Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Na Liturgia de hoje, os textos de 1Coríntios 1,1-9 e Mateus 24,42-51 oferecem duas perspectivas profundamente complementares para pensar a identidade e a missão da Igreja: de um lado, a comunidade que nasce da graça, recebe diferentes dons e é chamada à comunhão em Cristo; de outro, a comunidade que deve permanecer vigilante, compreendendo que a fidelidade ao Evangelho se verifica concretamente no modo como cuida das pessoas que lhe foram confiadas. Lidos à luz da Teologia Latino-Americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos revelam uma Igreja chamada a superar toda forma de autorreferencialidade e a colocar seus dons, estruturas e ministérios a serviço da vida, especialmente da vida ameaçada dos pobres, marginalizados e excluídos.
A leitura latino-americana da Bíblia parte da convicção de que a Palavra de Deus não é uma realidade abstrata, separada da história. Ela ilumina a realidade e, simultaneamente, interpela a comunidade a transformá-la. Por isso, a pergunta fundamental não é apenas “o que o texto significava no passado?”, mas também: que realidade humana ele denuncia, que esperança anuncia e que prática pastoral exige de nós hoje?
1. 1Cor 1,1-9: uma comunidade chamada pela graça
A Primeira Carta aos Coríntios é dirigida a uma comunidade situada em uma cidade importante do mundo greco-romano. Corinto era marcada pela diversidade cultural, pela mobilidade social e pelas desigualdades próprias da sociedade imperial. A comunidade cristã refletia, em certa medida, as tensões daquele ambiente. Ao longo da carta, Paulo enfrentará divisões, disputas de prestígio, conflitos relacionados aos dons espirituais e problemas sociais que atingiam a própria celebração eucarística.
Por isso, é significativo que Paulo inicie a carta não com uma condenação, mas com uma ação de graças. Ele recorda que a Igreja de Corinto foi alcançada pela graça de Deus e que essa graça se manifesta na riqueza de dons recebidos pela comunidade. A perícope apresenta a graça como fundamento da existência cristã e destaca que os dons não são propriedade individual, mas expressão da ação de Deus no corpo comunitário.
Paulo chama os cristãos de Corinto de “santificados em Cristo Jesus” e “chamados a ser santos”. A santidade, portanto, não aparece como privilégio de uma elite religiosa. É uma vocação comunitária. A Igreja pertence a Deus porque foi convocada por sua graça. Consequentemente, nenhum grupo pode considerar-se proprietário da comunidade, da missão ou dos dons do Espírito.
O v. 5 afirma que a comunidade foi enriquecida “em toda palavra e em todo conhecimento”. O v. 7 acrescenta que não lhe falta nenhum dom. Entretanto, o desenvolvimento posterior da carta demonstrará que possuir dons não significa automaticamente viver de maneira evangélica. Uma comunidade pode ser rica em carismas e pobre em fraternidade; pode possuir conhecimento religioso e, ao mesmo tempo, reproduzir relações de poder, exclusão e desigualdade.
Aqui se encontra uma importante chave para as CEBs. A experiência das comunidades populares ensina que todo batizado é sujeito da missão. A Palavra proclamada na roda de conversa, na celebração, na visita aos doentes, na defesa da dignidade humana, na organização comunitária e na solidariedade com os pobres manifesta que os dons recebidos não existem para alimentar protagonismos individuais, mas para edificar a comunidade e servir à vida.
A graça, portanto, possui uma dimensão social. Não é uma realidade intimista. Receber a graça significa assumir uma responsabilidade histórica. O dom de Deus transforma a pessoa em sujeito de comunhão e de serviço.
Essa perspectiva converge profundamente com a Teologia Latino-Americana, que compreende a Igreja a partir da opção preferencial pelos pobres. Uma Igreja que recebeu gratuitamente a graça não pode fechar-se em seus próprios interesses enquanto pessoas são descartadas, famílias são expulsas de suas terras, trabalhadores são explorados, populações indígenas são ameaçadas, migrantes são discriminados e moradores das periferias convivem diariamente com a violência.
A ação de graças de Paulo transforma-se, assim, em uma pergunta dirigida às comunidades de hoje: quais dons Deus colocou entre nós e a serviço de quem os estamos colocando?
2. Mt 24,42-51: vigiar é servir
O Evangelho de Mateus 24,42-51 encontra-se no chamado discurso escatológico de Jesus. O texto apresenta a necessidade de permanecer vigilante diante da vinda do Senhor. Entretanto, a vigilância cristã não significa viver dominado pelo medo do fim do mundo. A parábola esclarece o conteúdo dessa vigilância: o servo fiel é aquele que, enquanto o senhor está ausente, permanece cuidando da casa e dando alimento aos outros no tempo devido.
Esse detalhe é fundamental. Jesus não define a fidelidade do servo por sua capacidade de realizar discursos religiosos, conservar aparências ou exercer autoridade. A fidelidade é medida pela maneira como ele trata aqueles que estão sob sua responsabilidade.
Há, portanto, uma contraposição entre dois modelos de poder. O primeiro é o do servo fiel e prudente, que entende a autoridade como serviço e garante o sustento dos outros. O segundo é o do servo mau, que transforma a autoridade em instrumento de violência, exploração e satisfação pessoal. Quando acredita que o senhor demora, ele começa a maltratar seus companheiros, alimentar-se excessivamente e viver como se não precisasse prestar contas de sua conduta.
A advertência de Jesus possui extraordinária força para a realidade eclesial. Toda autoridade cristã é provisória e responsável diante de Deus. Ninguém recebe uma função na Igreja para dominar os demais. Ministério, coordenação, liderança comunitária, presbiterato, episcopado e qualquer serviço eclesial somente encontram legitimidade quando produzem cuidado, comunhão e vida.
Nesse sentido, vigiar é cuidar. A vigilância cristã possui rosto concreto: perceber quem está passando fome, quem perdeu o emprego, quem sofre violência, quem vive sozinho, quem foi abandonado, quem é vítima de preconceito, quem teve sua terra tomada, quem não encontra espaço na sociedade e quem deixou de sentir-se acolhido pela própria comunidade cristã.
O texto de Mateus desmonta, portanto, uma compreensão meramente espiritualista da escatologia. Esperar o Senhor não significa abandonar a história. Ao contrário, significa assumir responsabilidade por ela. Aquele que espera verdadeiramente o Cristo deve ser encontrado servindo.
3. As CEBs como lugar de vigilância evangélica
Quando colocamos os dois textos em diálogo, percebemos uma mensagem central: a graça recebida se transforma em serviço vigilante.
Em 1Coríntios, a comunidade recebe dons abundantes. Em Mateus, o servo recebe uma responsabilidade: cuidar dos demais e garantir-lhes o alimento. Nos dois casos, aquilo que é recebido de Deus não pode ser privatizado. O dom gera responsabilidade; a graça gera missão; a autoridade gera serviço.
Essa perspectiva encontra nas CEBs uma expressão pastoral privilegiada. A comunidade reunida em torno da Palavra aprende a olhar a realidade com os olhos da fé e a perguntar onde Deus está presente e onde sua imagem está sendo ferida. A leitura comunitária da Bíblia permite perceber que os “pequenos” e vulneráveis não são objeto da ação pastoral, mas sujeitos da evangelização e da transformação social.
Uma CEB verdadeiramente evangélica não pode limitar-se à manutenção de atividades religiosas. Ela precisa ser casa de acolhida, espaço de escuta, lugar de organização popular, escola de cidadania, comunidade de solidariedade e testemunho profético.
Nesse horizonte, a Palavra de Deus deve conduzir a ações concretas: acompanhar famílias em situação de pobreza; fortalecer iniciativas de economia solidária; defender o direito à moradia e ao trabalho digno; proteger crianças, idosos e pessoas vulneráveis; combater o racismo e toda forma de discriminação; apoiar povos indígenas e comunidades tradicionais na defesa de seus territórios; promover a ecologia integral; visitar os enfermos e encarcerados; e construir redes de solidariedade nas periferias urbanas e rurais.
A vigilância de que fala Mateus também exige discernimento diante das estruturas que produzem exclusão. Não basta socorrer individualmente aquele que sofre se não perguntamos por que determinadas pessoas são continuamente empurradas para a pobreza e outras acumulam privilégios. A caridade cristã precisa dialogar com a justiça. A misericórdia não substitui a transformação das estruturas injustas; ao contrário, conduz a ela.
4. Uma Igreja pobre e com os pobres
A Teologia Latino-Americana recorda que Deus se revela de maneira particularmente intensa na história dos pobres e daqueles cuja dignidade é ameaçada. Isso não significa idealizar a pobreza, mas reconhecer que uma Igreja fiel ao Evangelho precisa colocar-se ao lado daqueles que sofrem as consequências de sistemas econômicos, sociais e culturais que produzem descarte e desigualdade.
1Cor 1,1-9 lembra que a comunidade existe pela graça. Mt 24,42-51 recorda que essa comunidade será julgada pela maneira como exerce sua responsabilidade. A questão decisiva, portanto, não é quantos dons possuímos, quantas estruturas mantemos ou quanto prestígio acumulamos, mas se esses dons e estruturas estão efetivamente a serviço da vida.
As CEBs podem ser um sinal profético dessa Igreja. Quando uma pequena comunidade se reúne para ouvir a Palavra e, depois, visita uma família necessitada; quando se organiza para defender uma comunidade ameaçada; quando acolhe um migrante; quando luta pela dignidade dos trabalhadores; quando protege uma criança; quando denuncia a violência; quando cuida da Casa Comum, ela transforma a Bíblia em prática histórica.
É nesse sentido que a vigilância cristã se torna esperança ativa. O cristão não permanece acordado esperando passivamente o fim. Permanece acordado porque há vidas que precisam ser cuidadas.
Conclusão
1Cor 1,1-9 e Mt 24,42-51 apresentam uma verdadeira espiritualidade comunitária do serviço. A comunidade de Corinto recebe a graça e os dons de Deus; o servo de Mateus recebe a responsabilidade de cuidar da casa. Em ambos os textos, aquilo que vem de Deus deve ser colocado a serviço dos outros.
Para as Comunidades Eclesiais de Base, essa mensagem permanece atual. A Igreja é chamada a reconhecer os dons existentes no povo de Deus, especialmente entre os pobres, e a transformar esses dons em participação, comunhão e compromisso social. A vigilância cristã consiste em manter os olhos abertos diante da realidade e o coração disponível para servir.
O Senhor pode chegar “à hora em que não pensamos”. Mas Mateus indica onde ele poderá ser reconhecido: naquele que necessita de cuidado, alimento, justiça, dignidade e esperança. Assim, esperar o Cristo é encontrá-lo já presente nos pequenos e assumir, com eles, a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.
A Igreja que nasce da graça não pode ser indiferente. A comunidade que permanece vigilante não pode permanecer imóvel. E a CEB que escuta a Palavra é chamada a transformar a Palavra em compromisso com a vida. Afinal, o verdadeiro discípulo é aquele que, quando o Senhor vier, for encontrado cuidando dos seus irmãos e irmãs.
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