ribeirinha, logo identifica seus “lobos”.

Os lobos possuem nome.
São todas as forças que produzem morte.

Ao mesmo tempo, a comunidade reconhece que continua viva.

Continua resistindo.
Continua celebrando.
Continua partilhando o pão.
Essa resistência é sinal da presença do Reino.

A Leitura Popular da Bíblia permite que os pobres descubram que sua história faz parte da história da salvação. Eles deixam de ser apenas destinatários da evangelização.

Tornam-se sujeitos da missão.

Desafios pastorais para a Igreja de hoje

Mateus 10 interpela profundamente a ação pastoral. A missão da Igreja não pode reduzir-se à administração sacramental ou à manutenção de estruturas.

É necessário formar comunidades missionárias comprometidas com a transformação da realidade. Isso implica fortalecer as Comunidades Eclesiais de Base, promover círculos bíblicos que unam Palavra e vida, apoiar pastorais sociais que atuem junto aos pobres e excluídos, incentivar o protagonismo de mulheres, jovens, povos indígenas, comunidades negras e pessoas com deficiência, bem como cultivar uma espiritualidade da esperança, da não violência ativa e da resistência evangélica.

A evangelização torna-se autêntica quando caminha ao lado daqueles que mais sofrem e assume sua causa como expressão concreta do Reino de Deus.

Conclusão

Mateus 10,16-23 continua sendo um dos textos mais proféticos do Novo Testamento. Jesus não ilude seus discípulos com promessas de sucesso, mas os convida a uma missão marcada pela vulnerabilidade, pela coragem e pela confiança no Espírito Santo. A perseguição não é buscada, mas pode tornar-se consequência da fidelidade ao Evangelho quando este questiona as estruturas que geram exclusão e morte.

À luz da Teologia Latino-americana, a missão da Igreja é inseparável da opção preferencial pelos pobres. A Leitura Popular da Bíblia recorda que os primeiros destinatários da Palavra são aqueles cuja vida é atravessada pela dor, pela resistência e pela esperança. Por isso, anunciar o Reino hoje significa caminhar com os pobres, escutar seu clamor, defender sua dignidade e colaborar na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

Assim, o discípulo missionário permanece como “ovelha no meio dos lobos”, não porque aceite passivamente a violência, mas porque confia que a força do Espírito, vivida na comunhão e no compromisso com os crucificados da história, é capaz de fazer germinar sinais do Reino de Deus. A verdadeira vitória cristã não está na conquista do poder, mas na fidelidade perseverante ao projeto de Jesus, que transforma a história por meio do amor, da justiça e da esperança.


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