Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O capítulo 10 do Evangelho de Mateus constitui o chamado Discurso Missionário ou Discurso Apostólico de Jesus. Depois de apresentar Jesus anunciando o Reino de Deus, ensinando, curando e aproximando-se das multidões, Mateus mostra o Mestre formando uma comunidade de discípulos e enviando-a para continuar sua missão. O capítulo reúne orientações sobre o conteúdo da missão, o modo de realizá-la, as dificuldades encontradas, as perseguições e a necessidade de perseverança. Estudos exegéticos identificam em Mt 10,1-42 um grande conjunto de instruções missionárias, organizado em torno do envio, das exigências do caminho e da acolhida dos missionários.
Lido a partir da Teologia Latino-Americana, esse capítulo adquire uma força particularmente atual. A missão não aparece como conquista religiosa, expansão institucional ou transmissão abstrata de uma doutrina. Ela nasce da compaixão de Jesus diante de um povo cansado, aflito e desorientado: “Vendo as multidões, Jesus teve compaixão delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36).
É dessa compaixão que nasce o envio.
Nesse sentido, Mateus 10 oferece uma chave fundamental para compreender a missão das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): uma Igreja que não existe para si mesma, mas que é enviada para estar no meio do povo, escutar seus clamores, anunciar o Reino, cuidar dos feridos e participar da transformação das estruturas que produzem sofrimento.
As CEBs latino-americanas nasceram precisamente nesse horizonte de renovação eclesial, especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960, assumindo a ligação entre fé e vida e o compromisso com os pobres e excluídos. Medellín reconheceu a comunidade eclesial de base como célula fundamental da estrutura eclesial, associando sua missão à promoção humana e ao desenvolvimento.
1. A missão nasce da compaixão diante de um povo ferido
Mt 9,35-38
Embora o Discurso Missionário propriamente dito comece em Mt 10,1, sua compreensão exige voltar aos versículos finais do capítulo 9. Mateus apresenta Jesus percorrendo cidades e aldeias, ensinando, proclamando o Evangelho do Reino e curando doenças e enfermidades.
Há aqui uma síntese da missão de Jesus: palavra, anúncio e ação libertadora.
Jesus não encontra uma realidade neutra. Ele encontra multidões “cansadas e abatidas”. A expressão revela uma situação de vulnerabilidade social, religiosa e humana. O povo está como ovelha sem pastor. A imagem remete à tradição profética de Israel, especialmente à crítica de Ezequiel 34 contra os pastores que abandonaram o rebanho para cuidar de seus próprios interesses.
A missão, portanto, não nasce de uma estratégia institucional. Nasce da compaixão diante da realidade concreta. Essa perspectiva é profundamente próxima da metodologia latino-americana: ver, julgar e agir. Antes de falar, o discípulo precisa olhar. Antes de elaborar projetos, precisa aproximar-se da vida do povo.
As CEBs encontram aqui uma inspiração fundamental. A comunidade missionária não começa perguntando: “Como podemos aumentar nossas atividades?”. Começa perguntando: “Quem está sofrendo ao nosso redor?”
Quem são hoje as pessoas cansadas e abatidas?
São os desempregados, trabalhadores submetidos à exploração, moradores das periferias, pessoas em situação de rua, migrantes, refugiados, povos indígenas ameaçados, comunidades quilombolas, mulheres vítimas de violência, idosos abandonados, jovens submetidos à violência, pessoas discriminadas e todos aqueles que vivem à margem das estruturas de poder.
A missão começa quando a Igreja permite que o sofrimento dos pobres entre em seu coração.
2. Jesus chama os Doze e lhes confere autoridade
Mt 10,1-4
Mateus afirma que Jesus “chamou os seus doze discípulos e deu-lhes autoridade sobre os espíritos impuros, para expulsá-los e curar toda doença e enfermidade” (Mt 10,1).
O verbo “chamar” é decisivo. A missão não é iniciativa individual. O missionário não se autoproclama. Ele é chamado para participar da missão de Jesus.
Além disso, os discípulos recebem autoridade não para dominar pessoas, mas para libertá-las.
A autoridade de Jesus possui uma natureza diferente daquela exercida pelos poderes do mundo. Não é autoridade para controlar, excluir ou submeter. É autoridade para restaurar a vida.
Essa distinção é essencial para uma Igreja inserida na realidade latino-americana. O poder cristão somente é evangélico quando se transforma em serviço à vida.
A lista dos Doze também é significativa. Mateus apresenta homens com histórias e perfis diferentes. Entre eles está Pedro, mas também Judas Iscariotes. A comunidade apostólica não é composta por pessoas perfeitas.
Isso oferece uma palavra importante às CEBs: a missão não depende da perfeição de seus agentes. Deus trabalha através de pessoas concretas, com limitações, contradições e fragilidades.
A comunidade missionária não é uma elite espiritual. É povo a caminho.
3. “Ide às ovelhas perdidas”
Mt 10,5-6
Jesus orienta inicialmente os Doze: “Não tomeis o caminho dos gentios, nem entreis na cidade dos samaritanos. Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10,5-6).
Esse texto precisa ser contextualizado. Não significa que Mateus defenda uma missão permanentemente fechada aos outros povos. O próprio Evangelho terminará com o mandato de fazer discípulos “de todas as nações” (Mt 28,19).
A restrição pertence ao momento específico da missão de Jesus e à situação histórica da comunidade de Mateus.
O ponto fundamental está na expressão “ovelhas perdidas”. A missão dirige-se prioritariamente aos que estão abandonados.
Essa lógica atravessa toda a Bíblia. Deus escuta o clamor dos escravizados no Egito; os profetas denunciam os pastores que exploram o rebanho; Jesus aproxima-se dos doentes, pobres, pecadores e marginalizados.
A Teologia Latino-Americana reconhece nessa dinâmica um fundamento da opção pelos pobres. Essa opção não significa desprezo pelos ricos, mas reconhecimento de que Deus toma partido da vida ameaçada e chama sua Igreja a fazer o mesmo. A opção pelos pobres ocupa lugar central na tradição pastoral latino-americana, especialmente desde Medellín, Puebla e Aparecida.
Para as CEBs, isso significa que o território missionário não pode ser definido apenas pela geografia. Ele é definido pelas situações de abandono.
A comunidade precisa perguntar: Quem são as “ovelhas perdidas” de nosso bairro?
4. O conteúdo da missão: anunciar o Reino e curar
Mt 10,7-8
Jesus é explícito: “Ide, proclamai: o Reino dos Céus está próximo.” A missão possui um conteúdo: o Reino de Deus.
O Reino não é simplesmente uma realidade futura. É a manifestação histórica da vontade de Deus: vida, justiça, fraternidade, dignidade, reconciliação e libertação. Por isso, o anúncio do Reino vem acompanhado de ações concretas: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios”. Não existe separação entre evangelização e cuidado com a vida.
A missão não consiste simplesmente em convencer pessoas a participar de uma religião. O discípulo é enviado para restaurar a vida ameaçada. Aqui está uma das maiores contribuições de Mateus 10 para uma pastoral sociotransformadora.
Evangelizar significa anunciar que Deus deseja uma sociedade na qual ninguém seja descartado. Significa combater as forças que adoecem a sociedade: fome, miséria, violência, racismo, preconceito, exploração do trabalho, destruição ambiental, concentração de riquezas, abandono dos pobres e violação dos direitos humanos.
A missão das CEBs, portanto, não pode limitar-se ao espaço litúrgico. A celebração deve conduzir à transformação da vida. Eucaristia e compromisso social não são realidades concorrentes.
A mesa do altar deve conduzir à mesa da fraternidade.
5. “De graça recebestes, de graça dai”
Mt 10,8
Esta pequena frase contém uma verdadeira teologia da missão: “De graça recebestes, de graça dai.” O missionário não transforma o Evangelho em mercadoria.
Jesus rejeita uma lógica religiosa baseada na comercialização da graça. A missão é dom recebido e dom compartilhado.
Essa palavra possui enorme atualidade numa sociedade em que também a religião pode ser submetida à lógica do mercado.
O Evangelho não pode ser vendido. A bênção não pode ser transformada em produto. A dor das pessoas não pode ser explorada economicamente. A fé não pode ser instrumentalizada para enriquecimento ou poder. A missão cristã deve ser marcada pela gratuidade.
Essa gratuidade é particularmente importante para as CEBs, nas quais a missão frequentemente se realiza por meio de lideranças comunitárias, agentes pastorais, catequistas, ministros, animadores e pessoas que colocam seus dons a serviço do povo.
A comunidade torna-se missionária quando compreende que seus carismas não são propriedades pessoais, mas dons para a vida do povo.
6. Uma missão sem acúmulo
Mt 10,9-10
Jesus continua: “Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos.” A radicalidade dessa orientação é impressionante.
O missionário não deve carregar consigo os sinais de poder e riqueza. Sua força não está na segurança econômica, na ostentação ou na influência social.
Isso não significa romantizar a pobreza ou defender a miséria. A pobreza evangélica não é a glorificação da privação. É a recusa de transformar os bens em instrumentos de dominação.
Na perspectiva latino-americana, essa passagem questiona profundamente uma Igreja excessivamente preocupada com segurança institucional enquanto milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar, habitacional e econômica.
A pergunta de Mateus 10 é incômoda: Como anunciar um Reino destinado aos pobres quando a própria Igreja se torna distante dos pobres?
A missão exige proximidade. O missionário precisa caminhar com o povo.
7. A casa, a hospitalidade e a missão popular
Mt 10,11-15
Jesus orienta os discípulos a entrar nas casas, permanecer nelas e estabelecer relações de paz. Aqui encontramos uma dimensão muito próxima da experiência das CEBs: a Igreja que acontece nas casas. Antes de ser uma grande estrutura, a Igreja é comunidade reunida em torno da Palavra, da fraternidade e da vida.
O missionário não chega como proprietário da verdade. Ele entra na casa do outro. Isso exige escuta. A missão começa com relacionamento.
A hospitalidade possui também uma dimensão teológica: acolher o enviado é acolher aquele que o enviou. No final do discurso, Mateus retomará essa lógica: “Quem vos recebe, a mim recebe” (Mt 10,40).
As CEBs podem redescobrir aqui uma poderosa espiritualidade missionária: visitar as casas, conhecer as famílias, ouvir suas histórias, rezar com elas e participar de suas lutas.
A missão não começa no templo. Muitas vezes começa na cozinha de uma casa simples.
8. “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos”
Mt 10,16-23
A partir do versículo 16, o discurso ganha uma tonalidade mais dura. Jesus não esconde os riscos da missão: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos.”
A missão não será fácil. O discípulo encontrará resistência, perseguição e incompreensão. O Evangelho não promete uma caminhada sem conflitos. Isso é particularmente importante para uma leitura latino-americana.
Quando a Igreja se coloca ao lado dos pobres, necessariamente entra em contato com interesses econômicos e políticos que se beneficiam da exclusão.
- A defesa dos povos indígenas pode confrontar interesses fundiários.
- A defesa dos trabalhadores pode confrontar mecanismos de exploração.
- A defesa da Amazônia pode confrontar interesses econômicos predatórios.
- A denúncia da violência pode incomodar aqueles que lucram com ela.
- A defesa dos pobres pode incomodar aqueles que preferem uma Igreja silenciosa.
A missão cristã não procura o conflito por si mesmo. Mas também não pode abandonar a verdade por medo do conflito.
9. “Não tenhais medo”
Mt 10,24-33
Três vezes aparece no capítulo a insistência para que os discípulos não tenham medo. O medo é um dos mecanismos mais poderosos de conservação das injustiças.
- Pessoas amedrontadas deixam de denunciar.
- Comunidades amedrontadas deixam de agir.
- Igrejas amedrontadas tornam-se silenciosas.
Por isso, a palavra de Jesus possui uma dimensão profundamente libertadora: “Não tenhais medo!” Jesus não promete que nada acontecerá aos discípulos. Ele promete que o Pai não os abandona. A missão, portanto, exige coragem profética.
As CEBs têm uma rica tradição de resistência. Em diferentes momentos da história latino-americana, comunidades cristãs estiveram próximas dos trabalhadores, camponeses, povos indígenas, comunidades negras e movimentos populares. A história das CEBs está vinculada à ligação entre fé e vida e à participação dos cristãos em processos de transformação social.
A coragem evangélica não é agressividade. É fidelidade.
10. “Não vim trazer paz, mas espada”
Mt 10,34-39
Talvez nenhum outro versículo do capítulo 10 de Evangelho de Mateus seja tão facilmente mal interpretado. Jesus afirma: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” É fundamental compreender que Jesus não está legitimando a violência.
A “espada” é uma imagem do conflito produzido pela decisão diante do Reino. Quando a justiça confronta a injustiça, surge conflito. Quando a verdade confronta a mentira, surge conflito. Quando os pobres reivindicam dignidade, aqueles que lucram com sua exclusão podem reagir.
O Evangelho provoca uma escolha.
Por isso, a paz cristã não pode ser confundida com acomodação. Uma sociedade pode parecer pacífica porque os pobres foram silenciados. A verdadeira paz é fruto da justiça.
A missão cristã precisa construir uma paz que não esconda conflitos, mas os enfrente de maneira não violenta e transformadora.
11. A cruz como consequência da fidelidade
Mt 10,37-39
Jesus fala da cruz e do seguimento.
No contexto do Evangelho, carregar a cruz não significa procurar sofrimento de maneira masoquista. Significa aceitar as consequências da fidelidade ao Reino.
O discípulo não pode colocar sua segurança pessoal acima da missão. Essa palavra é extremamente atual para uma Igreja chamada a acompanhar os pobres. Há momentos em que permanecer ao lado dos vulneráveis exige renúncia, coragem e perseverança. A cruz aparece quando a fidelidade ao Evangelho custa alguma coisa.
Uma Igreja que nunca é questionada pelos poderes estabelecidos talvez precise perguntar se está realmente anunciando o Reino.
12. “Quem vos recebe, a mim recebe”
Mt 10,40-42
O discurso termina com uma profunda identificação entre Cristo, seus enviados e os “pequeninos”. Acolher o missionário significa acolher Jesus. Mas o próprio capítulo transforma essa lógica em uma espiritualidade da hospitalidade: um simples copo de água oferecido a um pequenino não fica esquecido diante de Deus.
Aqui está uma das maiores revoluções do Evangelho. Deus se manifesta nas pequenas ações. O Reino acontece quando alguém oferece água.
- Quando uma família abre sua casa.
- Quando uma comunidade visita um enfermo.
- Quando uma liderança acompanha uma família ameaçada.
- Quando alguém defende uma pessoa injustiçada.
- Quando uma comunidade se organiza para lutar por moradia.
- Quando jovens encontram um espaço de acolhida.
- Quando uma Igreja se coloca ao lado dos que não têm voz.
A missão não é feita apenas de grandes projetos. O Reino também nasce de pequenos gestos de solidariedade.
13. Mateus 10 e a missão das Comunidades Eclesiais de Base
O Discurso Missionário oferece às CEBs uma verdadeira espiritualidade missionária. A comunidade deve ser:
- uma comunidade que vê, porque reconhece os sofrimentos do povo;
- uma comunidade que escuta, porque não impõe respostas prontas;
- uma comunidade que anuncia, porque proclama o Reino;
- uma comunidade que cura, porque enfrenta as feridas sociais;
- uma comunidade que acolhe, porque abre suas portas aos pequenos;
- uma comunidade que denuncia, porque não aceita a injustiça como vontade de Deus;
- uma comunidade que organiza, porque a fé precisa produzir transformação;
- uma comunidade que celebra, porque a esperança precisa ser alimentada;
- uma comunidade que envia, porque a Igreja existe em estado permanente de missão.
As CEBs podem ser compreendidas, assim, como uma expressão concreta de uma Igreja que procura realizar a missão de Jesus a partir das periferias. Sua importância não está simplesmente em serem pequenas comunidades, mas em possibilitarem uma Igreja profundamente vinculada à vida cotidiana do povo. A reflexão latino-americana identifica justamente essa relação entre comunidade, fé, promoção humana, solidariedade e compromisso com os pobres.
14. Uma pastoral sociotransformadora a partir de Mateus 10
Se Mateus 10 deve orientar a ação pastoral hoje, algumas consequências podem ser destacadas.
1. Ir às periferias
A Igreja precisa sair de seus espaços tradicionais e aproximar-se das periferias geográficas e existenciais.
2. Escutar os pobres
Antes de falar em nome dos pobres, é necessário ouvi-los. Os pobres não podem ser tratados apenas como destinatários de assistência; são sujeitos da evangelização e da transformação social.
3. Fortalecer as pastorais sociais
A missão de curar e libertar pode concretizar-se através da Pastoral da Criança, Pastoral da Terra, Pastoral Operária, Pastoral da Juventude, Pastoral do Povo da Rua, pastorais indígenas, pastorais de migrantes, pastorais carcerárias e tantas outras iniciativas.
4. Defender os territórios ameaçados
A missão inclui cuidar da Casa Comum e defender comunidades ameaçadas pela mineração predatória, desmatamento, grilagem, violência e expulsão de seus territórios.
5. Enfrentar as causas da pobreza
Não basta distribuir alimentos, embora isso seja necessário. É preciso perguntar por que existem pessoas com fome. A caridade cristã precisa caminhar com a justiça.
6. Formar consciência crítica
As CEBs podem ajudar seus membros a ler a realidade à luz da Palavra de Deus, discernindo as estruturas que produzem exclusão.
7. Valorizar o protagonismo dos leigos e leigas
Mateus 10 apresenta uma comunidade inteira enviada em missão. A Igreja missionária não pode depender exclusivamente do clero.
A missão pertence a todo o povo de Deus.
15. Uma metodologia de Leitura Popular da Bíblia
Mateus 10 pode ser trabalhado nas CEBs através de uma metodologia simples:
Primeiro: o que o texto diz?
Ler atentamente Mt 10, identificando quem fala, quem recebe a missão, para onde os discípulos são enviados, quais são suas tarefas e quais dificuldades encontrarão.
Segundo: o que o texto significava naquele contexto?
Reconstruir a situação das comunidades cristãs de Mateus, provavelmente situadas no final do século I, num período de tensões religiosas e políticas. A tradição missionária foi organizada por Mateus em um contexto posterior à destruição de Jerusalém, quando as comunidades cristãs enfrentavam conflitos e perseguições.
Terceiro: o que Deus está dizendo hoje?
Identificar as “ovelhas perdidas” do nosso território.
Quarto: quem são os pobres e excluídos que Jesus nos envia a encontrar?
A comunidade deve construir um mapa de sua realidade.
Quinto: o que precisamos fazer?
Transformar a reflexão em ação concreta.
Assim, a Palavra deixa de ser apenas objeto de estudo e torna-se força de transformação da realidade.
Conclusão: uma Igreja enviada às periferias
Mateus 10 apresenta uma Igreja que nasce do coração missionário de Jesus.
Jesus olha para o povo.
Jesus sente compaixão.
Jesus chama.
Jesus forma uma comunidade.
Jesus envia.
E envia para onde a vida está ameaçada.
O Discurso Missionário não apresenta discípulos instalados em estruturas confortáveis, mas homens e mulheres colocados a caminho. Eles devem anunciar o Reino, curar, libertar, acolher, compartilhar, enfrentar resistências e permanecer firmes diante das perseguições.
Essa é uma imagem profundamente próxima da vocação das Comunidades Eclesiais de Base.
A missão das CEBs não consiste simplesmente em conservar comunidades religiosas. Consiste em ser presença do Reino no meio da vida concreta do povo.
Por isso, uma CEB fiel a Mateus 10 precisa perguntar continuamente:
Quem são as ovelhas sem pastor de nosso tempo?
Quem está sendo excluído?
Quem está sendo silenciado?
Quem está com fome?
Quem perdeu sua terra?
Quem sofre violência?
Quem está sendo descartado?
Quem precisa ser acolhido?
E depois dessas perguntas vem o chamado de Jesus:
“Ide!”
Ir significa sair dos muros.
Ir significa aproximar-se.
Ir significa escutar.
Ir significa anunciar.
Ir significa cuidar.
Ir significa denunciar.
Ir significa organizar.
Ir significa lutar pela vida.
Ir significa construir fraternidade.
Na perspectiva da Teologia Latino-Americana, a missão cristã encontra sua autenticidade quando a Igreja se coloca ao lado daqueles cuja vida está ameaçada. A opção pelos pobres não é um acréscimo ideológico ao Evangelho; nasce da própria dinâmica bíblica do Deus que escuta o clamor dos oprimidos e do Jesus que se compadece das multidões.
Por isso, Mateus 10 continua sendo uma palavra dirigida à Igreja de hoje.
A Igreja não existe para permanecer parada. Existe para ser enviada.
E o caminho dessa missão passa necessariamente pelas periferias, pelas casas simples, pelos territórios ameaçados, pelas comunidades esquecidas e pelas pessoas que a sociedade considera descartáveis.
Ali, entre os pequenos, os pobres e os excluídos, a Igreja encontra novamente o rosto de Jesus. E ali, quando uma comunidade se coloca a serviço da vida, o Reino de Deus começa a acontecer.
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